Mariana Selas - Uma forma de comunicação diferente

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UMA FORMA DE COMUNICAÇÃO DIFERENTE



A primeira vez que ouvi falar de rádio amadorismo foi há muitos anos atrás, era uma miúda de 14 anos e fazia parte do Corpo Nacional de Escutas (CNE). Uma das actividades que o Grupo implementava e apoiava era uma, chamada “Jamboree no Ar”, que consistia em conhecermos o extraordinário universo das comunicações sem fronteiras. Numa época em que não havia, ainda, telemóveis nem televisão por satélite, o radioamador ultrapassava barreiras culturais, políticas, religiosas e linguísticas e abraçava em pé de igualdade um gosto e prazer pela partilha: de vidas interesses, desinteresses de ajudas, de amizades, de inimizades, tornava-se um ser universal, tolerante e generoso, preservando a sua individualidade e a sua identidade.

Muitos anos passaram desde que saí do CNE e deixei de ouvir falar no rádio amadorismo. Entretanto outras formas de comunicação surgiram desde os telemóveis, passando pela Internet.

Há pouco tempo atrás ouvi falar de novo no radio amador. Foi na televisão a propósito do Euro 2004 sobre o que se estava a fazer no âmbito da protecção civil, quais as medidas de segurança e comunicação, que se estavam a criar para evitar problemas que eventualmente pudessem surgir. Disseram então algo curioso: que seriam os radioamadores que assegurariam as comunicações se algo falhasse. E nós sabemos como é fácil acontecer algo de mau nomeadamente quando há interesses que se levantam e superam a simples vontade de diversão. Mais tarde, voltei de novo a ouvir falar dos radioamadores, neste caso a propósito de uma parceria criada entretanto entre os radioamadores e os bombeiros.

Pensei como era fácil para cada um de nós sermos envolvidos pelas novas tecnologias, tornarmo-nos de tal forma dependentes de pequenos rituais diários como utilizarmos o telemóvel e os computadores e de repente ficarmos sem o poder fazer. De tal forma nos limitámos que em situações de crise nos esquecemos das imensas possibilidades simples, seguras e “antiquadas” que podemos usar.


Foto de CT2FUH, radioamador


Assim o rádio amadorismo, actividade que nasceu no início do século XX ainda mesmo antes da radiodifusão, que tem particularidades, regras e legislação próprias surge de novo no panorama da sociedade civil.

Parece-me oportuno fazer uma pequena homenagem e partilhar aquilo que descobri sobre esta actividade tão discreta no entanto tão útil e importante. Fui falar com um colega e amigo e pedi-lhe que compartilhasse connosco o seu gosto pela comunicação, desvendando-nos um pouco esse universo tão desconhecido

Pude então perceber que o gosto por uma forma de comunicação diferente nasceu de um outro que já tinha pela própria rádio, electrónica e uma grande curiosidade em conhecer coisas novas. Já quando pequeno, gostava muito de ouvir rádio, ondas curtas… a leitura posterior de algumas revistas sobre rádio amadorismo onde pode observar as experiências realizadas, o convívio e a amizade, fizeram-no agarrar as ondas curtas e compridas e nelas navegar.

No entanto para ser radioamador é algo que exige determinadas condições e aptidões. Assim e antes de mais, têm que fazer um exame do qual constam perguntas de legislação utilizada nas radiocomunicações, electricidade e electrónica. A categoria a que cada um ficará afecto e que permitirá explorar determinadas frequências e modos de emissão, fazer transmissões digitais, telegrafia, etc., está dependente do grau de dificuldade desse exame. Depois, vem o equipamento, ainda bastante caro, e cuja qualidade e capacidade dependem da bolsa e da categoria de emissão que o radioamador tem.

Quanto a apoios o mais premente, mais concreto, mais seguro e efectivo é o apoio de outros radioamadores. Para alem desta cumplicidade entre praticantes do mesmo hobby, há ainda a REP, Rede dos Emissores Portugueses, uma instituição de utilidade pública, com mais de setenta anos de existência que representa, mesmo a nível internacional, a quase totalidade dos mais de cinco mil radioamadores existentes em Portugal.

Existe também o apoio da entidade que tutela as radiocomunicações (ANACOM), e poderá haver ainda algum apoio por parte de pequenas associações, corporações de bombeiros, protecção civil, etc. Mas fundamentalmente o maior apoio vem dos outros radioamadores.

Daqui se depreende a união e companheirismo de quem abraça esta forma de comunicar. Num universo em que a rivalidade e a competição tomam lugar nas mais pequenas formas de expressão, mais uma vez esta actividade, serve de exemplo como algo que se conduz dentro dos mais altos valores morais.

As razões que levam a que nesta altura se fale nos radioamadores como uma alternativa às comunicações mais usuais deve-se ao facto dos radioamadores serem praticamente os únicos com equipamento e conhecimentos técnicos para poderem colocar em funcionamento uma estação emissora mesmo que, por exemplo numa catástrofe, não exista energia eléctrica, nem antenas em bom estado.

A generalidade dos equipamentos dos radioamadores podem funcionar com uma bateria, de carro por exemplo, e os radioamadores têm conhecimentos e engenho suficientes para improvisar uma antena e assegurar assim as comunicações de emergência. Em grande parte a vantagem surge do facto dos equipamentos serem portáteis, aproveitando-se assim a mobilidade e dispersão geográfica dos radioamadores. É por este motivo que se torna útil a colaboração entre eles e a protecção civil, por exemplo.

Para terminar podemos trazer à memória dos nossos leitores, que não sendo o nosso país achacado a tragédias naturais, algumas houve em que os radioamadores estiveram presentes nomeadamente no terramoto dos Açores em 1980, o grave acidente de comboio em Mangualde em que o primeiro alarme foi dado por um radioamador, os desabamentos de terras nos Açores, os recentes incêndios no Verão passado, etc.

Muito ainda poderá ser feito no sentido de incentivar esta actividade assim como utilizá-la na interacção de actividades de segurança pública e protecção civil.



Texto: Mariana Selas
Fotos: CT2FUH, Paulo Sousa
Link relacionado: DOSSIER RADIOAMADORISMO



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