Naquele tempo

Separadores primários


NAQUELE TEMPO


João Martinho, seguido de CT1UP (Fernando Percheiro) e 

Mário Portugal (CT1DT)


Legenda: João Martinho, (CT1AP) seguido de Fernando Percheiro (CT1UP) e Mário Portugal (CT1DT)


Naquele tempo, isto é nos anos 48-50, os estudantes em Coimbra andavam num alto desassossego científico. As galenas vendidas pelo Zé Correia, electricista estabelecido na rua Antero do Quental estavam expostas na montra com um significativo cartaz que anunciava : “Estas galenas captam a BBC em Londres”.

A escuta do emissor regional da Emissora Nacional instalado em Montes Claros, um ponto alto da cidade, constituía um escape ao condicionamento imposto pelo toque da cabra que às 18 horas batia as 6 badaladas do alto da torre da universidade lembrando o cumprimento da praxe e avisando caloiros, bichos e semiputos que deviam recolher a casa para se livrarem das Troupes entre as quais ficou célebre a do Calado que sempre que podia rapava os mais descuidados fazendo na cabeleira um ridículo e largo risco ao meio que dava um aspecto “psicodesintrabinquadrilhado” ao apanhado.

Esta imposição que nada tinha a ver com a barbárie que se instalou na maioria das escolas do nosso país era rigorosamente controlada pelo dux veteranorum, verdade seja dita, um bom substituto do poder paternal que, por razões óbvias, estava arredado do percurso diário de cada estudante.

A proverbial penúria que então era uma constante na vida académica (só de vez em quando é que se ia ver uma cowboiada ao cine teatro Sousa Bastos) foi um factor limitativo de extravagâncias e ao mesmo tempo a causa da valorização das galenas do Zé Correia visto estas serem uma válvula de escape para o tédio acumulado na leitura das sebentas, manuais e códices.Daí que arranjar os cem paus para adquirir um aparato desses era, por si só, um sacrifício que valia a pena fazer. Lá foram muitos sujeitar-se aos comentários escarninhos do Correia, largando a massa em troca duma cuidada embalagem e dos judiciosos conselhos técnicos :

-Ó doutor ligue ao borne da antena o colchão de arame da cama e à terra o cano da água! Não troque as ligações!

Pois este vosso criado, constituindo um triunvirato com o Martins de Carvalho, estudante dos preparatórios de engenharia e com o Pires das Neves, aluno da escola industrial Brotero também foi à oficina do Zé Correia tendo os mesmos por acólitos. Adquirido o aparato lá fomos parar a uma república, onde perante a curiosidade e os dixotes de vários repúblicos procedemos à montagem da galena.

Era esta constituída por uma bobina com cursor, um condensador variável e um detector de sulfureto de chumbo.e, obviamente, por uns auscultadores que não faziam parte do kit do vendedor.

O que mais nos fascinava era o movimento das lâminas do condensador. Seria ali que residia o segredo da recepção da BBC ? E durante uma noite fizeram-se as mais díspares tentativas sem quaisquer resultados para todas as posições do cursor e do condensador o resultado era o mesmo: Emissor Regional!

Para se poder entender o desaire logo ali se convocou um plenário onde se distinguiu, em veementes discursos, a malta de Direito que se propôs ir junto do Zé Correia reaver o dinheiro de jure.

No dia seguinte, uma luzida embaixada de capa e batina lá foi à rua Antero do Quental ocupando de imediato toda a área do estabelecimento. tendo o Noronha gasto uma meia hora, citando princípios do direito romano para desclassificar a galena e exigir a devolução dos cem paus.

O Zé Correia pediu a palavra e dixit :

-Meretíssimos doutores.provem-me lá que levaram a galena a Londres para ouvir a BBCVou devolver 50 paus para irem beber uns copos ao Toino Ladrão!

Perante o inesperado desfecho da situação reuniu logo ali o plenário que encarregou o Noronha de proferir uma inflamada oração de sapiência pela qual foi concedido, ao Correia o título de doutor honoris causa em galenas...

Zé Correia exigiu diploma que lhe foi passado em latim macarrónico .Durante muito tempo foi motivo de atracção na montra do seu estabelecimento.

O doutoramento do Zé Correia que passou a ser conhecido por Dr Galena não foi epílego que tenha arrefecido o ânimo do trio que, ao invés se empenhou mais na solução do problema da recepção galenística, definindo numa mesa do café Montanha a estratégia para levar de vencida a inoperância das montagens do Dr. Galena e, se possível, fazer-lhe uma concorrência feroz.

