Boletim da Emissora Nacional

Separadores primários

Boletim nº3, Outubro de 1935

OUtubro de 1935 - Nº3

Boletim da Emissora Nacional



Director Henrique Galvão

Comissão de Boletim:
Redactor principal Silva Tavares
Chefe de redacção Álvaro de Andrade

Administrador e editor Albino Forjaz de Sampaio

Anunciou a Emissora Nacional a próxima distribuição, pelas classes pobres, de aparelhos receptores de T. S. F., a preços que põem a radiotelefonia ao alcance de muitos daqueles que se julgavam privados por condições de fortuna, desse instrumento de cultura e regalo espiritual.

Pelo interesse que directamente alia à expansão da radiotelefonia entre nós e porque a sua função tem um alcance social cujos limites excedem, evidentemente, o do simples fornecimento de som, a iniciativa da Emissora Nacional é um acto natural e necessário da sua actividade.

Para os seis milhões de habitantes que vivem na metrópole há, registados na Direcção dos Serviços Radioeléctricos 40.000 aparelhos receptores - isto é um aparelho por cada 150 habitantes – o que dá evidentemente, uma percentagem reduzidíssima.

Na Alemanha, onde o analfabetismo quási não existe e a distribuição dos elementos de cultura por meios estranhos à radiotelefonia é extensa e intensa – isto é, num país onde a necessidade deste instrumento se não faz sentir tão fortemente – o número de aparelhos é de um por cada sete habitantes.

Sendo evidente a simpatia do público pela radiotelefonia não podem deixar de filiar-se na alta de preços dos aparelhos no mercado português.

Em Portugal não há mais rádio-ouvintes e, por consequência estão retardadas, pelo menos as possibilidades de expansão radiotelefónica, porque a maior parte da gente não dispõe de rendimentos que lhe permitam adquirir aparelhos pelos preços a que os oferecem o mercado português.

Da verificação deste estado de coisas resultou a iniciativa da Emissora Nacional – iniciativa que encontrou nas festas do fim do ano um pretexto simpático para se lançar, mas que é necessário ampliar e complementar.

Demais, ao torna-la, a Emissora Nacional seguiu, como lhe cumpria uma orientação política superiormente traçada e firmemente seguida em todos os sectores da vida nacional: a política de protecção e amparo ás classes menos protegidas da fortuna, na qual são numerosas e notáveis as realizações do Estado Novo.

Como era de esperar a iniciativa foi calorosamente acolhida por todos aqueles que directamente beneficiam com ela, simpaticamente observada por essa minoria de pessoas que encaram objectivamente as coisas nacionais - e com a indiferença do costume por todos os mais que encolhem os ombros perante todos os acontecimentos que lhes permitem dizer: “ Não tenho nada com isso!”.

Alarmaram-se, a meu ver sem razão subsistente, os comerciantes importadores de aparelhos receptores. Viram estes na iniciativa da Emissora Nacional um atentado contra os seus legítimos interesses comerciais: a concorrência desleal dum estabelecimento do Estado enfim, o estado Comerciante.

O Alarme não tem razão de ser. Em primeiro lugar note-se que onde alguns julgaram ver o Estado Comerciante, está apenas o Estado Político na acepção mais sadia e simpática que a palavra pode ter.

Em segundo lugar note-se ainda que estes aparelhos se distribuem sem lucro material de espécie alguma para o organismo distribuidor entre classes que, pelas condições de fortuna, estavam à margem do mundo da radiotelefonia.

Sem estes aparelhos populares que a emissora fornece os novos rádio-ouvintes não seriam compradores daqueles que actualmente o mercado lhes oferece por impossibilidade material de os adquirirem.

Da mesma forma que não pode haver concorrência entre os restantes de luxo e as organizações que se formam para distribuir sopas económicas, também não há entre a emissora, dirigindo-se exclusivamente às classes mais pobres e o comércio da especialidade que, por enquanto. Só vende a preços acessíveis às classes mais abastadas.

Além disto creio que há ainda uma circunstância importante a ponderar. A iniciativa da Emissora Nacional vai contribuir para expansão da radiodifusão em Portugal. Se na sua iniciativa teve um interesse moral e político – julgo que também o comércio da especialidade tem a lucrar com ela.

E efectivamente quanta mais extensa e intensa for a propaganda da radiotelefonia em Portugal – e o caso presente contém em si, nitidamente um acto de propaganda - tanto melhores serão as condições do meio comprador.

O desenvolvimento do gosto pela radiotelefonia traduzir-se-á fatalmente num maior número de unidades vendidas.

Poder-se –ia objectar que assim seria se a Emissora não invadisse agora o País com os seus aparelhos populares. Puro engano. O que sucede com os automóveis sucederá com os aparelhos. E assim como o gosto pelo automobilismo faz aumentar dia a dia o número de compradores a-pesar-do mercado parecer cada vez mais saturado, também esta forma de propaganda da radiotelefonia contribuirá para mais volumosa aquisição de aparelhos, a-pesar-da quantidade que hoje se lança no mercado.

Simplesmente estas coisas não se vêem hoje com a simplicidade e com a nitidez com que se verão amanhã. E dali o injustificado alarme.

Por todos estes motivos a Emissora Nacional tomou uma iniciativa que de-certo vai ocupar lugar de honra entre as suas realizações.



Henrique Galvão

Veja as imagens deste extracto do boletim:
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