Artigos do passado


ARTIGOS DO PASSADO



Rádio de capela


Sobre a rádio se escreveram, ao longo do tempo, toneladas de papel, prateleiras imensas de livros e rios de tinta. Desde grandes e volumosas obras até pequenos artigos publicados em efémeras revistas nascidas pelo amor de muitos à rádio, pelos jornais ou casas da especialidade.

Vamos tentar recuperar e transcrever aqui alguns desses escritos que ficaram perdidos na poeira dos tempos, em papeis já amarelecidos e com a letra quase imperceptível.

Se é possuidor de alguns destes textos e os acha interessantes para serem publicados, por favor, envie-nos para o E-mail do site, preenchendo o formulário de contacto.


A nossa língua e a recepção de ondas curtas


A NOSSA LÍNGUA E A RECEPÇÃO DE ONDAS CURTAS


Varias são as denominações que se dão em português aos aparelhos. N’uns deturpa-se o próprio termo da origem, noutros empregam-se palavras portuguesas para os designar que não são justificáveis.

Desejamos contribuir com a nossa quota parte para a unificação dos verdadeiros termos a adoptar em português e para isso os que se interessam pelo assunto terão as nossas colunas á sua disposição.

O aparelho a que mais vulgarmente no nosso paiz adoptam o francez haut parleur é denominado: em inglez - load speaker ” alemão - lautsprecher ” italiano - alto parlante ou alta voz.

Em português qual é a palavra que deve significar aquele aparelho? Lembramos: alto-falante,altisono ou alia-voz.



Nota: Foi preservado o português original


A radiodifusão em Portugal


A RÁDIODIFUSÃO EM PORTUGAL



Continuamos no mesmo estado de coisas.

Após a demarche dos emissores, esperava-se a regulamentação e até hoje nada fez lembrar que alguém se interessasse por tão momentoso assunto.

As centenas de postos disseminados por todo o país continuam funcionando, deliciando os milhares de ouvintes das guitarradas de Madrid ou do jazz de Londres.

Até hoje nada se fez no nosso país em T.S.F. a não ser os vários decretos de diferentes ministérios creando comunicações por T.S.F.

É para ponderar, que existem em Portugal inúmeros amadores, uns que se limitam a ouvir a musica transmitida dos diferentes países, outros que desejam ir mais além, estudando e procurando aperfeiçoar os seus conhecimentos, arrancando dos vários fenómenos observados, progressos para esta sciencia.

Hoje, que existem nos países mais recônditos do mundo e até nalguns bastante incultos regulamentações, é de esperar que as respectivas entidades não julguem que se podem opor á marcha de numerosos adeptos no nosso país.

Entretanto vae-se ouvindo livremente e isso já é segura garantia das boas disposições em que se encontra a respectiva entidade para uma livre regulamentação.



Nota: Foi preservado o português original


A recepção da TSF em Nova York


RECEPÇÃO DA T.S.F. EM NOVA-YORK


Estou certo de que a maioria dos amadores portugueses vae ler com surpreza, talvez com incredulidade, a seguinte afirmação:

Durante um mês que estive em Nova-York tendo experimentado quasi diariamente com um aparelho de recepção, não ouvi uma interferência radio-telegrafica nem um assobio devido á reação de outro aparelho.

Devo acrescentar, que também não notei a prevalência de atmosféricos. Nova-York é um dos portos do mundo de mais intenso trafico comercial; mesmo os pequenos vapores dos serviços do porto, saúde, correios, etc., teem instalações radiotelegraficas.

O trafico internacional, feito por estações de grande potência, sitas relativamente visinhas da cidade, é também intensissimo.

E portanto, não é ahi a recepção notavelmente dificultada pelas interferências d’esses serviços. As condições locais de recepção, comquanto curiosamente peculiares, só por si não o explicam.

Um estudo intitulado “Interferência” aparecido, no numero de agosto de 1923, da publicação do Instituto dos Radio-Engenheiros, refere-se ás condições existentes no fim de 1922, principio de 1923. Vê-se que nessa data os amadores queixavam se amargamente da interferência causada : por postos de faísca e arco, em fundamental ou harmónicas, linhas de transmissão em mau estado, motores, etc.

Como, do estado de coisas em 1923, se chegou ao que observei em maio de 1925, não tive eu tempo de cabalmente averiguar mas é obvio que isso foi devido: a uma legislação adequada, a um esforço unido de todos os interessados e á compreensão de que milhares de pessoas não podem ser incomodadas, a não ser n’um caso excepcional, por qualquer interesse particular.

As associações fizeram inquéritos entre os seus consócios perguntando quais os postos que mais incomodavam, dirigindo-se-lhes depois directamente ; pequenas modificações foram introduzidas de modo a purificar as transmissões, quanto possível, de harmónicas; cópias feitas por amadores do serviço diário de certos postos foram submetidas a entidades respectivas demonstrando a inutilidade de grande parte d’ele.

Havia até uma estação da marinha, que distando de outras poucas centenas de metros se entretinha a transmitir-lhe por Radio, mensa gens de pouca importância, quando o podia fazer usando a linha telefónica directa.

Da amabilidade de Sua Ex.a o Sr. Ministro da America em Lisboa, espero obter dentro en breve toda a legislação Americana sobre este assunto e então de novo virei perante os leitores com uma analise da mesma.

A ausência de interferência devida a outros receptores é devida em grande parte a :
Um bom serviço local, fácil de sintonisar o que não obriga o amador a um esforço continuo, em geral com aparelhos inadequados, para conseguir ouvir postos a longa distancia.

Abstenção da maioria dos comerciantes da venda de aparelhos a reação.

Educação do amador.

Legislação e ação das associações.


Sobre atmosféricos devo dizer que me informaram eles se notarem sobretudo mais para o verão e que a cidade estava numa zona relativamente previlegiada pois que de facto nunca ali teem a intensidade com que se fazem sentir nos districtos visinhos.

Tendo mostrado o que numa legislação inteligente e o que o esforço e concurso de todas as boas vontades ali conseguiu, resta-me fazer votos para que no nosso país o publico em geral e especialmente aqueles que teem por obrigação zelar pelo interesse comum, se compenetrem da importância da radio-difusão e que com um pouco de boa vontade é facílimo melhorar as nossas actuais condições de recepção.

Como acima escrevi as condições locais de recepção e transmissão são sobremodo curiosas devido ás enormes carcassas de ferro que formam o arcaboiço dos skyscrapers. Quando se entra o porto e se chega em frente da cidade, notam-se imediatamente, sobre um d’eles, duas enormes torres em T, inegavelmente construídas para suportar a antena de uma estação de transmissão.

Pela ausência de fio vê-se porém que não está em uso.

Mais tarde perguntando a que estação pertenciam as torres, informaram-me:
Foram construídas para a instalação final da estação WEAF, que é uma das melhores, senão a melhor de Nova-York.

Essa estação foi primeiro instalada n’um sitio provisório onde as transmissões foram notáveis. Quando as torres estavam prontas fizeram a mudança; o resultado foi que a eficiência diminuiu de mais de 50%. Tornaram a muda-la para o antigo sitio, continuando a dar ali explendidos resultados.

A perda de eficiência devido á absorção das massas metálicas é tal, que na cidade mesmo é difícil, senão impossível, ouvir-se mais do que as estações locaes.

Apesar de em Portugal ter por diversas vezes ouvido WQY, a estação da General Electric, Scheneckdy, relativamente perto de Nova-York, nunca ali a conseguia ouvir.


Almir MARTINS

Nota: Foi preservado o português original

A super-reacção


A SUPER-REACÇÃO


(Dezembro 1924)

Quasi todos os radiófilos tentam, dia a dia, obter no seu aparelho, um maior rendimento que, devido aos seus constantes estudos, chegam a alcançar verdadeiros “records”.

Assim, Armstrong inventou um curioso dispositivo que permite tirar de um tubo de vácuo, toda a sua potência amplificadora, alcançando, portanto, resultados taes que as montagens vulgares só poderiam ser obtidas com o emprego de dez ou mais tubos amplificadores.

Nas recepções em que se emprega a reacção, faz-se reagir, sobre o circuito filamento grelha d’um dos tubos, as oscilações recolhidas no circuito filamento-placa, já anteriormente amplificadas por esse mesmo tubo.

Este processo pôde comparar-se, no seu principio, ao empregado quando excitamos um dínamo com a sua própria corrente. Devido á reacção, o aumento das variações da tensão sobre a grelha provoca, egualmente, um aumento correspondente nas variações da corrente do circuito filamento-placa, o qual, reagindo novamente sobre a grelha, dá origem a uma nova amplificação, e assim sucessivamente.

Contudo, a amplificação assim obtida tem limites que se manifestam logo que o tubo começa a produzir oscilações locaes, as quaes, interferindo-se com as oscilações recebidas, tornam a recepção impossível.

A interferência d’estas oscilações limitam, portanto, o emprego da reacção, visto que, introduzindo-a mais, o tubo funciona como gerador, sendo, por isso, a recepção anulada. O estado eléctrico do tubo é, pois, instável, visto que qualquer perturbação eléctrica dá origem a uma oscilação local no amplificador, o que inutilisa completamente o sistema de recepção.

O fim da super-reacção é, devido a disposições especiaes, anular precisamente essas oscilações locaes, evitando-se assim que o tubo funcione como gerador, o que permite introduzir mais reacção no circuito e, por consequência, utilizar até ao máximo o poder amplificador do tubo de trez eléctrodos.

Amstrong teve a feliz ideia de sufocar estas oscilações locaes, o que conseguiu com o emprego de um segundo tubo chamado “oscilatório”, enviando no seu circuito-placa do tubo receptor uma corrente intermitente que anula periodicamente essas oscilações, quer aumentando o potencial da grelha, quer diminuindo o da placa. Estas interrupções devem fazer-se n’uma frequência bastante elevada, para que o ouvido não seja por ellas impressionado - por exemplo: 20.000 interrupções por segundo.

N’este caso, as oscilações de alta frequência não teem tempo de se combinarem no tubo e pôde, portanto, aproveitar a amplificação considerável resultante da existência negativa, emquanto a placa é alimentada.

Na pratica, basta modificar, com o auxilio de um tubo oscilatório, a tensão da grelha, o que torna a resistência do circuito umas vezes positiva, outras negativa.

Uma montagem em super-reacção comprehende, portanto, um tubo receptor com reacção normal e um tubo oscilatório convenientemente fornecido de circuitos apropriados para a producção de oscilações de 20000/100000 períodos.

Devido á sensibilidade d’esta montagem, deve-se empregar sempre a super-reacção com um quadro e não com uma antena, sendo esta sensibilidade tanto maior quanto menor for a onda a receber; nada se lucrando quando pretendermos receber com uma super-reacção, o comprimento de ondas superior a 600 metros.

Para regular este aparelho, é necessário muita persistência até adquirir a pratica indispensável para distinguir a onda, dos ruidos manifestados no aparelho.

Para a sua regulagem basta tornar o filamento (do tubo de vácuo) brilhante e, colocando o rotor e stator do variometro em angulo recto, dar valores a C até que se consiga ouvir o silvo característico da onda a receber. Quando tal suceder, basta regular o variometro e o condensador C convenientemente, para obtermos uma audição perfeita.

Se o quadro estiver bem orientado, apenas é necessário fazer variar o condensador C, para obtermos a síntonisação dos nossos aparelhos.

Com estas montagens construidas nas condições devidas, torna-se relativamente fácil ouvir, em altisono, os concertos americanos.



Nota: Foi preservado o português original

A televisão


A TELEVISÃO

(Dezembro 1925)

Causou grande impressão nos círculos scientificos a noticia de que a visão radio ou televisão, sonho de alguns inventores, saiu do campo teórico para ser um facto praticamente.

Deve-se esse triunfo a Mr. J. L. Baird, que já ha algum tempo vem efectuando experiências, vendo os seus esforços coroados de êxito ao conseguir que os movimentos dos olhos e da boca dum rosto fossem completanente visíveis na placa receptora.

O processo empregado é completamente diferente do que se emprega na radiotransmissão de fotografias.

