Autorretrato de Mário Portugal

Separadores primários

Pequena biografia

Historial sobre a vida de Mário Portugal Faria

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Eu nasci em 14 de Julho de 1927, na ilha de S. Miguel, Açores, fruto duma paixão relâmpago de meu pai, que era Eng. de Máquinas, continental e havia visitado a ilha, para orientar a montagem duma grande oficina mecânica de serração de madeiras, em Ponta Delgada.

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Como tinha de lá estar uma certa temporada, foi convidado a visitar meu avô, que era madeirense, e médico na freguesia de Ginetes, Carlos Bettencourt Leça, pessoa com muitas habilidades e até dispunha de bom material fotográfico, uma bela oficina de vários ofícios, músico, entusiasta pela electricidade e sendo também um exímio caçador, era casado como uma artista de música, e ao mesmo tempo professora de inglês e francês, Leonor Ferraz, também madeirense, irmã do falecido CT3AB.

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Desse casamento nasceu em 1902 aquela que viria a ser a minha mãe. Dado ser uma família muito conhecida nessa ilha, os donos da fábrica resolveram levar o Eng. Martins Faria, assim se chamava ele, pessoa muito dotada de sensibilidade artística e também caçador, para ir visitá-los, porque lhe disseram que a minha mãe era uma preciosa intérprete de musica de piano e iria conhecer o meu avô, que era o melhor caçador da ilha e pessoa imensamente interessante de conhecer, pelas suas múltiplas actividades além da medicina. O encontro "musical" desse indivíduo com a minha mãe, Maria da Luz, veio a resultar que, passados poucos anos, tivessem nascido 5 filhos, sendo meu irmão Carlos Bettencourt Faria, que mais tarde se viria a mostrar em Angola, com o seu Observatório na Mulemba, como um português de IIa, o primeiro filho e o terceiro era eu. Dada a pequena diferença de idades, ainda nos cruzámos na escola primária, orientados por um professor, o Sr. Santos, que já era um entusiasta pelas coisas científicas e até tinha (avariado), um dos primeiros receptores de rádio que haviam aparecido no mercado, que tinha mandado vir do Continente, aparelho alimentado a pilhas.

Foi conversando com ele, que ambos soubemos que existiam comunicações via rádio, já em todo o mundo e que certos instrumentos, como um simples aparelho dotado de um detector de cristal de galena, poderia ouvir muitas dessas estações colocadas a muitos milhares de quilómetros de distância e até nos ofereceu um destes detectores e orientou na construção dum receptor.

Ele logo nos foi dizendo que era necessário um grande fio de cobre e, numa oficina de automóveis, lá conseguimos que nos dessem um dínamo queimado, de onde retirámos todo o fio para fazer não só a bobine, mas também uma longa antena. Ao ver o nosso entusiasmo pelo assunto, logo nos ofereceu um par de auscultadores e um detector de galena, com o que, depois de muitas horas de insucesso, começámos a ouvir primeiro estações telegráficas, coisa que muito viria a entusiasmar muito mais meu irmão do que a mim, e logo depois a BBC, embora misturada com outras estações.

Num certo dia, depois de muito brincar com o detector de galena, e com as espiras da bobine, até consegui ouvir as horas da BBC. Fui logo a correr dizer a meu avô que podia acertar o seu relógio por Londres, coisa que lhe custou um bocado a engolir... Ainda me lembro de ver o seu retorcido bigode branco a tremer... Mas na hora seguinte, lá colocou na cabeça os auscultadores, mas dada a sua provável falta de ouvido devido à idade, não conseguiu ouvir nada... Uma hora depois, e por ter ficado a pensar naquele "fenómeno", já estava ao meu lado à espera que eu lhe dissesse as horas de Londres, o que veio a acontecer e logo acertou, todo vaidoso, o seu belo relógio de bolso. Nessa época, em especial no verão, éramos muito visitados por veraneantes da cidade que para lá iam fazer férias e conviver com os consertos musicais da família. Foi com profundo orgulho que um dia ouvi meu avô garantir que tinha o seu relógio acertado pelas horas de Londres, e todas as visitas se apressavam a acertar os seus pelo do meu avô, que os informava de que tinha sido o seu neto Mário a ouvir a BBC no galena.