Assim, no cumprimento do 1º ponto dum plano maduramente reflectido ficou resolvido fazer-se uma revisão cuidadosa de todos os capítulos da Física que versassem ondas electromagnéticas e propagação das mesmas o que equivale a dizer que, sem uma motivação própria, tais capítulos passaram duma chatice a assuntos prioritários de todas as conversas, ao mesmo tempo que se formalizavam buscas nas livrarias e bibliotecas para descobrir literatura que ajudasse na resolução do desafio posto às capacidades destes jovens arredados doutras preocupações mundanas.

E foi assim que um dia o Martins apareceu com um livro adquirido na livraria Almedina, livro esse que viria a ser determinante na evolução e sequência de todo um processo de pesquisa para o fim em vista. Tratava-se duma obra cujo autor era Alan Boursan e tinha por título “Construa um Posto de TSF”.


Capa do livro


Devidamente folheado, fomos tomando contacto com uma esquemática e descrição de circuitos, para nós estranhos e indecifráveis visto desconhecermos a simbologia própria de cada esquema e sua inter-relação com o seu valor traduzido em prática.

No livrinho estavam excluídas as galenas... Era tudo válvulas A415..., B406..., B409, etc.etc, tríodos em que se referenciava a firma fabricante no vidro espelhado e negro o que despertava um mundo de interrogações.

Como éramos 3 e porque achámos graça à coincidência, empenhámo-nos em estudar todo o funcionamento dessas válvulas e lá voltámos à Física para apreciarmos com outros olhos a figura emblemática de Lee de Forest, o verdadeiro pai da electrónica. Naquele tempo, o estudante, caldeado por dificuldades de toda a ordem, conseguiu sobreviver a muitos desaires aplicando uma espécie de automedicação psicológica de resistência, adoptando como divisa o princípio Acção-Determinação. Em obediência à filosofia implícita no binómio e por analogia com as descrições dos alunos de medicina, o Martins propôs:

-Vamos procurar uns rádios velhos..., abri-los..., desmanchá-los...

Acode o Neves :

-E retalhá-los na sala da anatomia... eh...eh...eh...!

A primeira dádiva é uma gentil oferta duma senhora moradora na Rua da Sofia onde comparece o Martins acompanhado de quatro caloiros mobilizados para o transporte da máquina. Colocada esta sobre uma capa estendida no chão e pegando cada um numa ponta, iniciou-se o cortejo em direcção à rua Visconde da Luz, ponto nevrálgico do bulício académico tendo parado várias vezes para satisfazer a curiosidade de vários doutores que inquiriam sobre tão insólito desfile. Dali rumaram, num eléctrico, para Santo António dos Olivais onde, na toca deste vosso criado ficou depositada e em espera aquela preciosidade com que nos havíamos de iniciar a nossa auspiciosa actuação no mundo das válvulas.

Mas eis que, consequente da evolução dos factos, é definida nova estratégia em que sobressai uma intenção de espionagem. O Neves foi destacado para se relacionar com um bobinador que tinha a oficina junto da estação nova. A sua missão era recolher todos os conhecimentos necessários para a bobinagem de transformadores. O Martinho iria conversar sobre bola com o Ferreira da Rádio Mondego, oficina de reparações localizada num estranho gaveto da rua Corpo de Deus, com a intenção escamoteada de recolher tudo o que fosse útil para a tarefa que se avizinhava- construir um rádio a válvulas...! O Martins, por sua vez, coligiria em caderno próprio todo o material informativo que funcionaria como guião. À volta da banca do senhor Albano, sapateiro, que naquele tempo exerceu a profissão no rés do chão da Real República dos Kágados, figura muito estimada pela academia, foram ouvidas muitas anedotas, das quais eram um exímio narrador. Também ali o triunvirato deu a conhecer a tarefa que tinha pela frente e o senhor Albano, um dia, depois de tomar conhecimento de nova problemática, espreitando por cima dos óculos e interrompendo o brunir dumas gáspeas ofereceu a sua disponibilidade:

-Os senhores doutores façam o rádio que eu faço uma caixa em madeira...

Seguiu-se um ruidoso exteriorizar de agradecimentos com o júbilo próprio daquela mocidade coimbrã desse tempo, sempre altruísta e nobre de sentimentos. O senhor Albano passou a fazer parte da equipa e foi nomeado mestre de caixas cum laúde (com louvor).


O receptor


Só com a eloquência do Padre António Vieira seria possível descrever cada passo deste dealbar estudantil. O Neves, um moço imberbe e loiro fundiu peças em alumínio, torneou-as e fez uma máquina de bobinar verdadeiramente revolucionária que espantou os profissionais da época. Serrando, cortando e soldando, sem qualquer instrumento de medida a obra foi tomando forma até que um dia se procedeu à primeira experiência de recepção. Entretanto o senhor Albano havia reparado um velho altifalante de agulha colocando-lhe um novo cone de cartolina. E foi com solenidade que o Martins recitando César se voltou para o rádio:

-ALEAJ ACTA EST FIAT RADIO ( a sorte está lançada, faça-se rádio ) .