Um dos primeiros problemas a resolver na televisão é o da amplificação das pequinissimas correntes produzidas por um elemento sensível á luz. A válvula deu solução ao problema, permitindo a amplificações de grande extensão; é este um dos vários dispositivos usados na televisão. Nos modelos primitivos apenas se transmitiam sombras, pois que a luz tinha que estar detraz do objecto que se queria mostrar, porém, a utilidade dum aparelho capaz de transmitir sombras unicamente, era bastante restricta.

A diferença entre a transmissão de sombras e a do objecto real é muito maior do que se poderá supor. No primeiro caso, o elemento sensível á luz, só tem que distinguir entre a obscuridade completa e todo o potencial do manancial de luz, aliás de milhares de velas, emquanto que no segundo caso, para transmitir a visão de objectos animados; ainda que eles se reproduzam somente em negro e branco, o elemento tem que distinguir entre a obscuridade e intensidades de luz muito pequenas, usualmente uma pequena fracção de vela, como serão as reflectidas pelas partes brancas do objecto, para o que os aparelhos teem que detectar mudanças de luz com uma intensidade mil vezes menor que quando se transmitem as sombras.

Existem outros problemas ópticos que tornam também mais difícil a televisão do objecto que a das sombras.

Os aparelhos que Mr. Baird emprega actualmente, consistem num disco giratório que leva uma espira de lentes e por detraz um obturador de palhetas que gira com grande velocidade. O objecto cuja imagem deve ser transmitido, é colocado em frente do disco que leva a espiral de lentes e que gira a umas 500 rotações por minuto. Quando giram o disco e o obturador, a luz reflectida pelo objecto cae consecutivamente sobre o elemento sensivel, depois de ter sido interrompida com uma grande frequencia pelo disco de palhetas, originando uma corrente pulsatória no circuito sensível que, depois de ser amplificada, se transmite da forma ordinária á maquina receptora que é formada por outro disco contendo uma espiral de lentes semelhante á do transmissor e que gira em sincronismo com aquele. Detraz deste disco, numa posição correspondente á do elemento sensível á luz. existe uma lâmpada alimentada pela corrente recebida, que é previamente amplificada fazendo variar a luz emitida pela lâmpada, luz que atravessa um cristal esmerilado colocado dentro duma chapa onde se reproduz o objecto transmitido.

O elemento que Mr. Baird usou nas suas experiências, não é foto-electrico; é um coloidal de sua própria invenção, do qual não deu detalhes até agora.

À primeira vista, a reprodução está longe de ser prefeita, mas, o próprio inventor declarou:

”Os meus aparelhos, presentemente, são rudimentares e puramente experimentaes, mas demonstraram a possibilidade de ver os objectos animados pela radio. Nestas primeiras experiências, a transmissão fez-se duma casa para outra: mas como o receptor e o transmissor estavam completamente separados, efectuando-se a transmissão inteiramente por radio, a distancia a que podem colocar-se ambos os aparelhos, está limitada á potência empregada na emissão das ondas electromagnéticas”.

Se nos recordarmos das dificuldades que foi preciso vencer para levar a radiotelefonia á sua actual perfeição, não será de extranhar que as experiências levadas a cabo por Mr. Baird façam da televisão uma realidade pratica num futuro muito próximo.

Com a firma TELEVISÃO, formou-se recentemente em Londres uma nova sociedade com o fim de desenvolver o sistema de televisão Baird. O capital nominal foi fixado em 5.000 libras, dividido em 5.000 acções de uma libra.

Do mesmo modo que vários outros sistemas de televisão propostos e experimentados nestes últimos anos, o sistema Baird está também num estado experimental mas, sem querer discutir os méritos de tal ou tal sistema, é agora que se poderão anunciar resultados práticos das experiências com a televisão.



Nota: Foi preservado o português original

A TSF na próxima guerra


A T.S.F. NA PRÓXIMA GUERRA



Sob este titulo e com a assinatura do professor A. M. Low, vice-presidente da ”RadioAssociation”, publica o jornal Reynolds um artigo do qual transcrevemos as passagens susceptíveis de interessar os nossos leitores. O professor Low é considerado como um dos mais brilhantes homens de sciencia da Inglaterra e foi ele que dirigiu os trabalhos de experiências das Forças Aéreas britânicas durante a guerra.

Vejamos o que ele diz:


Ao mesmo tempo que a T.S.F. procurará cada vez mais nos proporcionar o conforto, a instrução e a distração, os seus progressos estão destinados a revolucionar todos os métodos da guerra. Será preferivel certamente poder supor que não haverá mais guerras, mas, se nos colocarmos num ponto de vista puramente scientifico, as guerras nunca acabarão, pois são por si só, infelizmente ”naturaes.

Um dos principaes factores da T.S.F. em tempo de guerra será sem duvida o ”controle”. O aeroplano controlado pela T.S.F. faz rápidos progressos, e assim veremos flotilhas destes aparelhos, sem piloto, e carregados de gazes envenenados e explosivos, serem enviados em longos voos a alturas prodigiosas e com uma grande rapidez. A sua chegada sobre uma cidade ou outro objectivo, e a um sinal dado, eles despejarão as suas bombas e voltarão.

O desenvolvimento da televisão permitirá ao fiscalisador desses aeroplanos sem piloto, poder vigiar o voo a distancia, ao mesmo tempo que o periscópio da flotilha controlada pela T.S.F. será equipada de maneira similar. Ignora-se geralmente que o controle por T. S. F. não é um processo de envio de força; o que se envia apenas são os sinaes de direcção e força, já no seu logar, para que ela possa ser correctamente aplicada.

A televisão chegou agora a um ponto em que somente é possível discernir contornos um pouco obscurecidos a uma distancia de algumas milhas, mas basta aperfeiçoar o aparelho utilísado para assegurar um sucesso absoluto.

Os comandantes dos exércitos de futuro, poderão ver as suas ordens executadas; aeroplanos, torpedos e “tanks” controlados por T.S.F. serão constantemente observados e as minas terrestres serão vigiadas e acionadas pela T.S.F. que as fará saltar no momento desejado.

Será muito difícil efectuar um deslocamento qualquer de tropas ou munições, e bem assim de traçar planos e conserva-los secretos, pois que poucos sitios ficarão ao abrigo dos microfones e aparelhos de televisão invisíveis.



Nota: Foi preservado o português original

A TSF no lar conjugal


A T.S.F. NO LAR CONJUGAL


Nenhum lar poderá ser essencialmente feliz se dele não fizer parte um posto de recepção de concertos.

O homem que contrahe o pesado encargo de chefe de família, e que chega á noite a casa, janta, faz a sua toillete, põe n seu melhor fato e sai abandonando diariamente o seu lar, e que busca num club, num teatro ou em qualquer diversão noturna o descanço que o seu trabalho requer, está longe de ser considerado um bom chefe de família.

Bem sei que ha creaturas que se não conformam com a ideia de entrar á noite em casa, jantar e meter na cama, e eu também me não conformo de maneira nenhuma com semelhante vida. Mas se ele consegue, ou construindo ou comprando “tout fait” um posto de recepção de concertos, modifica imediatamente a sua opinião, porque aproveita em tudo o tempo que empregar com a T.S.F.

Feitas as primeiras despezas, ele economisa imenso porque deixa de gastar dinheiro inutilmente desde que sai até que entra em casa.

A sua saúde aproveita imenso com isso. porque não está sujeito ás intempéries noturnas. No dia seguinte está bem disposto para o trabalho. E por fim vigia de perto o seu lar e isso fará a alegria de sua esposa e todos os seus.

Quantas vezes uma esposa vê sair com magua seu marido depois de jantar, para o voltar a ver de madrugada quando regressa, muitas vezes indisposto com a vida noturna que procurou, e que se vae reflectir na sua vida particular.

Quantas vezes uma esposa chora a desdita de se haver ligado a um homem que apenas procura a casa para as refeições e para dormir.

Pois bem; tudo isso acabará no dia em que ele adquirir um posto de recepção de concertos.

Que agradável é chegar a casa, correr ao seu receptor, fazer as ligações de baterias, e sintonisar um posto com boa musica, sentar-se á mesa a jantar ouvindo no seu alto falante, uma selecção da ”Tosca” ou um noturno de Chopin ?!

Como é agradável ter na sua própria casa o orfeon de Savoy Hotel de Londres, proporcionando-nos musica que só nos é dado ouvir em qualquer club, com todas as despezas que o caso requer?

Que enorme prazer se sente quando ouvimos o ”Speacker” de S. Sebastian que por sinal é uma Senhora, anunciar que E.A.J.8, Radio S. Sebastian, instalada no Monte Ijueldo, vá transmitir su programa. La orchestra vá interpretar la “Granvia”, etc. etc.

Que sentimento profundo nos inspira, não sei porquê, aquelas badaladas do “Big Bem” que nos dão a meia noite em Londres, como se ao pé da catedral, estivéssemos morando?!

Quantas vezes vemos terminar com saudade aqueles concertos franceses, em que a a cortezia do “Speacker” toca as raias do extremo da delicadeza, quando anuncia com uma voz sonora, e agradável que o concerto terminou, que a estação vae fechar e depois de agradecer a todos os radiofilos a fineza de o terem ouvido termina belo Bon soir, Mesdemoiselles; Bon soir, Me’-dames; et bon soir, Messieurs.

Muito lhe poderia dizer se não receiasse que o aborrecimento proveniente da leitura destas linhas prejudicasse o amor pela T.S.F. Mas breve volto ao assunto, e lhe hei-de narrar um exemplo do que acima fica exposto.

Minhas Senhoras, se duvidaes de que aqui fica escrito, se duvidaes do que assevero, de que um lar conjugal por mais feliz que seja necessita da T.S.F. para complemento dessa felicidade, preguntae a uma vossa amiga cujo marido seja radiofilo, e vereis confirmadas as minhas palavras.

ínsinuae no espirito de vossos maridos a ideia da T.S.F. e dentro de breve sereis felizes. Os clubs, os cafés, os teatros, serão para eles motivos para aborrecimento. Agora as suas noites são em casa, e V. Ex.as verão que modificação enorme se opera em vossos maridos.


Porto, Novembro de 1926.


VICTOR FRANÇA



Nota: Foi preservado o português original

Acção policial


ACÇÃO POLICIAL


Na quarta feira passada, (7 de Maio de 1925) a policia acompanhada dum funcionário dos Correios e Telégrafos procedeu á selagem dos postos emissores amadores de radiotelefonia que existem em Lisboa a saber:

P1AA - propriedade do Sr. Abílio Nunes dos Santos (atualmente na América),
Avenida António Augusto de Aguiar, 146.

P1AB - propriedade do Sr. José Joaquim de Sousa Dias Melo, Gerente do Hotel Internacional.

P1AC - propriedade do Sr. Eduardo Dias, sócio da acreditada casa da especialidade Radio-Lisboa, Rua Serpa Pinto, 15.

P1AE - propriedade do Engenheiro Tenente Sr. Eugênio de Avilez, Costa do Castelo, 15.

P1AM - propriedade do Sr. Maurice Mussche, Rua Newton, 22.


Deu origem a esta diligencia a desconfiança de que estes postos poderiam ter enviado noticias falsas para o estrangeiro durante os últimos acontecimentos.

Cremos ter ficado provada a impossibilidade destes postos poderem alcançar a fronteira dadas as razões técnicas a que estão sujeitos.

Assim, se na verdade com pequenos comprimentos d’onda que eles empregam (que já são grandes) se tem feito ouvir no Porto, embora irregularmente, nunca poderia acreditar-se que a qualquer hora do dia ou mesmo da noite o fizessem pois nenhum deles dispõe de potência suficiente para transpor a fronteira.

Alem disso dentre o milhar de postos receptores que existem em Portugal algum teria interceptado essas mensagens e d’isso estamos certos dadas as comunicações constantes que recebemos dos nossos leitores informando-nos das recepções que obteem.

Alguns desses postos estão autorisados pelo Ministério da Marinha a funcionar em determinados comprimentos de onda, o que cumpriam integralmente.