Entretanto, com a ajuda do meu avô, foram recompostas as baterias do rádio do nosso professor e para nosso espanto, a "coisa" começava a dar recepção de muitas estações. Foi nesta altura que aprendemos que bastava um fio de cobre, para fazer chegar ao outro extremo sinais eléctricos, desde que houvesse uma terra nos dois lados.

Entretanto o entusiasmo de meu irmão pela telegrafia já era enorme, tendo para tal contribuído novamente o nosso professor com o código Morse

Estávamos e 1935 e no Continente, a vida profissional de meu pai estava a ficar muito difícil, devido às constantes revoluções e acabando por contrair uma tuberculose, teve de abandonar Lisboa e ir viver os seus últimos anos para S. Miguel, para casa de meu avô, com quem eu estava a viver com minha mãe e irmãos. Meu avô estava apavorado com a sua presença perto de mim, porque meu pai levava a vida a chamar-me para o ajudar. Mas eu não podia fugir... Como o feitio de meu irmão não se coadunava em nada com o do meu pai, foi meu irmão enviado para a Ilha da Madeira, para casa do que já era CT3AB, pai do presente CT3AB Henrique Ferraz, nosso primo, pelo lado da minha avó. Meu pai vem a falecer quando eu tinha 11 anos e começava a estudar na Escola Industrial de Ponta Delgada, mais ligado às mecânicas do que outra coisa qualquer. Com a morte de meu pai e de meu avô, viemos todos para Lisboa, mas com enormes dificuldades financeiras. Em 1945 aparece-me a terrível doença que vitimou meu pai e aí vou eu direito a um sanatório do Caramulo, onde estive entre a vida e a morte, durante 10 longos anos. Mas em 1948, era meu irmão CT1UX e vivia na Parede, lá me entusiasmou para que fosse radioamador, para podermos comunicar pela Rádio. Por ter conseguido, com grande sacrifício arranjar o dinheiro para comprar um velho receptor musical usado, um velho Philco e que só dava para ouvir os 40 metros, foi usando a sua própria fonte de alimentação que fiz um pequeno emissor de AM com modulação por "screen" e com ele comecei realmente a minha vida de radioamador, tendo sido nessa altura que entrei em contacto várias vezes com CT1BH, o nosso mui querido colega e amigo Dr. Nogueira Rodrigues (e muitos outros) que estava a estudar medicina nessa altura.

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Naquela época, havia muito poucos radioamadores em 40 metros, mas já se procurava, por todos os meios, conseguir uma qualidade de modulação que se aproximasse das "broadcastings"... Já nessa altura era uma "guerra" para descobrir um bom microfone... pois para os profissionais, ninguém tinha dinheiro... Nessa altura, já havia grandes figuras na rádio, como CT1IP, CT1CW, CT1BT, CT1AP, CT1QA, CT1PK, CT1QW, etc. etc. mas por norma, toda a gente se mantinha mais a escutar do que a pedir controles ou a enviar cumprimentos... Assim, tínhamos mais tempo para aprender e se se queria falar, teríamos de fazer chamada geral noutra frequência e esperar pelas respostas.

Ou seja, havia muito respeito pelos constituintes e tipo de conversa dos QSO's.

Era prova de muito má educação o pedir a entrada num QSO e logo dizer que não se sabia para quem se deveria mandar o microfone, pois isso indicava que não se tinha feito escuta suficiente.

Na actualidade, nada disto se observa, o que faz saudade dos velhos tempos em que havia muito respeito e muita ordem.