Aquilo arrancou com uma enorme chiadeira porque era um primitivo circuito a reacção mas, reduzida esta, no respectivo condensador, logo seouviram várias estações...!

Foi um delírio...!

Acalmados os ânimos, o grupo, inconformista com o inesperado sucesso partiu de imediato para novas experiências e logo vai de fabricar um novo jogo de bobinas com as quais era suposto sintonizar a onda curta.

Na verdade mal tínhamos acabado a sua instalação começámos a ouvir uma voz que, insistentemente repetia:

-Chamada geral de CT1AZ... América... Zelândia...

Ficámos atónitos sem atinar com o significado daquilo... seria alguém que estava a pedir uma boleia para a América ou para a Nova Zelândia!?

Indagámos e viemos a saber que se tratava dum senhor doutor que tinha um emissor e era director do observatório astronómico da universidade. Mais... morava numa rua do lado de cima do Jardim da Sereia. E palavras não eram ditas já o trio estava a bater à porta duma vivenda na rua Pedro Monteiro onde eram visíveis muitos fios (supostas antenas).

O dr Barata Pereira ao ter conhecimento do motivo que ali nos levava introduziu-nos de imediato numa sala onde havia dois aparelhos sobre uma secretária tendo-nos explicado que um era o receptor e outro um emissor o qual, segundo nos informou tinha duas válvulas 42 em paralelo e era controlado a cristal. O receptor era uma peça elaborada que nos fez abrir a boca de espanto pela quantidade de botões que tinha no painel.

Muito receptivo e mostrando muita vontade em nos ser útil e agradável logo se mostrou disponível para fazer uma comunicação exemplificativa emtelegrafia.

Mudos e quedos ouvimos aqueles pi pis sem entender nada do que significavam mas que o bom do dr nos ia traduzindo. Depois, na qualidade de delegado distrital da rede dos emissores portugueses explicou-nos o funcionamento desta associação vincando o compromisso de irmandade dos seus membros onde não havia lugar para quezílias e mal entendidos... que não havia qualquer discriminação social entre sócios, apenas se exigia educação, respeito e civismo. Fiel aos princípios que nortearam os radioamadores.


Texto: João Vitalino Martinho, CT1AP
Fotos: Mário Portugal, CT1DT
Edição e revisão: aminharadio.com

Comentários

Mas que saudade tenho de ouvir a maravilhosa vóz de CT1ST o saudoso Abilio, sempre que se deslocava á sua terra Natal Monção, fazia questão de me visitar quando passava por Valença.
Tal como ele fizera, também eu montaria em 1972 outra preciosidade gêmea da que ele possuía, Um Emissor para os 2m que para mudar de frequençia era necessário mudar o Cristal através dum orificio na parte frontal, á parte o receptor de sintonia variável, tudo origem da marca BÉLIO, que ainda o mantenho e poderia oferecer a quem mostrasse interesse em conservar, eu já não me desinteressei.

Muito obrigado pelo seu comentário.
Gostaria muito de entrar em contacto pessoal consigo. Como não colocou nenhum endereço de E-mail, faço-lhe este pedido usando esta via pública.
Por favor, use o formulário de contacto que está na barra de navegação do site.

Desde já, o meu muito obrigado,

António Silva

Este conjunto de dois equipamentos saliente-se, que o recetor é de banda corrida, é só ligar a fonte de alimentação exterior de 12V e pronto, encontra-se em perfeitas condições de utilização, é só ligar e...

TLM para contacto: 966615608

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Meus bons amigos amantes da Rádio.Acabo de receber um email que decerto não seria para mim, mas que me deu um prazer enorme a ler.
Estamos todos de parabens pelo real crescimento do nosso site.
Bem hajam pelo empenho na pressucussão de tão nobre objectivo.
Um bom Ano de 2007,para toda a Equipa.
José António Duarte Borges

artur fernandes

Em resposta ao meu comentário manifestava V.Exª interesse em contactar-me pessoalmente "o que agradeço e estou ao dispor" como não sucedeu até á data, razão pela qual por esta via junto e-mail= ct1yau@hotmail.com mui Grato