Não podemos deixar de lembrar mais uma vez a quem de direito que se deve regulamentar a T.S.F. no nosso paiz, conforme já reclamávamos no n.” 18 d’esta Revista.

Esta era uma etape escusada se as respectivas entidades tivessem encarado este assunto com o carinho e o cuidado que em todos os paizes do mundo merece.

A idoneidade d’estes pioneiros da T. S. F. em Portugal põe-os ao abrigo de qualquer suspeita.

Eles só são dignos da admiração e do reconhecimento de todos os portugueses, pois que souberam avançar um passo mais na nobre sciencia do nosso paiz.

N’um amplo abraço, saudamos estes amadores, detentores da vanguarda radiofila portuguesa.


O sr. Eduardo Dias depois da selagem feita pela policia ha dias acaba de dar-nos a noticia do passamento do (P1AC). Tem recebido inúmeras cartas de pezames. As bobines Gama, então, mostram-se pezarosas e os transformadores FAR, acham-se desolados na perda irreparável do seu porta voz musical. Na camar ardente estão velando o cadáver o Sr. Microfone, Transfo Far, as válvulas Metal e família.


Pedem-nos a publicação da seguinte carta.


Sr. redactor --Permita-nos V. que na sua conceituada revista venhamos prestar ao publico uns esclarecimentos oportunos.

Tendo visto em quasi todos os jornais, uma local subordinada ao titulo ”Ecos dos acontecimentos” em que se informa a apreensão dos nossos postos emissores de telefonia sem fios, não podemos deixar passar sem o nosso mais veemente protesto á ligação que se faz desta apreensão com os últimos acontecimentos.

Não descobriu nem pretendeu descobrir a P.S.E. estes postos pela s’mples razão de nunca terem estado escondidos

Chamam-lhes clandestinos quando a imprensa lhes tem publicado os programas dos concertos, quando as montagens têm sido publicadas e descritas nas revistas da especialidade, quando se pediam pelo microfone informações sobre a emissão dizendo o numero do telefone, e emfim quando todos os amadores, que são centenas, nos conheciam de nome e pessoalmente ?

Que têm estes postos com o movimento se é certo que alguns existiam antes, outros ha que são posteriores? Porque as autoridades só pela T. S. F. explicam a chegada rápida de noticias tendenciosas ao estrangeiro é motivo para que assim se confundam uns amadores estudiosos com agencias de informações, duvidando do seu patriotismo? Não, sr. redactor, não deve ser suficiente,

Terminando agradecemos á P.S.E. a correcção inexcedivel com que tem tratado deste assunto não regateando delicadeza no desempenho da sua desagradável missão e a V. agradecemos o espaço que lhe roubamos.


Somos etc. De V. Abílio Nunes dos Santos (1AA); J. S. Dias Melo (1AB); Eduardo Jacome-Dias (1AC); Eugênio de Avilez (1AE)



Nota: Foi preservado o português original

As mulheres e a rádio


AS MULHERES E A RÁDIO


O texto abaixo foi escrito por Maria Elisa dos Santos Reis, na revista "Única", (Brasil) em abril de 1926. Uma forma encontrada para explicar como funcionava a transmissão radiofônica, ainda uma novidade para a época.


“Depois do jantar, sentados em bôas poltronas, diante da radiola, os maridos descobrem que se pode viajar muito, viajando ao redor da própria sala. Quem sabe se depois da radiomania a média da felicidade conjugal não aumentou?... Tem a palavra a madame...

Rádio mysterioso... Hoje a sciencia permite a côro de um de nós affirmar: o ar está cheio de idéias. De idéias e de sentimentos. Aqui neste salão aconchegante e florido, docemente perfumado, em que a leitora pousa o olharem Única, existem no ar canções e poesias. Há vozes alegres e tristes, cantando ou falando em vários idiomas, licções de mestres ou ‘loquela de palradores’ violinos a gemer e até mesmo tambores a rufar.

Pensa a leitora que está sozinha? Engano. O mundo, minha boa amiga, está falando, cantando ou gritando, aí mesmo no seu boudoir. E não são vozes de espírito, que só os iniciados conseguem ouvir, são vozes humanas, dos vivos, que estando a milhares de quilômetros do seu salão, entram na sua casa mysteriosamente, sem que a minha bôa amiga possa impedir essa invasão conseguida nas asas do “Rádio”! A qualquer hora do dia ou da noite é sempre possível em qualquer lugar armar um receptor – ‘um verdadeiro ouvido artificial’ – para escutar as amáveis intrusas, ‘as vozes da terra’...

Na estação transmissora da Rádio Telefônica, seja a da nossa querida e patriótica ‘Rádio Sociedade’, a corrente microphonica, modificada pelo som vae agir sobre as ondas que o transmissor espalhar no ar, e essas ondas variam na sua amplitude, de acordo com a corrente microphonica.

Eis como o som ‘vira’ ondas hertzianas que se espalham pelo mundo.

Imaginemos uma corda presa por uma das pontas a um muro, pela outra ponta segura na mão de alguém que se faça oscilar. A corda (que comparação grosseira) é o ether. A distância entre os cristais das ondas é o que se chama de “comprimento da onda”. A mão que a agita é o transmissor.

Se alguém munido de um bastão enquanto oscilar de vez em quando dá-lhe uma pancada mais ou menos forte, as oscilações serão alteradas pelo bastão: o bastão é o microphone. Eis aí o mystério da transmissão meio desvendado.



Cortesia de Fábio Pirajá do site: http://www.locutor.info

Nota: Foi preservado o português original

As transmissões portuguesas


TRANSMISSÕES PORTUGUEZAS


Sr. Director da «T. S. F. em Portugal».


Tem esta por fim comunicar-lhe, e isto com o maior prazer, que me foi dada a ventura de ouvir aqui, em Aguas Santas onde resido (ou seja a 7 kilometres ao nordeste do Porto), o posto P1-AA, domingo ultimo, pouco depois das 10 horas da noite.

Comecei por procurar 300 metros e nada encontrei, a não ser um posto inglez que pouco se distingue e que de mais a mais estava em conferencia, isto pela onda de 285 metros.

Como só recebo o programa da sua muito bem redigida revista á 2ª feira, pois que me é dirigida para o meu escritório no Porto, onde estou escrevendo, não podia ter a certeza absoluta de haver domingo um concerto no dito posto.

Depois de com o meu «Ondametn» procurar trezentos metros, não me foi possível encontrar semelhante posto, e já um pouco desanimado seriam como refiro, 10 horas, encontrei na onda 275 Metros um posto que não distinguia perfeitamente mas que não quiz abandonar um só momento, até que o «Speaker» falasse. Terminada aquela parte do programa que me foi toda interferida por um paquete que tentava comunicar, como comunicou, com Leixões, ouvi a voz do Speaker, forte e explêndida, mas não distingui nenhuma palavra. Continuei sem abandonar um só momento o meu posto, e pude a muito custo distinguir a voz de uma senhora cantando.

Esperei de novo que o «Speaker» falasse, e estive talvez um quarto d’hora sem poder distinguir palavra, nem musica ou canto.

A’s 11 horas todos os postos aqui fizeram a emissão costumada e nesse momento tive que abandonar, pois que era insuportável ter os auscultadores nos ouvidos.

Pouco depois ouvi nitidamente a palavra «Atenção» e o anuncio de uma musica que ouvi em parte, mas que de novo e por longo tempo voltou a ser interferida.

Continuei ouvindo com atenção até que á meia noite e 7 minutos, ouvi distintamente o Speaker dizer o seguinte: Alo, Alo, Alo, este é o Posto P1-AA, etc., etc. À meia noite e 20 minutos ouvi um solo aocarina ou flauta, embora o programa que aqui tenho indique clarinete, e á meia noite e 30 anunciou muito claramente o «Speaker» que a canção Raconte de Bohéme ia ser cantada por Mademoiselle Emma Cordeiro, etc. Ouvi nitidamente o canto desta senhora que é possuidora de uma voz lindíssima, forte e muito melodiosa.

Depois segundo canto, pela mesma senhora, dum trecho que não conheço, anunciando-se depois o fim do concerto.

As considerações que tenho a fazer sobre o posto P1AA, seriam as melhores, se eu soubesse descrever-lhe a minha comoção ao ouvir o meu alto falante reproduzir palavras portuguezas. Que enorme satisfação eu teria em lhe dizer tudo o que senti, se eu pudesse fazê-lo. Mas é me impossível dizer a V. aquilo para o que não ha linguagem possível. Até que o meu posto ouviu Portugal!!

Foi tamanha satisfação que no domingo próximo eu esperarei com a maior atenção que o posto P1AA continue com os seus concertos que eu admirarei embora para isso tenha de estar pacientemente com os auscultadores nos ouvidos até que possa como fiz por vezes sobre tudo depois da meia noite ligar o alto falante, para assim ouvir bem alto na minha modesta sala a voz do primeiro portuguez que ousou percorrer os 340 quilómetros que nos separam com a sua voz. que na vanguarda de todos soube fazer elevar o seu amor pela Radiotelefonia em Portugal.

Se me permite, eu farei algumas observações sobre o aparelho de transmissão.

Pouco forte no entanto deixou por vezes com a nitidez dos grandes postos estrangeiros, ouvir nitidamente o canto e piano.

A onda não é, como posso provar a V, (pelo menos aqui) de 300 metros mas sim de 275, fica no meu «Oscilator» próxima de Bruxellas, e tão próxima que por vezes Bruxellas fazia ouvir o seu sopro.

A onda de 275 metros ou aproximadamente isto, é firme não me sendo necessário como em alguns outros postos de ter de variar para a encontrar como acontece com Sevilha, Madrid e outros.

Se alguma explicação sobre r, assumpto for agradável a V, com o maior prazer a darei.

Vou terminar por pedir a V. imensa desculpa por lhe ter roubado uns minutos na leitura destas mal alinhavadas linhas, filhas da emoção enorme que senti com a agradável surpresa que acabo de narrar.

Queira desculpar-me pois.


De V. etc. - Ermezinde. - Victor França.



Nota: Foi preservado o português original

As trovoadas


AS TROVOADAS



Nesta época do ano são frequentes as trovoadas. Uma antena ligada á terra actua como um pára-ráio protegendo o predio das faíscas. Desligada da terra, ou ligada d’uma forma defeituosa, a antena pode constituir um perigo.

O commutador d’entrada Edison Bell constitue resguardo ideal contra esse risco : por meio de um jack liga a antena á terra automaticamente logo que se retira a ficha que traz as ligações para o aparelho. Os contactos são de prata pura, não estando sujeitos a corrosão.

É simples, pratico e bonito á vista, não desfeando qualquer sala, em que se colloque. É o complemento forçoso d’uma instalação feita a capricho.



Preço: Esc. 391,50

Encontra-se á venda nos agentes da fabrica:

A Energia Hidro-Electrica L.da
Rua da Conceição, 107 LISBOA


Nota: Foi preservado o português original

Avarias nas valvulas


AVARIAS NAS VÁLVULAS


Válvula Torvac, clique na imagem para expandir Várias podem ser as avarias nas válvulas:

1º Filamento fundido, nota-se facilmente

2º Filamento tocar na grelha, o aparelho não servirá e será necessário substituir essa válvula

3º Um dos fios de ligação dos vários elementos de que se compõe a válvula está quebrado

4º Nas válvulas de fraco consumo a camada de thórium que cobre o filamento de tungsténio volatiza-se, esta avaria nota-se logo que a audição começa a enfraquecer, chegando a desaparecer completamente

Nota: Foi preservado o português original

Avarias nos postos receptores


AS AVARIAS NOS POSTOS RECEPTORES


Logo que um posto deixa de ouvir, deve-se analisar as ligações da antena e da terra.

Antena
- A antena deverá sempre estar bem isolada. Pode-se verificar o seu isolamento, desligando o borne da antena do aparelho e ligando um polo da bateria da placa á terra e outro polo a um voltímetro de 40 ou 80 volts, conforme a bateria, e o outro borne do voltímetro á antena. Se o voltímetro não acusar desvio algum, é signal certo que a antena está bem isolada; se o voltímetro acusar algum desvio, então a antena tem contacto com a terra por algum ramo de árvore ou telhado que lhe toque, ou ainda pela entrada da antena no caixilho da porta ou janela por onde ela passa, estar mal isolada ou molhada pela acção das chuvas, quando a entrada for imperfeita.