Na actualidade, o dinheiro disponível para as "brincadeiras" deste tipo, é tão grande, que pouco se vê alguém tentar aprender seja o que for, até porque a evolução da tecnologia electrónica foi tão grande, que hoje seria impensável alguém tentar fazer por suas mãos, um bom receptor ou transceptor.

Por outro lado, só as pessoas muito abonadas financeiramente, em 1950, poderiam adquirir aparelhos de fábrica, mas em 1952, já existiam alguns portugueses que possuíam caríssimos equipamentos de fábrica, como CT1LX, CT1FX, etc. Nessa época, usavam-se muito os velhos receptores de música, com várias bandas e depois íamos fazendo conversores e amplificadores de RF, se queríamos ouvir estações de muito longe.

Como os emissores de AM até nem eram muito complicados de fazer, com mais ou menos ajuda, todos íamos conseguindo fazer os nossos. As ajudas eram fáceis de encontrar, porque TODOS só tínhamos UM emissor...

Mas a entrada do SSB em 1951, no domínio público, veio alterar profundamente este estado de coisas, porque já não eram coisas fáceis de fazer e a sabedoria dos velhos AMistas havia sido ultrapassada... Assim, e embora com grande resistência por parte dos amantes do AM, rapidamente todo o mundo se voltou para o SSB e vários fabricantes mundiais começaram a aparecer com equipamentos que, com certo sacrifício, uma pessoa lá ia conseguindo adquirir. Foi a época dos Geloso, dos Swan, dos National, dos Drake. etc.etc.

Foi nesta altura que os EUA se interessaram em montar uma enorme estação de "broadcasting" em Portugal, a RARET, que chegou a ser a segunda maior potência do Mundo no ar, em RF.

Por já ser radioamador/construtor, e conseguindo falar e entender a língua inglesa, tive toda a facilidade em lá conseguir emprego, onde me mantive 35 anos, que foi toda a vida daquela Empresa em Portugal. Ali acompanhei toda a evolução da rádio desses tempos e muito aprendi. Em 1951, ninguém pensaria em comprar feita de fábrica uma antena direccional, por exemplo. Todos tínhamos de escolher nos livros, aquelas a que o nosso pouco dinheiro pudesse chegar para comprar os materiais necessários, para as podermos construir pessoalmente, ajustar e gozar...

Estas coisas davam sempre grandes ensinamentos e sempre se encontrava na rádio, quem nos pudesse ajudar a entender certos "fenómenos", o que dava origem a magníficos e compensadores QSO's. Hoje tudo é diferente e até há muita gente que compra meia dúzia de transceptores de centenas de contos, para fazer os seus negócios mas que, de electrónica, pouco ou nada sabe. A rádio como hoje a conhecemos, não tem, por isso, nada a ver com o antigamente e, provavelmente, nunca mais terá.

Há, no entanto, uma nova vaga muito interessante e que está unida ao uso dos computadores que entretanto inundaram as nossas vidas. Assim, já se estão a estudar novos meios de comunicações, em que a principal parte, está dentro dos computadores e através do chamado "software". Isto já não falando das frequências ultra elevadas, dos satélites, etc.etc. No entanto, não vejo que haja qualquer futuro nas comunicações rádio via antena, porque são tantos os milhões de equipamentos electrodomésticos que estão a ser usados por toda a gente, e que se mostram muito sensíveis aos campos de RF dos nossos emissores, causando imensas interferências, cada dia mais difíceis de anular.

Se se perguntar o porquê de haver tantas mais estações de radioamador hoje do que há 50 anos, mas cada vez menos se ouvirem, deve porvir daquilo que disse atrás, não só a falta de civismo, linguagem usada e forma desorganizada em que se fazem muitos QSO's. Muitos colegas, ao se aperceberem disto, nem têm coragem de aparecer, com receio de serem mal recebidos ou até achincalhados por conversas muito pouco educadas.

