
São antigos mas não são velhos. Resistiram ao tempo, ao uso e ao desgaste.
Com o passar do tempo os receptores de rádio vão perdendo sensibilidade e alterando os limites das bandas de recepção.
Isto é devido à alteração da capacidade dos vários condensadores do estágio de RF, envelhecimento das válvulas e alteração dos valores das resistências, principalmente, as de valor elevado.
Um dos trabalhos de restauro passa pela calibração ou alinhamento de forma a melhorar a sensibilidade, selectividade e diminuir o ruído.
Trata-se de um trabalho meticuloso, que deve ser feito com paciência e muito cuidado uma vez que se se partir um núcleo de uma bobina de RF ou alguma das que estão dentro dos “canecos” de FI a sua recuperação será muito difícil.
Era habitual cobrir os núcleos de ferrite com cera ou lacre para evitar que estes se descolassem com a trepidação. Com o tempo esse material fica muito duro tornando difícil e arriscado o processo de libertação dos núcleos.
Antes de iniciar o alinhamento do receptor deve levar em consideração se vale mesmo a pena arriscar. Se o rádio tem recepção razoável, e não pretendendo que ele fique como novo, talvez não valha a pena efectuar essa tarefa. Poderá restringir o seu trabalho ao retoque dos “trimmers” de ajuste da antena e do oscilador local.
Antes de proceder ao ajuste deste andar tem de verificar primeiro qual a frequência indicada pelo fabricante para a calibração da FI. Em regra está no esquema do receptor, mas, há falta deste, pode procurar na tampa ou no chassis. Geralmente situa-se nos 455KHz embora em receptores muito antigos ele possa ser um pouco superior a este valor.
(Como exemplo indica-se o ajuste para a banda de ondas médias (MW). Para outras bandas deve usar o mesmo procedimento)
Notas finais:
Se o receptor tiver “olho mágico” pode dispensar o multímetro para avaliar o
nível de sinal. Certifique-se, no entanto, que este esteja a funcionar
correctamente.
Com o tempo o ponteiro tem tendência para “escorregar” no fio do quadrante. Antes de calibrar a frequência do oscilador local, deve verificar se o início e o fim do dial estão assinalados correctamente pelo ponteiro.
A saída de RF do gerador de sinais deve ser modulada em amplitude por um sinal de BF de 1KHz, tendo o cuidado de usar apenas o nível de sinal necessário para se ouvir e fazer desviar a agulha do multímetro.
Para este tipo de ajustes o multímetro analógico é preferível ao digital.
Como ficou dito na introdução a este dossier, vamos apenas referirmo-nos a diagnósticos simples, avarias que não exigem grandes conhecimentos técnicos. Para situações mais complicadas deverá recorrer a um técnico experiente e paciente, que tenha um bom domínio da tecnologia usada nos circuitos a válvulas. Neste dossier encontrará um tópico com referências a alguns desses técnicos embora não tenhamos qualquer interesse nem responsabilidade nessa informação.
O diagnóstico é muito importante uma vez que o sucesso da resolução do problema depende fortemente da exactidão com que esse defeito é diagnosticado. Para isso deverá saber servir-se do multímetro, saber usar o ferro de soldar e possuir boas ferramentas. Alguma paciência também é bem-vinda.
Abaixo encontrará algumas dicas simples que o ajudarão nesta tarefa.
O aparelho não liga, nada acende, nem a luz piloto, nem as válvulas
Ainda nestes receptores, principalmente os de fabrico europeu, a lâmpada piloto também faz parte da série de ligação das válvulas. Se estiver fundida, nada ligará.
O aparelho acende mas não se ouve qualquer sinal no altifalante
Há um ligeiro ronco no altifalante, verifica-se a presença de áudio tocando com a chave na grelha de controlo da válvula de saída, mas não há mais nada.
Meça a tensão na placa e compare com o valor indicado pelo manual. Uma tensão igual ou muito próxima da tensão de +B indica que a válvula não está a amplificar, estando a sua grelha fortemente positiva ou sem qualquer tensão. Uma tensão próxima de 0 indica que a válvula está mal polarizada ou tem a resistência de placa aberta.