Terra
-A ligação da terra merece também cuidados especiaes. A ligação deve ser tão perfeita quanto possível, isto é, o contacto do fio conductor que liga ao tubo conductor da agua, ou á chapa metálica, de preferencia de cobre, que pôde ser enterrada ou mesmo mergulhada na agua do poço ou cisterna, deverá ser soldada ou pelo menos bem apertada, de forma a manter um contacto completo. O fio conductor de ligação á terra deverá ser tão curto quanto possível. Se a audição for fraca e com muitos ruídos, deveis verificar se o vosso fio de terra não está cortado.

Terra
- Caso a antena e terra estejam em boas condições, deve-se verificar se a causa da avaria provem do aparelho, telefone ou alto falante, acumuladores, pilhas ou válvulas.

As avarias nos auscultadores telefónicos e nos alto falantes, são pouco frequentes. No entanto, sucede muitas vezes que os fios conductores se partem, e como o cordão que os cobre é geralmente grosso, torna-se difícil analisar rapidamente, mas é de fácil reparação, substituindo-o por um cordão ordinário de fio de iluminação.

Acumuladores
-Os acumuladores são muitas vezes origem de más audições. Na falta d’um voltímetro, deve-se reparar se o aquecimento do filamento baixou. Deve-se substituir essa bateria por outra, ou na falta de sobrecelente deve-se cessar a audição.

Nnnca se deve deixar descarregar por completo a bateria, quando os elementos são de chumbo. Já não é preciso os mesmos cuidados para as baterias de ferro-niquel.

Nos acumuladores de chumbo deveis notar com frequência a oxidação dos bornes. Devem se limpar muito bem e passar-lhes um pouco de lixa.

Pilhas
- As pilhas são o flagelo dos amadores. Muitos amadores notam que os seus postos deixaram de ouvir devido á bateria de tensão da placa, havendo-a comprado pouco tempo antes. Realmente, estas baterias de fraca capacidade exgotam-se mesmo fora do circuito. O vendedor não é culpado, porquanto muitas vezes o fabricante lh’as envia já com muito tempo de armazém. No acto de as comprar, deveis verificar bem se elas acusam a voltagem indicada.

Se os bornes das pilhas são visíveis, pode-se verificar elemento por elemento com um voltímetro, e sendo encontrado qualquer elemento mau, deveis pô-lo em curto circuito ou seja ligando os dois polos, ou ainda retirar esse elemento.

Válvulas
- As válvulas são, finalmente, a causa mais frequente do pouco ou mau rendimento d’um posto. Muitas vezes acendem normalmente, mas teem o filamento encostado á grelha, ou as ligações da grelha ou da placa cortadas junto ao ponto de contacto.

Algumas válvulas são más detectoras. mas podem dar bem como amplificadoras. Experimentae. Basta uma só válvula estar nas condiçõs apontadas para o posto não receber ou receber mal.

As válvulas podem vir avariadas da fabrica. Deveis ter sempre algumas sobrecelentes, para obviar estes inconvenientes, não tendo que suspender uma audição que vos agradava.

Reostatos
- Os reostatos do filamento também merecem especiaes cuidados. Reostatos de determinada marca de aparelhos, tinham o reostato tão imperfeito que provocava uma fritura constante.

Circuito placa
- Deveis notar que dando um pequeno choque sobre o vidro da válvula ou mesmo no próprio aparelho, se sente um som especial parecido com o d’um sino. Se não for ouvido este som, então é porque o circuito placa está interrompido ou o condensador fixo que está em paralelo com os telefones, está em curto circuito, isto é, as duas armaduras tocam-se.

Condensadores
- Os condensadores variáveis sofrem acidentes que muitas vezes interrompem a recepção e que só de muita observação, para quem não está habituado, é que se consegue localizar. As armaduras podem tocar-se e para observar este facto deve-se desligar os dois fios que ligam os seus bornes e ligar-lhes um ou dois elementos de pilhas ou acumuladores, inserindo em série com eles um voltímetro. Se quando se fizer girar o condensador o voltímetro acusar algum desvio, então é porque as armaduras do condensador se tocam. Com uma lamina de canivete desvia-se com cuidado a armadura que toca.

Inúmeras avarias de pequena importância podem aparecer, mas quasi todas poderão ser remediadas pelos possuidores dos postos com um pouco de cuidado e paciência.



Nota: Foi preservado o português original

Como Marconi inventou a TSF


COMO MARCONI INVENTOU A T.S.F.


Um antigo estudante de Boulogne, condiscípulo de Marconi nesta Universidade, em 1894 o doutor d’Asteck-Callery que fazia parte duma Missão Inter-Aliada, tendo sido chamado para ahi dirigir uma serie de experiências delicadas e ensaios práticos importantes na costa mediterrânea, em Antibes, encontrava-se um dia no Cabo do mesmo nome, perto do farol com outros sábios, em vias de proceder á instalação dos seus aparelhos; quando ouviu o velho guarda do farol que, não podendo conter o seu espanto á vista desses aparelhos, exclamava:

“Ah ! mas eu já conheço isso! Sim, senhores já vi esses aparelhos, ou outros parecidos, quando tive em minha casa o senhor Marconi.” Intrigado, o doutor d’Asteck interrogou de parte o homem. O relato que ouviu dos seus lábios foi conservado integralmente por ele e publicado no órgão da imprensa madrilena, “La Libertad” de domingo 25 de Maio de 1924:

”Marconi chegou um belo dia do farol. Vinha recomendado por um amigo de Nice e trazia consigo os seus aparelhos. Disse-me que iria comunicar, por meio de certas ondas, que não eram do mar, com um outro seu camarada que se encontrava na Córsega, junto do Cabo Bonifácio, e que para esse fim tinham sido fixados entre eles, dias e horas precisas para a audição dos sínaes. Passou assim uma curta permanência a fazer experiências, alternando para esse efeito, as suas viagens do cabo d’Antibes a Nice. Uma estrada duns 8 quilómetros era o trajecto da gare d’Antibes ao Cabo.


Marconi, sem dinheiro, percorria-a, a maioria das vezes a pé. Por vezes, fatigado, fazia-se conduzir por um cocheiro, seu compatriota, da gare ao farol.

Um belo dia, produziu-se entre os dois homens, por razões que ficaram misteriosas, uma altercação. Supoz-se que Marconi, não podendo pagar ao seu condutor, lhe teria prometido o pagamento total duma vez só, renumerando-o generosamente, e que o prazo, sempre renovado, tivesse causado a discussão. O que é facto é que n’essa tarde, no instante em que a carruagem chegava á encruxilhada próxima do termo da viagem, o cocheiro, furioso, e talvez embriagado, caiu sobre o seu credor e administrou-lhe uma tal “tareia” que o deixou inanimado, largando imediatamente a sua vitima estendida na estrada e fugindo, a galope apavorado com o seu acto.

Alguns instantes depois, o acaso conduzia ao local do incidente o que mais tarde foi o anjo da guarda do jovem Marconi. Era o ilustre Sir Willan Henry Preece, físico iminente e desde 1877, engenheiro electrotecnico dos telégrafos londrinos.

Preece estava em vilegiatura num hotel visinho, e á vista do desgraçado, estendido na estrada, despertou na sua alma os sentimentos do bom Samaritano. Levantou-o e fê-lo transportar ao Hotel do Cabo d’Antibes, que ocupa a residência construída por Napoleão em favor dos artistas inválidos do Império.

A habitação, situada no meio dum parque maravilhoso, encontrava-se na extremidade dos dois caminhos que, partindo da encruzilhada onde tem lugar a scena que relatamos, acaba á direita com o Cabo, emquanto que a ramificação da esquerda conduz, atravez dum pitoresco pinheiral, ao farol. A clientela do hotel era antes da guerra quasi exclusivamente britânica, e tão rica como discreta e silenciosa.

Tornado a si, Marconi, - então perfeitamente desconhecido, o que explica que esta scena não tivesse causado impressão no hotel onde passou despercebida para os restantes hospedes e até para M. Sella, proprietário há 35 anos já, desse opulento albergue, - contou a sua historia a Preece. Todos sabem que o jovem sábio era filho de mãe inglesa. Isso facilitou singularmente as relações com o sábio engenheiro. Este, não obstante recusava acreditar que Marconi pudesse ouvir sinaes sem fio vindos da Córsega. Mas foi preciso render-se á evidencia quando, convidado pelo seu jovem protegido a assistir ás suas experiências no mesmo farol, ele ouviu, poucos dias depois a crepitação, nas membranas do receptor telefónico, dos primeiros sinaes radiotelegraficos passando sem condutor nessa larga faixa azul do Mar Latino, que separa a pátria de Bonaparte, Terra de Promissão da nossa bela Provença.

Sir W. H. Preece, estava desse dia em deante, conquistado e a fortuna vindo de Marconi não se separou mais da sua. Conduziu-o a Londres, onde o dotou dos meios indispensáveis para se meter á obra, conseguindo-lhe da Administração dos Correios e Telégrafos, um credito de 15.000 shillings que lhe permitiu a continuação das suas experiências e de fazer do seu nome, o nome ilustre que hoje possue.


Nota: Foi preservado o português original

Cuidados a dar à galena


CUIDADOS A DAR À GALENA


Pode melhorar-se sensivelmente o rendimento dum posto de galena, vigiando a absoluta limpeza do cristal. Quando tocamos este com os dedos, o que torna a sua superfície ”encebada” ou suja, proveniente do deposito mais ou menos visível de grãos de poeira imperceptíveis, devemos dar-lhe uma lavagem com éther, operação aconselhada em geral. Todavia, o rendimento é notavelmente melhor se lavarmos o cristal de galena, não com éther, mas sim com álcool a 90”.

A explicação do facto é talvez a seguinte: o ether dissolve bem as matérias gordurentas, como as produzidas pela passagem dos dedos, mas não dissolve as partículas resinosas que se encontram na poeira da atmosfera, que, pelo contrario são dissolvidas pelo álcool.



Nota: Foi preservado o português original

Emissão por antena subterrânea


A EMISSÃO POR ANTENA SUBTERRÂNEA



Nova teoria da propagação

M. J. Quinet escreve no Paris Radio as interessantes linhas que transcrevemos:

Os radiofilos que já antes da guerra se ocupavam de T.S.F., devem lembrar-se das famosas experiências de Kiebitz, na Alemanha ou seja a recepção terrestre de emissões longínquas. Utilisava ele, uma antena formada por um fio isolado, simplesmente colocado no solo, de algumas centenas de metros. Chegou a fazer experiências com fios tendo dois quilómetros de comprimento. Nestas condições, notou propriedades directivas bastante pronunciadas e com uma boa orientação conseguiu receber em galena, as emissões americanas com ondas amortecidas.

Em seguida a estas experiências, fez tentativas com antenas subterrâneas, que deram também resultados satisfatórios na recepção. O doutor Rogers conseguiu receber na America, durante a guerra, a maior parte das estações europeias com antena subterrânea e tem obtido resultados verdadeiramente extraordinários.

Este inventor tem conseguido conduzir as suas experiências, graças aos amadores dissiminados por toda a parte e que podem assim recebe-lo. São eles que lhe teem permitido levar a bom fim esse novo modo de transmissão e portanto é para eles que vai todo o seu reconhecimento. (Isto demonstra que, longe de ver os amadores com maus olhos, os governos faziam melhor em ajuda-los e proteje-los !).

Seja como for, o Doutor Rogers fez cavar uma trincheira no terreno com um metro de profundidade e nessa trincheira colocou canalisações de terra refractária ou barro com cerca de 50 centímetros de diâmetro, nas quaes colocou uma antena unifilar de 30 metros de comprimento convenientemente isolada.

Utilisava dois tubos osciladores de 50 watts cada, alimentados por 1000 volts, O comprimento onda de emissão era nestes ensaios, de 185 metros A terra era constituída da maneira habitual e ligada ao posto. Desta maneira, a antena estava colocada propriamente dentro da terra.