Hoje, lá porque se pagou mais de 1000 contos por um transceptor, exige-se que toda a gente forneça magníficos controles ... e isto porque se tem muito mais dinheiro do que conhecimentos técnicos. A rádio emissão arrasta consigo uma série de problemas muitas vezes complicados de resolver, em especial porque todos vivemos a menos de 1A de onda das nossas antenas, onde os campos de RF são tremendos e podem por a perder em qualidade, o mais caro equipamento ou microfone. Estas pessoas não aceitam controles defeituosos, de forma alguma e reagem como se os controladores nem saibam o que estão a dizer... e até se ofendem uns aos outros. E ao ouvir passarem-se bons controles a estações antigas com mais de 40 anos, reagem na rádio, como se alguém os quisesse ofender deliberadamente.

Antigamente não havia estações piratas, pois havia um apertado controlo da então DSR que as localizava facilmente e lhes apreendia todo o material.

Hoje, temos por todo o lado estações piratas que até parece que, por inveja, só servem para destruir e dificultar as comunicações que estavam a decorrer com a mais pura cordialidade e utilidade.

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Mas, no meio destas dificuldades, ainda se vão encontrando alguns colegas, normalmente dos mais antigos mas "resistentes", que se mantêm activos e até usam muito do seu tempo, para escrever e difundir na imprensa o que a vida lhes ensinou. Eu serei possivelmente o único "resistente" português a escrever, pois desde 1950 que, sempre que me aparece um assunto que me parece interessante, o coloco na imprensa. Os meus escritos têm aparecido em todas as publicações que entretanto foram publicadas ou ainda são, onde já tenho publicadas mais de 1500 páginas.

Na sua maioria são descrições de circuitos electrónicos experimentados com sucesso, estando à cabeça uma descoberta casual, duma placa de circuito impresso do tamanho dum simples cheque e que, ligada a qualquer emissor de amador, na banda dos 40 metros, tem permitido tratamentos clínicos de alto sucesso, a mais de 400 radioamadores, desde 1989. Como sempre tenho sido um entusiasta pelas electrónicas, aviação, marinha, fotografia, cinema, mecânica, música, etc. toda a minha vida tem sido envolvida num turbilhão de planos e experiências mais ou menos científicas, mas que, ao atingir os 77 anos, me tem dado imensa felicidade e desejo de continuar a viver por mais algum tempo. Há no entanto, coisas interessantes de verificar; a única revista portuguesa existente entre nós há muitos anos, a QSP, tem 8000 assinantes na actualidade, sendo que menos de 3000 são radioamadores. Isto dá uma ideia curiosa do interesse que tantos milhares de pessoas colocam nas literaturas electrónicas, por simples paixão e/ou curiosidade ! E por isso, estou convencido de que, mesmo que acabem os radioamadores com as suas antenas espalhadas pelos telhados, vai sempre haver milhares de pessoas que vão procurar ler mais e mais, sobre estes assuntos.

Dá para perguntar: PORQUE SERÁ ?



Catulo -CT1CTZ

Histórias sobre vida - Mário Portugal Leça, CT1DT
Boletim REP, nº1, 2005

Cortesia da REP, Rede dos Emissores Portugueses

Nota biográfica:

Mário Portugal faleceu no dia 4 de Fevereiro de 2011.

"Engenhocas" por natureza, notabilizou-se não só na electrónica, como também em muitas outras actividades, como a mecânica, aeronâutica, etc.

Ao longo dos anos publicou inúmeros artigos em revistas de electrónica, tendo sido colaborador assíduo da revista QSP.

Uma breve biografia pode ser lida neste artigo Uma vida ao serviço da rádio.

O seu contributo para a divulgação da fantástica história da RARET é dada no artigo RARET - Rádio Europa Livre

Muitas das suas histórias de vida poderão ser lidas no blog que lhe deu voz na Internet: http://engenhocando.blogspot.com/

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