CT1Dois Tostões

Separadores primários

CT1DT no seu escritório

Embora os meus anos de radioamador sejam relativamente poucos, já sabia desse mundo fascinante muito antes de decidir ligar-me a ele, talvez, ou de certeza, até ao fim dos meus dias.
Nem sonhava, sequer, ser radioamador, já conhecia, pela leitura dos seus deliciosos textos, o Mário Portugal, CT1DT, apelidado, entre os colegas, como o CT1 Dois Tostões.
Tive, mais tarde, contatos, já como amador, e, depois, algumas tentativas, que acabaram por ser bem sucedidas, de partilha de alguns dos seus textos no site que serve de casa a este blog.
Inicialmente, o Mário Portugal estava renitente, porque era ideia dele editar um livro com as suas histórias, mas percebeu que uma coisa não invalidaria a outra... e, infelizmente, o livro acabou por não sair.
O CT1DT era um homem com uma enorme bagagem técnica e uma cultura geral invejável. E tinha a vantagem de não se concentrar apenas numa área do conhecimento.
Falava de eletrónica com a mesma facilidade e domínio com que falava de fotografia ou aeronáutica.
As suas explicações eram claras e com uma linguagem que era entendida por todos; longe dos textos chatos de muitos outros engenheiros, o Mário prendia a atenção com um discurso simples, construindo uma narrativa, uma história, que podia ser sobre a construção técnica de uma hélice de helicóptero, ou a forma de usar as suas placas milagrosas que usavam a RF de um emissor de amador sintonizado nos 40 metros, para aliviar dores musculares e outras maleitas dos ossos!
Li o Mário nas Selecções de Rádio, na QSP e no Electrão, uma revista publicada pelo CIT e difundida entre os seus alunos.
Acometido de uma tuberculose em 1945, reativou em pleno sanatório uma paixão antiga pela eletrónica. Veio a integrar os quadros da RARET, empresa de rádio retransmissão de origem norte-americana, sediada em Benavente e dedicada à sensibilização das populações do Leste Europeu para o valor da liberdade.
E porque me lembrei de CT1DT? Exatamente pela palavra acima: "RARET". E porque me lembrei da RARET?
Uma notícia recente publicitava a primeira série portuguesa produzida para a NetFlix.
Criada por Pedro Lopes e realizada por Tiago Guedes, a série decorre nos anos 60, no auge da Guerra Fria, na pequena aldeia da Glória do Ribatejo, onde se situa a RARET.
Mário Portugal foi um dos seus mais diligentes e inventivos técnicos, fintando com paixão a contrainformação soviética, dirigida pelo KGB, e vindo a criar o Boletim Técnico Interno da empresa, que se publicou durante mais de uma dezena de anos.
CT1DT passou a QRT em 4 de fevereiro de 2011, com 83 anos e uma vida marcada pelas suas elevadas qualidades humanas, sociais e técnicas, nomeadamente como radioamador, mas também como cidadão e homem íntegro.
O município de Benavente prestou-lhe “uma justa homenagem” com a atribuição da medalha de mérito municipal grau prata.
A Internet guarda ainda muitos dos textos publicados no seu blog pessoal.
Naquele tempo é uma história fascinante que serve de exemplo do que escrevi acima e pode ser lido neste site.
Por fim, sugiro que, antes de verem a série da NetFlix, leiam esta sérei de artigos sobre a RARET, a sua história, contexto político e porque foi mantida em segredo quase 30 anos.

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