Pois bem ! o doutor Rogers, metendo dois amperes nessa antena, pode comunicar a 1800 quilómetros! (Resultados obtidos com antena aeria.

Constatou propriedades directivas mui acentuadas, de tal modo que para comunicar em varias direcções, pode-se ter um conjunto de antenas subterrâneas directivas que se escolhe á vontade.

Conseguiu assim comunicar com um grane numero de amadores.

Por outro lado, ensaiou com esta emissão subterrânea a recepção nas mesmas condições e constatou os factos seguintes:

1.° Ausência absoluta de parasitas;

2.° Ausência total de Fading;

3.° Efeito nulo da noite e do dia.


Deante destas conclusões inesperadas e verdadeiramente maravilhosas, poz-se a reflectir sobre a teoria desta transmissão e chegou assi a uma nova teoria seguinte:

Antes de mais nada a Terra é conductora, E um facto incontestavel. Admite portanto numa palavra, que as ondas electro-magneticas emitidas pela antena são guiadas por essa terra conductora e propagam-se na sua superfície, da mesma maneira que as ondas electro-magneticas emitidas junto duma linha de transporte de força são guiadas, pela linha metálica.

Será portanto a telegrafia sem fio transmitida, não por um fio, mas por terra conductora. Desta maneira as ondas propagar-se-hiam á superfície da terra e não para o espaço. A curva d’Heaviside deixaria de ter interferência, assim como a difracção da curvatura da terra e as transmissões a grandes distancias explicar-se-hiam facilmente, sem essa multidão de reflecções incompreensiveis sobre a camada condutora superior, quando transmite da Europa para a Austrália.

Seja qual for a teoria, a emissão por antena subteranea funciona, e parece prometer no futuro, resultados práticos interessantes.

Assim pois, temos mais um vasto dominio de pesquizas aberto á actividade dos amadores não somente os da emissão, mas egualmente receptores, pois uns são o complemento de outros.



Nota: Foi preservado o português original

Mudanças por que passa a rádio


MUDANÇAS POR QUE PASSA A RÁDIO


Não ha nada que mais prenda a nossa atenção do que a leitura das historias das assim denominadas sciencias. São elas cheias de extraordinárias aventuras sofridas pelos viajantes ao ”desconhecido”; repletas de insuperáveis dificuldades vencidas pela indomável coragem d’aqueles que buscavam a verdade; elas contam-nos os obstáculos quasi fanáticos levantados por aqueles para quem o conhecimento representava exposição ou mesmo degradação. Porém, ha em tudo isto algo de mais interessante, o conhecimento que pouco a pouco se obtém, e a eliminação consequente de hipotheses não estabelecidas. Os destroços dos naufrágios de teorias inúteis cobrem as praias dos mares da sciencia, e são só os marinheiros bem equipados que podem fazer face ás tempestades.

No que respeita a radio, embora o mais novo rebento da sciencia física, e não contando ainda trinta annos. muitas theorias tem sido aproveitadas e muitas cortadas pela raiz e atiradas para os confins do esquecimento. No uso de transmissões sobre ondas curtas tanto na radiotelegrafia como na radiotelefonia acha-se um notável exemplo. Antigamente aceitava-se como principio que quanto maior fosse a distancia a ser alcançada maior devia ser o comprimento da onda de transmissão e maior a força da estação transmissora. Considerando isto, foram montadas as maiores estações emissoras taes como Carnarvon, Nauen, Bordéus e Sainte Assisse, cujos comprimentos de onda medem milhares de metros e cuja potência é enorme. Durante os últimos anos tem sido demonstrado até á evidencia que taes comprimentos de onda e potências não são absolutamente necessários, e devemos em grande parte aos amadores os magníficos resultados que tem sido obtidos. Em certos casos tem-se efectuado comunicações bilateraes com amadores da Austra lia e da Nova Zelândia usando comprimentos de onda inferiores a cem metros e com muito reduzida potência. Muitas experiências tem sido e são efectuadas com ondas curtas. A bem co nhecida estação de Pittsburg faz a radio-difusão sobre ondas curtas e ouve-se sempre na Gra Bretanha. Um grande numero de amadores faz hoje transmissões sobre a onda mais curta.

Quanto mais se diminue o comprimento de onda de transmissão, tanto mais aumenta a frequência das oscilações eléctricas; quando o comprimento de onda é de 100 metros a frequencia natural é de quasi três milhões. O modo de agir de taes correntes de altafrequência como são geradas n’uma antena receptora põe uma tal transmissão não são tão simples como quando a frequência é muito menor, e os typos ordinários de aparelhos de recepção de nada servem para a sua detecção.

Nas revistas que tratam da radio foram publicadas e publicam-se ainda indicações para a construcção de postos de recepção de onda curta, porém não são todos os radiofilos que podem fazer as despezas de dois aparelhos separados e assim os postos de recepção ”Anodion” e ”Gabinete” para grandes distancias fabricados pela Sterling Telephone & Electric Co. Ltd., estão equipados com um sistema privilígiado por meio do qual fazendo uso de órgãos especiaes ”Sterling,, de acoplamento de antena juntamente com os órgãos de reacção apropriados aos postos receptores poderão ser sintonisados até 40 metros. A gama que se pode cobrir é de 40 - 5.000 metros, gama que só é possível nos aparelhos ”Sterling”.

São necessárias antenas de grande altura? Até hoje era crença geral que para comunicar a grande distancia era necessário antenas de grande altura; mas devido a uma serie de experiências realisadas recentemente pelo engenheiro belga Mr. Robert Goldsmith, nos arredores de Bruxelas, comprovou que essa crença era errónea.

Conseguiu com uma antena de 6 pés de altura comunicar com Algeria, o Congo e America de dia.

Realisando em seguida uma conferencia afirmou que, dentro de pouco tempo se conseguiriam construir estações radio-telegraficas subterrâneas para comunicar com todo o mundo.


Nota: Foi preservado o português original

Na Inglaterra a TSF e o crime


NA INGLATERRA A T.S.F. E O CRIME (1925)



Um novo aliado dos detectives

As recentes experiências feitas pelas autoridades de New Scotland Yard, provaram, de maneira concludente, que a T. S. F. está destinada a desempenhar um papel de capital importância em matéria criminal.

Há três anos que primeiros ensaios começaram em Londres, com dois «camions» equipados com T S. F. A despeito das numerosas dificuldades que foi preciso transpor, fizeram-se instalações especiaes, necessárias para um serviço policial eficaz e de tal modo aperfeiçoadas que seis carruagens cobertas, munidas de postos transmissores e receptores, são utilisadas diariamente pelos agentes do departamento de investigação, para a execução de certos deveres do seu serviço.

Dois d’estes automóveis são os veículos servidos ás primeiras experiências, mas que são ainda utilisaveis. Quatro são utilisadas diariamente pela brigada movel de detectives, que percorrem districtos inteiros á procura dos ladrões e salteadores que fazem caça aos ladrões de automóveis ; vigiam activamente os indivíduos suspeitos de toda a espécie, e cumprem outros serviços de segurança que necessitam medidas prontas e rapidez de movimento.

A sétima carruagem é a mais recente, e tanto escrúpulo foi dedicado ao seu equipamento de T.S.F. e instalações, que lhe chamam o «az» das carruagens. Ao mesmo tempo existe no veiculo um telefone de bordo, de modo que o telegrafista pode comunicar ao chauffeur instruções tais como : «Pare !», «Siga!», «Volte á direita!», «Volte á esquerda!», «Oblique á direita!», «Lentamente !» etc. Está também instalado um porta-voz.

Todos os dias esta carruagem transporta uma «equipe» de detectives, que são iniciados no manejo dos aparelhos e que os tem impressionado de tal forma, com a facilidade e rapidez com ôs quais a comunicação é estabelecida com o posto radiotelegrafico do seu quartel general em New Scotland Yard, que apreciam enormemente o seu valor para os auxiliar nas pesquizas que se relacionam com us diversos crimes de maior importância. E está bem de ver que se os detectives devem ser enviados em busca n’um bairro qualquer de Londres, e não dispõe senão d’um veiculo ordinário, eles exprimentarão uma profunda decepção de estarem privados d’um poderoso auxiliar na repressão das infracções.

Entre aqueles que teem circulado n’esta carruagem figuram o comissário, o comissario-adjunto, os detectives encarregados de velar a segurança de «Big-Four» e outros agentes. Dentro em pouco, todos os agentes da brigada estarão ao corrente do valor dos meios de acção que oferecem os carros munidos de T.S.F.

Cada um dos carros é munido dum posto de 200 watts permitindo a transmissão duma mensagem telefónica num raio de acção de 20 milhas, mesmo quando o vehiculo marcha com uma velocidade de 70 kilometros á hora. Há alguns dias, estabeleceu-se comunicação satisfatória por T.S.F. com Preston-Lancashire, distante 198 milhas, emquanto o auto circulava com toda a velocidade numa das ruas de Londres. Os quatro carros primeiros não possuem antena visível, de forma que não podem diferençar-se dos outros vehiculos similares, conservando assim o seu verdadeiro caracter policial. O «az» dos carros possue uma antena exterior consistindo em cinco fios paralelos montados em armadoras moveis, fixados no tecto, podendo ser retiradas ou baixadas para o interior da carruagem quando a necessidade o exige.

Por meio dum comutador pode fazer-se a ligação a um quadro montado no interior ou paralelamente com a antena interior.

Desde à muito, o major Vitty que dirige o serviço técnico em Scotlande Yord e Mr. Wootton, engenheiro encarregado do serviço eléctrico, que teem orgamizado estas experiências radiotelegraficas, teem constatado que existia uma interferência considerável na transmissão, devida a uma tomada de terra ineficáz no vehiculo móvel, do ruido proveniente dos edifícios, dos atmosféricos, dos caminhos de fero, dos carros eléctricos, etc., mas empregando circuitos rejecteurs, conseguiram eliminar em larga escala todas estas causas de interferncia, e as mensagens são agora recebidas tão claramente como se estivesse no domicilio.

Pode suceder que, como os criminosos modernos possuem postos radiotelegraficos próprios, e muitos os teem incontestavelmente, eles s’ntonisem e possam captar as mensagens policiais,- adquirindo assim informações preciosas que lhes permitam tomar medidas preventivas.

Por isso, todas as mensagens recebidas e transmitidas pela esquadrilha radiotelegrafica serão em código, e mesmo, dada a hipótese d’um criminoso se apoderar d’esse código, isso de nada lhe serviria. O código poderá modificar-se tão rapidamente como o comprimento de onda.

Scotland Yard trabalha em dois comprimentos de on da ; transmite com 730 metros e recebe com 265 metros. Sintonisando, o salteador em questão ouvirá no seu posto qualquer, por exemplo: «GH. 10, MZ. 04 X T», o que, decifrado, pode muito bem significar que os detectives em automóvel munido de T.S.F., vão em perseguição de ladrões de automóveis que viajam na direcção de Brighton.

O código é muito difícil, mas o seu emprego é fácil. Praticamente, uma mensagem importante pode ser posta em código, transmitida, recebida, decifrada e receber certificado de recepção dentro de 10 minutos.

Os automóveis munidos de T.S.F. teem provado a sua grande utilidade pratica, para a policia, em numerosas ocasiões e não há dúvida que este sistema se tornou um auxiliar permanente da mesma, sabido já como existem tantos meios a empregar no interesse público. A ideia original que presidiu ás experiências da T.S.F. era o fornecer um melhor sistema de fiscalização do trafico, por meio de comunicação entre o Governo Civil e um vehiculo móvel. A experiência adquirida em várias ocasiões foi a causa do desenvolvimento actual.

Tempo virá em que todos os detectives encarregados d’uma missão importante, a efectuarão auxiliados com um posto de T.S.F., que eles próprios transportarão em qualquer caixa de algibeira, podendo assim pôr-se em comunicação com os automóveis ou com as estações receptoras. Estes postos portáteis constituem já ideia amadurecida, e, além do seu emprego policial, poderão prestar grandes serviços em todas as ocasiões que uma circulação intensa deva ser vigiada.