Em boa parte dos casos o problema está nos condensadores de acoplamento da placa à grelha de controlo da válvula de saída, ou da grelha de controlo da válvula de "BF" ao circuito detector ou ao potenciómetro de volume. Deve ter também atenção à resistência de polarização da grelha de controlo, em regra uma resistência de valor elevado, próximo de 1MOhm.
Aparentemente toda a secção de áudio está a funcionar correctamente, mas não se sintoniza nenhuma estação
O estágio de RF é o mais complicado de reparar, podendo ser muitas as causas da falta de recepção.
A audição de estalidos indica que os circuitos de FI e, talvez, Conversor, se encontram em boas condições. Se não se ouve nada pelo menos o circuito de FI está avariado.
A injecção de um sinal de RF na grelha de controlo da válvula amplificadora de FI permitirá avaliar o funcionamento deste estágio. Nos receptores muito antigos a válvula de FI tem uma ligação pelo topo que corresponde à grelha de controlo. Ao retirar o “capacete” e tocar no pino da válvula deverá ouvir um forte ronco.
Resista à tentação de mexer nos trimmers ou bobinas de ajuste das frequências intermédias, seguramente não estará aí o problema.
São sintonizadas emissoras mas o áudio é muito baixo
As causas podem ser diversas, o problema pode estar na baixa sensibilidade do circuito de HF, pouca amplificação do andar de FI ou do andar de BF. A facilidade com que resolverá o problema dependerá da identificação correcta do andar defeituoso.
Se o sinal ouvido for forte o andar de BF está em bom estado, remetendo-se o problema para os andares anteriores.
Descarte este andar se o sinal for perfeitamente audível.
Resta o andar de HF.
Andar de BF:
Note que em muitos casos não há válvula amplificadora de BF, sendo essa tarefa desempenhada apenas pela válvula de saída.
Amplificador de FI:
Andar de HF:
Volume de som normal mas com muita distorção mesmo em baixo nível
Geralmente este problema é motivado pela polarização positiva da válvula de saída de áudio. Em muitos casos também resulta da abertura da resistência da grelha auxiliar da mesma válvula. São descartados os circuitos de HF e FI.
Distorção elevada quando se aumenta o volume
Erros de polarização da válvula de saída ou esta avariada são os motivos mais comuns. Descartam-se os circuitos de HF e FI.
Distorção elevada quando se sintoniza uma estação mais forte. Ao aumentar o volume o som chega a desaparecer
Geralmente podem ser descartados os andares de BF, no entanto, e nos casos mais difíceis, devem ser feitas as medições e verificações indicadas nos pontos anteriores relacionados com distorção.
Este problema é motivado pela chegada à grelha de controlo da válvula de BF da tensão resultante da detecção de RF alterando a polarização da mesma. Como esta tensão é proporcional à intensidade do sinal recebido e à posição do controlo de volume, há distorção dá-se nas emissoras mais fortes e com o volume mais elevado.
Forte ronco no altifalante
Depois da rectificação da tensão de AC é necessário filtrar esta para que os seus resíduos de alterna sejam mínimos. Isto é feito através de um condensador electrolítico de capacidade e tensão de isolamento relativamente elevadas.
No entanto esta primeira filtragem não é suficiente, principalmente para os andares de BF e RF. Por esse motivo é adicionado mais um condensador de capacidade e tensão semelhante num circuito designado “PI”.
Assim a tensão recolhida no cátodo da válvula rectificadora liga ao primeiro condensador de filtragem cujo valor se situa entre os 47 e os 100MDF. Deste ponto sai a alimentação para a placa da válvula de saída de áudio uma vez que o seu consumo é mais elevado que o do restante circuito. Ainda deste ponto sai uma resistência cujo valor varia entre os 100 e 1000ohms que liga ao segundo condensador de filtragem. É deste ponto que sai toda a alimentação de “+B” para os vários circuitos.
Nos receptores mais antigos em lugar da resistência usava-se um “choque”, uma bobina de alta impedância.