Os que tiveram a sorte de nunca terem sido contaminados pelo vÍrus da electronica, não poderão possuir ou atribuir valores, como os que foram possuiem, "e para quem sabe" quantas diferenças", mesmo daqueles que com reduzidos conhecimentos veêm na electronica uma das maiores invenções de todos os tempos, pois sem ELA o mundo seria tão diferente, como o são alguns homens devido a ELA, e até com bastantes negativas, pelas posições "mal" assumidas, ou levadas a cabo, graças á ELECTRONICA.

artur fernandes
O que tenho lido e construído graças a CT1DT !Que muito grato lhe estou caro colega, não só pelos seus útilissimos esquemas ou ideias, mas pela sua disposição, pela vontade em ajudar a entender melhor a RADIO, quantos mais, melhores seriam, se pelo menos lessem e compreendessem o que na QSP por exemplo "sem publicidade" V.Exª publica, certamente cujo interesse é apenas o tal, mas quantos como eu lhe devemos imenso, muito OBRIGADO Mario Portugal. Meu indicativo CT4LZ bastante recente mas já comi o pão que o diabo amassou "creia" teria imenso gosto e prazer possuir uma QSL sua, de Novo Muito OBRIGADO, desde Valença, R.D.P.

Meu caro colega Artur Fernandes

Pode crer que fiquei bastante surpreendido por vir encontrar em "aminharadio", essa sua mensagem tão simpática e cheia de carinho, para com os meus simples escritos em QSP, onde já contam cerca de 900 páginas.
Como talvez saiba, há uns anos, antes da QSP, era nas Selecções de Radio e durante 9 anos, em todos os Boletins Técnicos da RARET.
Mas mesmo agora, já a tocar com a biqueira do sapato, nos 80 anos, continuo agarrado à vida, mas em especial a recordar o passado, desde a minha infância, no meu Blog www.engenhocando.blog.com
Se me enviar a sua morada, terei muito gosto em lhe enviar o meu QSL que, até, por acaso, vem publicado no último QSP,307, a páginas 48.

Mário Portugal

Caríssimo amigo e colega, MARIO PORTUGAL CT1DT "permita assim tratá-lo", fiquei muito satisfeito pela pronta resposta á M/ mensagem, mas recuso dar-lhe ainda mais trabalho do que o imenso que tem tido com o objectivo de cada vez mais, melhor tantos saberem lidar com a ELECTRÒNICA, de minha parte sinceramente agradeço.
Pode satisfazer meu pedido por e-mail, ct1yau@hotmail.com.

Onde estão esses que desde raiz fizeram...
Como muito bem refere o caríssimo amigo do artigo, "quanto nunca escrito" e talvez nunca venha a ser, mas que consequençia das RADIOS LOCAIS originariam não só as controvérsias próprias ou não com persseguições, injustiças, desavenças em tantos casos, perdas de saúde, refeições totalmente esquecidas, sonos sem dormir, descanso esse não sentido antes de terminar o trabalho em causa, mas sobretudo perdas enormes, de haveres "quando eram aprendidos", e conseguidos sacrificando a familia "quanta vez" que componha o agregado familiar, privando-o de outros bens essenciais mas, e conforme alude o comentário, a história nem sempre é contada, ou escrita tal e qual se passou realmente com toda a verdade, ou isenta...Mas, e não pretendendo fazer juízo, nem relatar ocorrençias, factos que até julgo deveria, mas prefiro não o fazer, apenas como tópicos "permitam a inocencia" coloco a questão que desde á tempos me intriga... Quem são os actuais detentores da maior parte dos alvarás das Radios locais? "Já não refiro quantas transmitem para todo o país" Quantos são esses que durante anos e anos, trabalharam com afinco para conseguir e construir, carregar ás costas, montar, afinar, manter/sustentar, essas para então serem, Radios Locais, mas sobretudo que frutos colheram?...Longe de pensar como tanto se poderia querer a algo que de seguida seria entregue como foram, a qualquer pelintras que SEM OFENSA são "trolhas, carpinteiros, médicos, advogados, autarcas", e não é por algo ter contra cada um deles, que poderá ser mestre na sua profissão", mas leigos no essencial a que pretendo aludir, "com raras excepções friso", como é que esses se deveriam apelidar? Oportunistas, não?!
Porque foi a troco duns $$$, pela feitura dos bonitos projectos que apresentaram, iludiram os serviços aquando do concurso para a atribuição dos Alvarás, porque "os que como eu" estiveram metidos até ao pescoço, faziam-no com amor, nunca pensaram em recompensas, que " embora só mais tarde" poderiam vir á custa dessa dedicação.
Sinto-me desiludido desde então, porque além doutros factores, não foram tidos em conta os esforços a que tantos dedicaram, dias e noites, sem pensar noutra coisa que não fosse a RADIO que aí está, mas caso para a questão COMO?!


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