Nota: Foi preservado o português original

O emprego das ondas curtas


O EMPREGO DAS ONDAS CURTAS


Podemos, devemos mesmo esperar muito das ondas curtas e até das muito curtas; mas o seu emprego pratico, comercial, está ainda muito afastado, pois que até ao presente não podemos empregar para essas ondas senão potências muito fracas.

Os notáveis resultados obtidos em certas circunstancias por amadores com as ondas curtas, não devem dar ilusões a esse respeito.

Dos relactorios anuais (exercício de 1924) de duas das mais importantes companhias americanas de T.S.F., extraímos as passagens seguintes que mostram precisamente a opinião dos técnicos d’alem-Atlantico acerca das possibilidades actuais das ondas curtas.

O relatório oficial da Radio-Corporation, exprime-se assim:


“A Radio Corporation desenvolve o emprego das ondas curtas com transmissões de fraca potência para as aplicações comerciais, sendo actualmente empregados em transmissões desse tipo nas duas costas do Atlântico e do Pacifico. Outros estão em via de montagem.

Algumas das estações radio-electricas com as quais trocamos comunicações empregam também transmissores de ondas curtas.

Sob o ponto de vista comercial, não é possível ainda considerar este sistema como sendo ultrapassado o período experimental de momento, e no que diz respeito ás comunicações a grande distancia, a sua irregularidade durante as horas do dia não permite considerá-las senão como um meio de socorro para a radiotelegrafia com grandes comprimentos de onda.

O estudo técnico dos receptores para ondas curtas é todavia, proseguido pelos nossos engenheiros e as possibilidades futuras que essas ondas podem oferecer, são o objecto de toda a sua atenção”.


O relatório com data de 31 de Dezembro de 1924 da «Companhia Transradio Internacional de Buenos-Aires», exprime a mesma maneira de ver nestes termos:


“No campo das ondas curtas, temos obtido resultados surpreendentes, mas sem possibilidade de aplicação pratica; muitos pretendem que seria possível substituir imediatamente as estações de grande potência por dispositivos de ondas curtas de preço muito reduzido, mas recentes experiências, realisadas segundo métodos scientificos, teem-nos demonstrado que na hora actual, o sistema de ondas curtas não é solução suficiente por si só, para revolucionar completamente o estado actual das comunicações comerciais radiotelegraficas.”


Estes comunicados estão exactamente comformes com os pontos de vista dos técnicos mais competentes da França, Inglaterra e da Alemanha.

E para confirmar este juízo, pela experiência, a «Radio Corporation d’America», a grande sociedade americana vai construir nas Filipinas uma das quatro maiores estações de T.S.F. de ondas largas que existem no mundo, que ficará em comunicação com todas as capitais. O lugar será escolhido brevemente de acordo com as autoridades navais, militares e civis consultados sob o ponto de vista da sua utilisação em caso de guerra.

Graças aos alternadores Alexanderson, a transmissão fazer-se-ha com uma velocidade considerável tornando impossível a leitura ou a cópia. Esta nova super-estação receberá as suas informações d’uma rede de postos locais cobrindo todo o Extremo-Oriente. Na China foram já feitos planos para essas feeder-stations.

A Radio Corporation anuncia que brevemente Shangai, Cantão, Macau, Saigon, Batavia e outros centros do Extremo-Oriente, estarão em comunicação com o resto do mundo, pelo Pacifico, por meio da futura super-estação.



Nota: Foi preservado o português original

O que é preciso para purificar as vossas emissões


O QUE É PRECISO FAZER PARA PURIFICAR AS VOSSAS EMISSÕES



1.°-Ligar um condensador fixo de 0,002 mfd. aos bornes do enrolamento primário do primeiro transformador baixa frequência.

2.° - Substituir o segundo grau baixa frequência de transformador, por um grau de resistências; ou ligar uma resistência de 100.000 ohms aos bornes do enrolamento secundário do transformador desse grau.

3.° -Aumentar a tensão-placa das lâmpadas amplificadoras baixa-frequencia.

4.° -Aplicar nas grelhas destas lâmpadas um potencial negativo, determinado experimentalmente.

5. - Ligar um condensador fixo de 0,005 mfd nos bornes do alto-falante.


Realisadas estas cinco condições, a audição tornar-se-ha mais perfeita e pura.

Nota: Foi preservado o português original


Ondas curtas


AS ONDAS CURTAS



Leonel de Freitas Sampaio Trindade (1925)

A técnica moderna está concentrando todas as suas atenções nas transmissões obtidas pelosamadores, a grandes distancias e com pequenas potências.

Esses amadores observaram que na gama 15 a 90 metros o rendimento dos seus postos emissores decuplicava n’estes comprimentos de onda, com a vantagem de serem menos interferidos pelas descargas atmosféricas e de nenhumas interferências dos postos comerciais, pelo menos enquanto esses comprimentos de onda não forem utilisados pela grande parte d’esses postos.

E tanto assombraram os técnicos esses resultados, que logo eles se dedicaram ao seu estudo, tendo constatado que a eficiência d’essas transmissões dependia d’um sem numero de factores que contribuíam para isso, tais como posições geográficas, hora a que era feita a experiência, condições atmosféricas, etc.

Assim, verificou se que a mesma mensagem não era recebida em localidades mais próximas, apesar dos receptores serem idênticos.

Em face d’estes resultados, as companhias comerciaes continuam empregando as suas estações de largos comprimentos d’onda para o tráfego comercial.

Aqueles estudos foram acompanhados d’outros, não menos interessantes, a que os inglezes denominaram «beam» (orientação das ondas emitidas).

Grande futuro esperam os técnicos obter d’estas experiências, e é de ponderar os resultados que os amadores obtiveram do emprego das ondas curtas.

Infelizmente, ainda não pode servir de garantia a conclusão a que se chegou, e oxalá em breve possamos registar, com segurança, a permuta de comunicações a grandes distancias, garantidamente. Desde esse dia, teremos assegurada a resolução do mais alto problema da T.S.F.

Alguns watts nos conduzirem a voz a milhares de léguas, é, realmente, o ideal. Será, efectivamente, a solução do problema das comunicações, e as grandes Companhias de Cabos Submarinos e de T.S.F., sofrerão a derrocada que a sciencia moderna lhes infringirá.

Mas hoje, ainda não.



Nota: Foi preservado o português original

Os ruidos causados por má sintonização


OS RUÍDOS CAUSADOS POR MÁ SINTONIZAÇÃO



UMA ASSOCIAÇÃO D’AMADORES DE T.S.F. NO NORTE

Ter um bom aparelho de recepção, é o desejo enorme de todos os radiofilosE existe esse aparelho ? Existe sim, mas o que é necessário é não querer exigir dum circuito de duas, trez ou mesmo 4 lâmpadas rendimentos que eles não podem dar, pela razão bem simples de que um pequeno aparelho não é construído para ouvir os concertos alem duma certa distancia. Ouve-se, é certo, alguma coisa dos postos afastados e cuja potência é quasi a restrita para o paiz onde funcionam, mas não deveremos querer ir alem daquilo que as circunstancias nos permitem.

Contentemos nos em ouvir Londres, Daventry, Bournemouth, Paris e os trêz ou quatro postos espanhóis que mais próximos nos ficam, que são Madrid, S. Sebastian, Barcelona, etc., mas não nos importemos com Breslau, Sevilha, e tantos outros que figuram nos programas, e que aqui mal se podem ouvir com nitidez em telefones.

E se esta teoria fosse seguida por todos os radiofilos, não teríamos todos que queixar-nos uns dos outros pelos constantes assobios e roncos que produzimos, quando andamos buscando postos novos que não chegaremos nunca a ouvir com selectividade.

Deveríamos todos esperar a hora do começo dos concertos e sintonisar o posto que estamos dispostos a ouvir.

Uma vez preparada a sintonisação, escutemos com atenção os trechos de musica que queríamos ouvir, e evitemos a constante mudança de postos porque muitas vezes sem o sabermos estamos incomodando os nossos colegas que sossegadamente escutam a sua musica predilecta.

A propósito conto um caso que ha dias me sucedeu e que pode ser sempre repetido, não como exemplo, mas como espirito.

Acontecia-me muitas vezes ter que mudar de posto por não poder suportar um ruído extranho causado por qualquer aparelho visinho e que eu não sabia a quem pertencia.

Estudei o processo de saber quem era que me mimoseava de quando em quando com um ruido tão forte que me interferia toda a audição.

Suspeitava que em uma agremiação próxima da minha residência e onde ha um desses aparelhos de “guinchar” alguém se entretinha a produzir esses incómodos ruídos, mas não podia ser, porque o aparelho nem ali se encontrava pois estava em reparação.

Procurei uma noite saber se era outro visinho que também tem posto de recepção, mas soube que não se encontrava já em Ermezinde mas sim no Porto para onde tinha mudado o seu também excelente aparelho.

Tentei ainda ver se conseguia saber se um outro radiofilo estava escutando nessa noite. Só no dia seguinte pude saber que esse posto não tinha trabalhado.

Na noite seguinte, lembrei-me de que talvez fosse um posto muito próximo da minha residência, e que pertence a um meu amigo e muito distinto radiofilo do Norte.

Mas como lhe havia eu de preguntar se era ele quem me produzia naquele ruido? Um destes acasos levou-me a ter uma ideia feliz para o apanhar, apanhei-o muito bem.

Chamei pelo telefone este meu prezado amigo, que se não fez demorar.

- Como passou, meu amigo? pergunta-me ele naquele seu ar sempre muito correcto e fino, trocados os cumprimentos do estilo, preguntou-me o que havia de novo.

- Nada, meu prezado amigo, chamei-o apenas para lhe perguntar se já ouviu em 255 metros o novo posto de Toulouse (Association des Amis des Postes et Telegraphs de Toulouse). Respondeu-me que não, que não tinha ainda descido até essa onda mas que ia procurá-lo imediatamente.

Pedi-lhe a fineza de chegar ao telefone logo que tivesse encontrado o dito posto e me informasse da maneira que o ouvia- Assim foi. Eu tinha o meu aparelho sintonisado para o referido posto e daí a alguns minutos ouvi eu o tal ruido enigmático chegar a P.T.T. de Toulouse.

Ora cá está ele, disse eu, e esperei que aquele meu amigo me chamasse pelo telefone. Dois minutos depois as campainhas do telefone vibravam e a voz daquele meu querido amigo, perguntava “está lá”? Respondi, e reatamos o nosso diálogo a respeito do novo posto.

- Então sempre encontrou? interroguei eu.

- É verdade, respondeu aquele meu amigo, é um belo posto, ouve-se forte e a musica parece escolhida, e com a sua requintada gentileza agradecia a lembrança que eu tinha tido de lhe dedicar o novo Toulouse.

Nesta ocasião não me contive e contei-lhe que aquilo tinha sido uma armadilha para saber se era o seu posto que por vezes produzia um ruido fortissimo.

Rimos muito com a historia e devo confessar que desde então nunca mais semelhante ruido se fez ouvir.

É natural que aquele meu presado amigo tivesse corrigido o seu posto que, contra a vontade dele, imitia aqueles sons, que por vezes se assemelhavam á sirene dum vapor.

Que ele me desculpe esta narrativa que, quero crer, não ha de ler sem deixar de rir, como riu quando pelo telefone lha comuniquei.

Muitos radiofilos desconhecem que o seu aparelho oscila na antena e produz ruídos que por vezes desesperam aqueles que estão ouvindo a musica de qualquer posto, e que certamente evitariam com a melhor das boas vontades se por ventura conhecessem o ruído que provocam, com excesso de reacção.

No dia em que todos se cingirem ás indicações dadas pela sciencia para procurar sintonisar os seus aparelhos, nunca mais ninguém será incomodado com os silvos e ruídos provocados até agora, pelo mau processo de sintonisação que empregam.

Ha aqui no Porto logares onde é quasi impossível ouvir concertos. Felizmente esses ruídos não chegam até ao recantinho onde resido em Aguas Santas.

