Resposta ao artigo "A TSF no lar conjugal"

Separadores primários


A TSF NO LAR CONJUGAL - RESPOSTA


Quando ha dias via sobre a minha secretaria a correspondência que me era dirigida, deparou-se-me uma carta que logo, pelo formato do envelope, bem como pela caligrafia rasgada e irrepreensivelmente ingleza, chamou a minha atenção.

Um perfume delicioso que exalava envolvia o pequeno ambiente do meu escriptorio

Analisei-a com a curiosidade natural de quem tudo quer ver atravéz do envelope De quem seria?

Abri-a, nervoso e com aquele desejo extraordinário que todos sentimos, quando queremos adivinhar quem é o auctor d’uma carta cuja caligrafia não conhecemos. Recorri imediatamente á assignatura, mas., por muito que insistisse para a dicifrar não me foi possível de momento

Essa carta que aqui vou transcrever na integra, é uma critica ao artigo que no passado numero aqui escrevi com o titulo que serve d’epigrafe a este escripto.

Eil-a..


Senhor Victor França

Ha dias, seguia eu em carro eléctrico para Leça, em visita a uma amiga d’infancia. A meu lado um cavalheiro folheava tranquilamente uma revista cujas ilustrações de quando em quando chamavam a minha atenção Em Carreiros com a precipitação com que sahiu, deixou abandonada a publicação. Peguei nela e folheando a encontrei na ”T.S.F. em Portugal” um artigo seu que chamou a minha atenção, e que li depois á minha amiga. E no seu belo artigo tão interessante, encontrei o motivo de lhe endereçar estas linhas, para lhe expor alguma coisa que imenso desejava ver respondido

Pareceu-me tão extraordinário o seu artigo, não pela forma mas pela sumula, que da estranha solidão em que me encontro velo o rosto atraz da revista que por felicidade me veio ás mãos, e dirijo me a V; um pouco Incrédula e muito curiosa a rogar lhe me esclareça alguns pontos do seu artigo que parecem inverosímeis

A sua curiosidade, ha-de pfrguntar-lhe quem sou antes de tudo. Vou tentar responder-lhe tanto quanto possível, veladamente é certo, pois receio não terem morrido de todo em V. os antigos hábitos de ”bom vivant” que do seu artigo transparecem

Sou mulher. Uma quasi desiludida, quasi solteirona-, a quem os desgostos próprios e alheios emprestaram uma indiferença e um sceticismo bem pouco próprio da minha idade

Veja V... . 25 anos e já quasi no ostracismo essa ilusão doirada que nasce na alma de todas as mulheres,., duma casinha singela solheirenta e enflorada, onde brincasse um rosto de anjo e onde uns braços me apertassem agradecidos d’essa felicidade, sempre velha e sempre linda!

Descri.. Tanto soube e tanto vi d’essa fictícia vida d’hoje que já não posso acreditar na felicidade do lar conjugal

Às vezes nas, horas tristes do meu viver de sedentária perguntava a mim mesmo como podia alguém deixar-se enganar pelas palavras mentirosas do noivado, sabendo e vendo o que dia a dia acontecia á sua amiga mais intima, abandonada e triste após o seu primeiro mez de núpcias. E .. d’ahi a minha desilusão. O meu afastamento

Mas o seu artigo, meu amigo- (conheço-sabe?) veio trazer ao meu isolamento um raio desperança. E, sabendo eu, como sei que fala por experiência, não calcula como estou anciosa por saber o mais que sobre o assumpto promete dizer proximadamente

Deixe-me que duvide um bocadinho. Sou uma descrente tão grande meu amigo! Nem conheço ainda esse grande invento de que por varias vezes tenho ouvido falar, nem creio que ele tenha o condão de prender em casa aquele que nós mesmas, as mulheres, não conseguimos. E sabe? V. é mau; e, desculpe-me a liberdade. Não vê que nos colocou numm plano inferior aos aparelhos de radio telefonia?

Vencidas, pela sciencia, nós, as mulheres!..

Pela parte que me diz respeito perdoo-lhe se prometer tirar-me d’esta duvida terrível que me coloca na hesitação de não saber ser Mulher

Vou terminar, meu amigo por lhe dizer que espero com anciedade ver em breve a revelação do celebre segredo para lhe agradecer a felicidade que se propõe dispensar com a sua teoria, aquelas que como eu vivem esquecidas, da vida e da felicidade

Perdoe me ainda a ousadia de o molestar e creia-me,
sua admiradora

Carmen Conrádio


E quem é que ao ler uma carta d’estas não sente um desejo enorme de a voltar a ler, ao terminar a sua leitura?

Assim fiz! Lia-a muitas vezes e por fim recorri á minha memória para ver se conseguia saber quem, chamando-me ”meu amigo” me escrevia d’aquela maneira

E... não tardou muito que eu ficasse persuadido que tinha decifrado o enigma, e vou ver se consigo retratar em largos traços a creatura que com imerecida elegância se me dirigiu

Alta, elegante usando sempre umas toiletes muito próprias e de um fino gosto, Cabelos loiros anelados, uns olhos roubados ao firmamento n’uma noite de luar, encimados por dois traços lindíssimos, as orbitas ligeiramente azuladas o que lhe faz realçar o seu olhar vivo, inteligente e cuja linguagem era digna de ser cantada em um poema.