Ha cerca de 15 dias um ruido infernal alarmou todos os radiofilos do Porto e em especial Vila Nova de Gaia que conta já um grande numero de amadores de T.S.F.

Uma noite fui chamado ao telefone pelo meu querido amigo Fernando Matos um dos mais distintos amadores de T.S.F. de Norte que pretendia saber se em Aguas Santas se ouvia algum ruido anormal e constante parecido com o ruido que produz um alternadôr.

Respondi-lhe que, realmente já havia duas noites eu sentira um ruido forte localisado mais ou menos em 340 metros, mas que não m’incomodava embora o sentisse nitidamente. Disse-me então que todos os radiofilos do Porto andavam muito intrigados com a tal historia, e que em certos pontos sobretudo em Villa Nova de Gaia, era horrível semelhante ruido.

No dia seguinte leio nos jornais uma convocação feita aos amadores de T.S.F. convidando-os a comparecer pelas 6 horas da tarde no estabelecimento ”AUTO RADIO” na rua Saraiva de Carvalho 30, a fim de em conjunto pedir providencias a quem de direito, contra tal ruido e ver se poderia verificar-se mais ou menos o local onde o mesmo era produzido.

Ás seis horas achavam-se reunidos muitos amadores que depois d’alguma discussão sobre o assumpto, resolveram abrir uma inscripção para uma liga de defeza dos interesses dos amadores de T.S.F. Essa proposta que creio ser da auctoria do Ex.° Snr. Dr. Vasconcellos foi aceite imediatamente ficando desde logo assente que em uma grande reunião a realisar pelas trez horas de Domingo se nomearia uma commissão d’instalação, que trataria da nova sociedade. Efectivamente pelas trez horas da tarde de Domingo ultimo e após breve discussão foi nomeada uma comissão para tratar das bases e estatutos para a mesma sociedade.

Colhendo informes sobre o assumpto, soube pelo meu amigo Fernando Matos, que faz parte d’essa Comissão, que vão muito adeantados esses trabalhos e que no próximo Domingo 11 já poderão expor a assembleia o resultado das suas ”demarches”.

E eis como um ruido fantástico provoca a formação de uma sociedade que se tornava necessária em absoluto para proteger os interesses dos radiofilos do Norte.

Oxalá muito breve todos os amadores da T. S. F. se compenetrem do dever de se inscrever como sócios n’essa colectividade que ha-de sem duvida dar-lhes muito breve as regalias de que gosam os radiofilos estrangeiros.

Estou convencido de que muito se deve esperar d’esta colectividade que conta em seu seio creaturas possuidoras d’uma grande boa vontade, e que gosam d’uma excelente reputação n’esta cidade.



Victor França

Nota: Foi preservado o português original

Ouvir TSF


OUVIR TSF



(28 Dezembro 1924)

Nos últimos dias tem-se notado uma grande actividade na aquisição de postos receptores de telefonia sem fio.

Foi a grande surpresa do Natal para os bebés, pois que não somente os papás passaram a ficar todas as noites em casa, como a felicidade entrou no lar que adquiriu um posto.

A T.S.F. proporciona o recreio mais atraente da actualidade, e nenhuma sciencia conquistou mais adeptos e cultivadores que esta.

A recepção já se faz sem ser necessário conhecimentos especiais, logo que se disponha dum bom aparelho. São realmente elevados os preços dos postos, e isto sucederá sempre emquanto a transmissão for feita a 1800 quilómetros.

Mas quem não pôde adquirir um posto de grande amplificação, pôde obter já noites agradáveis com as audições que proporcionam dois postos de amadores de Lisboa.



Nota: Foi preservado o português original

Primeira transmissão de P1AE


PRIMEIRA TRANSMISSÃO DE P1AE


Um dos primeiros postos a emitir em 1924 foi o do Tenente Eugénio de Avilez, P1-AE.

Eugênio de Avilez foi o presidente da “Rádio Academia de Portugal”, uma associação que foi dissolvida em favor da “Sociedade Portuguesa de Amadores de T.S.F.” que acabaria, também, por encerrar. Fundou então a R.E.P. - Rede de Emissores Portugueses, em 1926.


INDICATIVO OFICIAL: P1AE
FUNDAÇÃO: 1924
INSTALAÇÕES: Rua Costa do Castelo, 15, 1º.
PROPRIETÁRIO: Eugênio de Avilez.
POTÊNCIA DO EMISSOR: 50 W
EMISSÃO: 80 m (1924).

Abaixo pode ler-se a descrição da construção do seu primeiro emissor escrita para o número de Março de 1925 da revista “T.S.F. em Portugal”:


Março de 1925:
P1-AE


Permita-me o leitor que em poucas palávras que eu faça a historia da construção do posto P1AE o qual apezar do seu primeiro nome, quando viu a luz do mundo, já o ilustre “1 AB” tinha nascido, crescido e... até já falava. Tendo sentido uma enorme alegria no dia em que 1 AB se fez escutar pela primeira vez e ouvindo-o pedir que lhe dessem informações acerca da sua emissão, lembrei-me de passar a transmitir-lhe pelo mesmo sistema as informações pedidas e assim, dentro das minhas forças, concorrer para o desenvolvimento da T. S. F. em Portugal, a exemplo do que se faz lá fora e cujos resultados mais extraordinários se devem á proficiência e paciência dos amadores.

Ora como esta ideia coincidisse com a posse de umas dezenas de escudos disponíveis, condição essencial para se obter a oscilação de um posto emissor, e porque não gosto de dormir sobre as resoluções tomadas, eis-me nesse dia trocando os já mencionados escudos por condensadores, resistências e outras peças várias, dando começo á montagem do meu posto.

Recordo-me aqui, que por um feliz acaso, alguns amigos tiveram a óptima lembrança de me visitarem, o que me permitiu fazer-lhes passar agradavelmente umas trez horas, bobinando umas selfs de mil e duzentas espiras, o que se proventura os aborreceu -o que não creio, teve para mim a vantagem de me livrar d’essa massada e de terminar mais rapidamente a montagem.

Satisfeitíssimo, julgando-me no fim dos meus trabalhos, ligo lhe os acumuladores, acendo as lâmpadas e, quando me preparava para fazer uma chamada para um amador Norte Americano, das minhas relações, vejo com espanto que o ponteiro do amperemetro de antena, se encontrava no descanço junto ao zero, naturalmente por se achar comodamente instalado, se recusa terminantemente a deslocar-se.

Não os desejo massar contando-lhe o que para mim foram cerca de vinte horas a verificar a montagem, e as ligações, acompanhando estes trabalhos de olhares envergonhados, lançados, a furto ao amperemetro, o qual, incensivel ás minhas dores de cabeça, ironicamente continuava a mostrar-me o zero como cotação maxima do meu esforço.

Emfim com o auxilio de um miliamperemetro generosamente emprestado pude descobrir um atemo de solda que se estava divertindo a permitir a fuga da corrente de grelha.

Expulso este, a custo o maldito ponteiro largou o seu encosto e cansadamente foi subindo até um décimo. E já nessa noite 1 AB acusava a recepção da minha palavra.

Estava dobrado o cabo das tormentas!

E assim com trez lâmpadas de recepção, lá corrigidos uns pequenos defeitos, melhorada a terra, que actualmente é constituída pela canalisação de agua, gaz, algeroz e por um poço, a irradiação rapidamente passou a quatro décimos.

Acusavam-me sinaes muito intensos e uma boa modelação e nitidez em toda a cidade. Desejando progredir substitui as lâmpadas de recepção por lâmpadas de emissão typo T.M.C. e com mais umas pequenas modificações consegui obter cerca de 20 Watts oscilantes E como me pediram que fizesse uma emissão de musica em comprimento de onda que podesse facilmente ser recebido, abandonei os 130 metros onde trabalhava e adoptei os 250 tendo emitido um concerto cuja recepção foi acusada nos pontos mais excêntricos da cidade, com uma óptima modolação e uma grande intensidade. Alguns informadores levaram a gentileza de, pelo telefone, me proporcionarem a audição do meu próprio posto. Embora de muito valia estas informações são de curta distancia e como não tenho outras nada posso dizer sobre o meu alcance. Aproveito esta ocasião para pedir aos amadores da província o favor de comunicarem a esta Revista a recepção do meu posto o que desde já agradeço.

Antes de terminar, eu desejo deixar bem expresso o meu reconhecimento á Administração Geral dos Correios e Telégrafos e ao Ministério da Marinha, a tolerância destes estudos que são sempre feitos de forma a em nada prejudicarem os serviços oficiaes.

A todos os amadores que tão bom auxilio me teem prestado os meus agradecimentos e em especial aos distintos amadores Dr. Souza Coutinho e D. Ricardo Carnier que com muita boa vontade teem dedicado muitas das suas horas a atenderem-me.

Finalmente desejo agradecer a 1 AB a forma gentil como sempre se tem prestado ás minhas comunicações bilateraes e aos esclarecimentos dos meus ensaios.

A V. Ex. Snr. Director da T.S.F., em Portugal eu agradeço mais uma vez as atenções que me tem dispensado e permita me que me confesse muito reconhecido pelas referencias lisongeiras que nas colunas da sua óptima e muito lida revista me tem feito.



Eugênio de Avillez P1-AE

Nota: Foi preservado o português original

Recepção sem antena ou terra


RECEPÇÃO SEM ANTENA OU TERRA


Ouve-se com frequência falar aos amadores da sua maravilhosa recepção e de como conseguem ouvir estações diferentes sem antena ou terra ligadas. Isto tem dado lugar a inexactidões que nem sequer servem para atestar a boa qualidade d’um receptor.

Um exame demorado ao receptor quando está recebendo sem antena ou terra, mostrará imediatamente uma imperfeição n’ele. De facto, os circuitos, ou por outra a bobine tesla ou transformador d’alta frequência, ou ambos, estão recebendo quantidade suficiente de energia para produzir sinais audíveis. O resultado d’esta forma de recepção é reduzir a selectividade do aparelho. O fim de qualquer dispositivo de sintonisação é de deixar passar uma determinada frequência e regeitar as outras. Quanto mais ele regeitar as frequências indesejadas tanto mais selectivo ele é.

Se a inductancia é d’um tipo de construcção susceptível de receber energia d’outras frequências alem d’aquela que se deseja é porque está prejudicando o fim a que se destina.

Qualquer bobine do tipo de campo aberto que inclue o solenóide, ”ninhos d’abelha”, ”teia d’aranha”, etc., pode receber energia de sinaes. Quanto maior for o diâmetro d’estes enrolamentos maior quantidade receberá, porque se está aproximando d’um eficiente quadro-antena.

Imaginemos agora um receptor de alta frequência sintonisada empregando quadros para as inductancias. Será possível receber diversas estações ao mesmo tempo, uma de cada quadro. O efeito na selectividade poderá facilmente imaginar-se.

Há diversos métodos de acautelar os circuitos da influencia dos campos próximos. Um, é meter completamente o receptor dentro d’uma caixa metálica. O outro é usar uma bobine que não seja influenciada pela inducção visinha.

N’aquele caso deve ter-se a precaução de proteger o receptor da caixa, pois esta sendo metálica, absorve muita energia prejudicando as qualidades do receptor.

Qualquer bobine do tipo de campo aberto, é influenciada pelos campos exteriores. O único tipo de enrolamento livre d’este defeito é o que tiver um campo próprio e fechado.

Há muito que se sabe que a bobine “Toridal” ou “Doughnut”, teem um campo próprio e portanto nem irradia nem apanha energia. Esta forma de campo esteve em uso por algum tempo no serviço dos telefones como bobines, mas não pode ser aplicada a muitos circuitos de recepção.

Nos laboratórios da Reichmann Co. de Chicago, encontramos recentemente uma bobine Doughnut para T.S.F. Além de ser uma bobine sem campo, tem um enrolamento com pouca perda que a torna uma das inductancias mais eficientes das até hoje conhecidas. Dois tipos de bobines foram construídos, uma para a antena e a outra para transformador de alta frequência por acoplamento. Um receptor com estas bobines não recebe sinais alguns, nem mesmo da mais próxima estação, quando a antena e terra está desligada. A única energia captada pelo receptor é recebida pela bobine d’antena assegurando assim o máximo de selectividade.

Outra grande vantagem d’este tipo de bobine quando usada como transformador é de que elimina a inducção d’acoplamento, que é uma frequente causa de instabilidade n’um amplificador d’alta frequência. Isto é devido ao facto de não existir campo magnético nas bobines evitando o encontro d’estes.



Nota: Foi preservado o português original


Reclames que prejudicam


RECLAMES QUE PREJUDICAM



Determinada casa vendedora de aparelhos de Lisboa tem feito uns anúncios de tal forma, que assombrariam o mundo, se não fora os resultados práticos d ferirem...

Temos recebido inúmeras perguntas sobre os aparelhos que se devem preferir. Como se observa nos resultados em que um aparelho potente perde na perfeição e pureza da audição, havendo em compensação outros menos intensos mas de clareza de recepção superiores, nós não podemos dar a preferencia a uns ou outros, por haverem gostos diferentes. O que constatamos é que a maioria dos anunciantes são conscienciosos, e isso nos basta.

O facto de qualquer casa dizer “os nossos aparelhos recebem comunicações de todo o mundo”, afigura-se-nos um reclame excessivo. Os próprios amadores que já possuem os seus postos, lamentar-se-hão de ter adquirido prematuramente os seus postos.

O anunciante foi procurado por um pretendente, ás 15 horas e disse: “São 15 horas. Paris está transmitindo o seu concerto quotidiano. Peço-lhe o favor de me deixar ouvir o concerto de Paris-Radio”.

E qual não foi o espanto do nosso amigo, quando não conseguiu ouvir uma nota musical.

Presamos a verdade e devemos estes esclarecimentos aos nossos inúmeros leitores que tão preocupados estavam, julgando terem sido ludibriados com os aparelhos que teem adquirido e sobre os quais apenas dizem (e já não é pouco): recebemos Paris, Londres e Madrid, e muitas vezes ainda Bruxelas e Roma e nem sempre America.

Devemos ter sempre presente que além d’estes postos estarem a 1600 quilómetros de distancia, utilisam uma potência muito limitada que na telegrafia, ha anos apenas alcançariam uma centena de quilómetros.

Já são maravilhosos os resultados obtidos para que se não pretenda cognominar a T.S.F. de radio . • (qualquer coisa que de momento nos não ocorre).



Nota: Foi preservado o português original


Resposta ao artigo "A TSF no lar conjugal"


A TSF NO LAR CONJUGAL - RESPOSTA


Quando ha dias via sobre a minha secretaria a correspondência que me era dirigida, deparou-se-me uma carta que logo, pelo formato do envelope, bem como pela caligrafia rasgada e irrepreensivelmente ingleza, chamou a minha atenção.

Um perfume delicioso que exalava envolvia o pequeno ambiente do meu escriptorio

Analisei-a com a curiosidade natural de quem tudo quer ver atravéz do envelope De quem seria?

Abri-a, nervoso e com aquele desejo extraordinário que todos sentimos, quando queremos adivinhar quem é o auctor d’uma carta cuja caligrafia não conhecemos. Recorri imediatamente á assignatura, mas., por muito que insistisse para a dicifrar não me foi possível de momento

Essa carta que aqui vou transcrever na integra, é uma critica ao artigo que no passado numero aqui escrevi com o titulo que serve d’epigrafe a este escripto.

Eil-a..


Senhor Victor França

Ha dias, seguia eu em carro eléctrico para Leça, em visita a uma amiga d’infancia. A meu lado um cavalheiro folheava tranquilamente uma revista cujas ilustrações de quando em quando chamavam a minha atenção Em Carreiros com a precipitação com que sahiu, deixou abandonada a publicação. Peguei nela e folheando a encontrei na ”T.S.F. em Portugal” um artigo seu que chamou a minha atenção, e que li depois á minha amiga. E no seu belo artigo tão interessante, encontrei o motivo de lhe endereçar estas linhas, para lhe expor alguma coisa que imenso desejava ver respondido

Pareceu-me tão extraordinário o seu artigo, não pela forma mas pela sumula, que da estranha solidão em que me encontro velo o rosto atraz da revista que por felicidade me veio ás mãos, e dirijo me a V; um pouco Incrédula e muito curiosa a rogar lhe me esclareça alguns pontos do seu artigo que parecem inverosímeis

A sua curiosidade, ha-de pfrguntar-lhe quem sou antes de tudo. Vou tentar responder-lhe tanto quanto possível, veladamente é certo, pois receio não terem morrido de todo em V. os antigos hábitos de ”bom vivant” que do seu artigo transparecem

Sou mulher. Uma quasi desiludida, quasi solteirona-, a quem os desgostos próprios e alheios emprestaram uma indiferença e um sceticismo bem pouco próprio da minha idade

Veja V... . 25 anos e já quasi no ostracismo essa ilusão doirada que nasce na alma de todas as mulheres,., duma casinha singela solheirenta e enflorada, onde brincasse um rosto de anjo e onde uns braços me apertassem agradecidos d’essa felicidade, sempre velha e sempre linda!

Descri.. Tanto soube e tanto vi d’essa fictícia vida d’hoje que já não posso acreditar na felicidade do lar conjugal

Às vezes nas, horas tristes do meu viver de sedentária perguntava a mim mesmo como podia alguém deixar-se enganar pelas palavras mentirosas do noivado, sabendo e vendo o que dia a dia acontecia á sua amiga mais intima, abandonada e triste após o seu primeiro mez de núpcias. E .. d’ahi a minha desilusão. O meu afastamento

Mas o seu artigo, meu amigo- (conheço-sabe?) veio trazer ao meu isolamento um raio desperança. E, sabendo eu, como sei que fala por experiência, não calcula como estou anciosa por saber o mais que sobre o assumpto promete dizer proximadamente

Deixe-me que duvide um bocadinho. Sou uma descrente tão grande meu amigo! Nem conheço ainda esse grande invento de que por varias vezes tenho ouvido falar, nem creio que ele tenha o condão de prender em casa aquele que nós mesmas, as mulheres, não conseguimos. E sabe? V. é mau; e, desculpe-me a liberdade. Não vê que nos colocou numm plano inferior aos aparelhos de radio telefonia?

Vencidas, pela sciencia, nós, as mulheres!..

Pela parte que me diz respeito perdoo-lhe se prometer tirar-me d’esta duvida terrível que me coloca na hesitação de não saber ser Mulher

Vou terminar, meu amigo por lhe dizer que espero com anciedade ver em breve a revelação do celebre segredo para lhe agradecer a felicidade que se propõe dispensar com a sua teoria, aquelas que como eu vivem esquecidas, da vida e da felicidade

Perdoe me ainda a ousadia de o molestar e creia-me,
sua admiradora

Carmen Conrádio


E quem é que ao ler uma carta d’estas não sente um desejo enorme de a voltar a ler, ao terminar a sua leitura?

Assim fiz! Lia-a muitas vezes e por fim recorri á minha memória para ver se conseguia saber quem, chamando-me ”meu amigo” me escrevia d’aquela maneira

E... não tardou muito que eu ficasse persuadido que tinha decifrado o enigma, e vou ver se consigo retratar em largos traços a creatura que com imerecida elegância se me dirigiu

Alta, elegante usando sempre umas toiletes muito próprias e de um fino gosto, Cabelos loiros anelados, uns olhos roubados ao firmamento n’uma noite de luar, encimados por dois traços lindíssimos, as orbitas ligeiramente azuladas o que lhe faz realçar o seu olhar vivo, inteligente e cuja linguagem era digna de ser cantada em um poema.

Por boca, um escrínio de pérolas tendo por fecho uns lábios sensuais onde o carmim natural de frescura sobresae na epiderme que só os anjos possuem

Corpo de Fada e sentir de creança

Eis o retrato da creatura que me escreveu a carta que acabas de ler meu caro leitor

Agora para ela:


Minha Senhora
Oxalá V. Ex.a possa encontrar de novo esta revista, para n’ela ver que se não escreve impunemente uma critica, a quem não tem a pretenção de saber escrever, mas apenas a de dizer na linguagem vulgar, o que sente e o que é verdade

V. Ex. confundiu os dizeres da minha carta

Tirou conclusões erradas das minhas palavras

Por ventura seria alguém capaz de trocar a ventura do seu olhar, ou qualquer outro prazer por mais scientifico que ele fosse? Não seja injusta!

Disse n’aquele meu artigo, e repito hoje: A T.S.F. ou melhor um aparelho de recepção de telefonia sem fio, ha de vir a ser um grande purificador do lar conjugal. Ha de proporcionar a todas as pessoas amantes de seus maridos uma grande felicidade, mas isto apenas no que diz respeito á permanência do marido em casa á noite, á hora das diversões noturnas que tantas e tantas vezes são a origem de desavenças com as esposas desconfiadas, que receiam lhes roubem a única alegria que possuem quando amam verdadeiramente seus maridos

Creia minha Senhora, que se em alguns lares existisse esse pequeno aparelho de T.S.F. que V. Ex. desconhece, não se passariam factos que desgraçadamente vemos todos os dias.

E, se me restasse alguma duvida do que afirmei bastaria ver que a carta de V. Ex.a veio confirmar exactamente o que penso, nas suas expressões sentidas, de desalento e desilusão.

Então V- Ex.a não vê que os seus queixumes são apenas motivados (é o que se deprehende) pelo abandono a que foi lançada, embora injustamente?! Então não vê V. Ex.a, minha senhora, que nós homens, perdemos em um momento toda a serenidade, e esquecendo muitas vezes os nossos deveres, pela tentação, d’uns momentos? E, deixe-me dizer-lhe, quantas vezes se evitariam certos encontros se não sahissemos de casa á noite?

A noite favorece tudo que é mau, embora sob aparência de bom

Quantas vezes um simples olhar não é o rastilho de uma paixão? Que de coisas eu poderia dizer-lhe para a convencer de que a sortida noturna é muitas vezes o caminho para a dissolução do lar conjugal !

Imagine V. Ex.a que depois de jantar, lhe era dado ter a seu lado, seu marido, procurando proporcionar-lhe um concerto variadissimo em que se aprecia boa musica e emquanto V. Ex.a trabalhava nos seus lavores ele procurava ouvir nitidamente “ABOHEME” em Roma, a ”Cavaleria Rusticana” em Madrid ou o ”Jazz” de Londres! Não lhe parece que isso seria o ideal? Depois, á meia noite, as badaladas da Westminster vinham dar por terminada a audição.

Acrescente a isto uma chávena de chá na companhia de pessoas amigas que desejam ouvir com imensa curiosidade a T.S.F. e teria V. Ex.” o paraíso em casa.

E então se se vive em pleno campo onde escasseiam todos os divertimentos é um encanto receberem-se de muito longe, concertos, operas trechos de musica regional etc. etc. que nos levam a supor a T.S.F. um invento sobrenatural.

Não pense minha senhora que isto duraria uns dias; não! Seu marido tomaria tamanho “vicio” por tal sciencia que algum tempo depois, nem mesmo V. Ex. com todos os seus carinhos seria capaz de o arrastar de casa!

Pôde V. Ex.a não acreditar, nas minhas palavras, mas se conhece, ou se tem nas suas relações alguém que possua esse ”vicio” verá que dificilmente aceitam qualquer convite ás horas em que em Madrid se canta a “LUCCIA” ou em Paris um programa de Wagner.

Sou mau... diz V. Ex.a, porque anteponho ao carinho da mulher um aparelho de T.S.F.

Envaidece-me com o insulto, mas deixe-me dizer-lhe, que V. Ex.a não compreendeu bem o que eu quiz expor! E se compreendesse, não me chamaria mau, não, porque uma boca tão bonita, uns lábios como os seus não são capazes de pronunciar uma palavra d’agiavo se ela não for justa.

Veja, minha Senhora se insinua no espirito de seu marido a ideia de Radiofilo, e ha-de ver a transformação que n’ele se opera.

Perdôe-me, sim ?

Confessa-se agradecido de V. Fx.a

Victor França



28 de Março de 1926

Nota: Foi preservado o português original