Por boca, um escrínio de pérolas tendo por fecho uns lábios sensuais onde o carmim natural de frescura sobresae na epiderme que só os anjos possuem

Corpo de Fada e sentir de creança

Eis o retrato da creatura que me escreveu a carta que acabas de ler meu caro leitor

Agora para ela:


Minha Senhora
Oxalá V. Ex.a possa encontrar de novo esta revista, para n’ela ver que se não escreve impunemente uma critica, a quem não tem a pretenção de saber escrever, mas apenas a de dizer na linguagem vulgar, o que sente e o que é verdade

V. Ex. confundiu os dizeres da minha carta

Tirou conclusões erradas das minhas palavras

Por ventura seria alguém capaz de trocar a ventura do seu olhar, ou qualquer outro prazer por mais scientifico que ele fosse? Não seja injusta!

Disse n’aquele meu artigo, e repito hoje: A T.S.F. ou melhor um aparelho de recepção de telefonia sem fio, ha de vir a ser um grande purificador do lar conjugal. Ha de proporcionar a todas as pessoas amantes de seus maridos uma grande felicidade, mas isto apenas no que diz respeito á permanência do marido em casa á noite, á hora das diversões noturnas que tantas e tantas vezes são a origem de desavenças com as esposas desconfiadas, que receiam lhes roubem a única alegria que possuem quando amam verdadeiramente seus maridos

Creia minha Senhora, que se em alguns lares existisse esse pequeno aparelho de T.S.F. que V. Ex. desconhece, não se passariam factos que desgraçadamente vemos todos os dias.

E, se me restasse alguma duvida do que afirmei bastaria ver que a carta de V. Ex.a veio confirmar exactamente o que penso, nas suas expressões sentidas, de desalento e desilusão.

Então V- Ex.a não vê que os seus queixumes são apenas motivados (é o que se deprehende) pelo abandono a que foi lançada, embora injustamente?! Então não vê V. Ex.a, minha senhora, que nós homens, perdemos em um momento toda a serenidade, e esquecendo muitas vezes os nossos deveres, pela tentação, d’uns momentos? E, deixe-me dizer-lhe, quantas vezes se evitariam certos encontros se não sahissemos de casa á noite?

A noite favorece tudo que é mau, embora sob aparência de bom

Quantas vezes um simples olhar não é o rastilho de uma paixão? Que de coisas eu poderia dizer-lhe para a convencer de que a sortida noturna é muitas vezes o caminho para a dissolução do lar conjugal !

Imagine V. Ex.a que depois de jantar, lhe era dado ter a seu lado, seu marido, procurando proporcionar-lhe um concerto variadissimo em que se aprecia boa musica e emquanto V. Ex.a trabalhava nos seus lavores ele procurava ouvir nitidamente “ABOHEME” em Roma, a ”Cavaleria Rusticana” em Madrid ou o ”Jazz” de Londres! Não lhe parece que isso seria o ideal? Depois, á meia noite, as badaladas da Westminster vinham dar por terminada a audição.

Acrescente a isto uma chávena de chá na companhia de pessoas amigas que desejam ouvir com imensa curiosidade a T.S.F. e teria V. Ex.” o paraíso em casa.

E então se se vive em pleno campo onde escasseiam todos os divertimentos é um encanto receberem-se de muito longe, concertos, operas trechos de musica regional etc. etc. que nos levam a supor a T.S.F. um invento sobrenatural.

Não pense minha senhora que isto duraria uns dias; não! Seu marido tomaria tamanho “vicio” por tal sciencia que algum tempo depois, nem mesmo V. Ex. com todos os seus carinhos seria capaz de o arrastar de casa!

Pôde V. Ex.a não acreditar, nas minhas palavras, mas se conhece, ou se tem nas suas relações alguém que possua esse ”vicio” verá que dificilmente aceitam qualquer convite ás horas em que em Madrid se canta a “LUCCIA” ou em Paris um programa de Wagner.

Sou mau... diz V. Ex.a, porque anteponho ao carinho da mulher um aparelho de T.S.F.

Envaidece-me com o insulto, mas deixe-me dizer-lhe, que V. Ex.a não compreendeu bem o que eu quiz expor! E se compreendesse, não me chamaria mau, não, porque uma boca tão bonita, uns lábios como os seus não são capazes de pronunciar uma palavra d’agiavo se ela não for justa.

Veja, minha Senhora se insinua no espirito de seu marido a ideia de Radiofilo, e ha-de ver a transformação que n’ele se opera.

Perdôe-me, sim ?

Confessa-se agradecido de V. Fx.a

Victor França



28 de Março de 1926

Nota: Foi preservado o português original



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