Antes da utilização dos altifalantes magnetodinâmicos (em que o imã é permanente, constituído por material ferroso) estes eram electrodinâmicos (uma bobina produz o campo magnético). Essa bobina era utilizada como choque de filtro. Daí que, de muitos altifalantes dos rádios dos anos 30, saíssem 4 fios para o chassis; dois correspondiam à bobina móvel e dois à bobina geradora do campo magnético.
A partir de determinada altura estes dois condensadores passaram a ser incorporados numa única carcaça formando um condensador duplo.
Um forte ronco no altifalante é motivado pela perda de capacidade do primeiro condensador uma vez que é este que alimenta a placa da válvula de saída de áudio.
Quando existe ronco, mas mais fraco, é o segundo condensador que perdeu capacidade.
No entanto isto é relativo de forma que, para detectar qual dos dois está defeituoso, o melhor é “pendurar” um outro no circuito provisoriamente.
A substituição deste condensador, ou apenas a secção do duplo, deve obedecer à tensão de isolamento indicada no original. Tanto a tensão como a capacidade podem ser superiores, mas a tensão nunca poderá ser inferior ao indicado.
Se o condensador está montado por cima do chassis (geralmente enroscado ou preso com uma braçadeira) e não tem nenhum semelhante para substituição, coloque-o por baixo do chassis deixando o original no lugar.
Nem sempre o corpo metálico (negativo) está directamente ligado ao chassis. Nos receptores dos anos 30 era muito comum fazer essa ligação através de uma resistência de queda. O objectivo era aproveitar a pequena tensão residual existente no negativo do condensador para polarizar a grelha de controlo da válvula de saída de áudio.
Se o condensador é enroscado no chassis, antes de o substituir verifique a continuidade eléctrica entre este e a massa uma vez que pode haver oxidação do ponto de contacto, provocando perda de continuidade.
Nota importante: Ao manusear o chassis de um rádio com este ligado existe perigo de choque eléctrico cujas consequências podem ser graves. Nele podem ser encontradas tensões superiores a 300Volts!
Em muitos casos o chassis não está isolado da rede sendo um pólo do sector ligado nele. A utilização de um transformador isolador é fortemente recomendada.Nunca ligue o receptor a uma tomada de terra nem mesmo que este tenha um terminal disponível para isso. Em regra o condensador que faz o "bypass" para o chassis está com fuga provocando um curto-circuito.
Nunca trabalhe em bancada metálica e tenha a instalação eléctrica desta protegida com disjuntor diferencial de alta sensibilidade.
É importante que resista ao primeiro impulso de ligar o aparelho que tem em mãos. Lembre-se que podem já ter passado muitos anos desde a última vez que ele foi ligado bem como desconhece o que aconteceu ao chassis durante todo esse tempo.
Assim torna-se fundamental proceder a uma ligeira inspecção do mesmo para avaliar visualmente o seu estado.

Uma avaliação preliminar do rádio: estado geral da caixa, estado do pano que reveste o altifalante, botões, escala, etc, ajudará a perceber a dificuldade de todo o trabalho de recuperação. A ausência de botões ou o dial partido significam trabalho extra e, por vezes, nada fácil de resolver.
Verifique a presença de etiquetas ou selos na caixa e, mais comum, na tampa do aparelho. Essas etiquetas podem ser muito úteis para identificar o modelo ou a data de fabrico. Dentro da caixa e no chassis também pode encontrar etiquetas com as referências das válvulas, valor da frequência intermédia, fabricante original, etc.
Durante o trabalho de reparação e restauro deve preservar essas etiquetas uma vez que contêm quase sempre dados interessantes para a avaliação do aparelho.

Retire a tampa e inspeccione o chassis. Esta observação é crucial para a avaliação do aparelho; este pode estar bem conservado e ter um bom aspecto geral, mas se lhe faltarem peças como válvulas, transformadores, altifalante, etc, a sua recuperação ficará muito mais difícil.
Um dos segredos para uma recuperação eficaz é não ter pressa em terminar o trabalho. Pode ser necessário arranjar uma válvula que falta, pode até ter que descobrir primeiro que válvula é, pode ter de procurar um altifalante ou recuperar uma FI, isto levará tempo e trabalho de pesquisa, mas no fim certamente que terá valido a pena.
Ao observar o chassis deverá ter em conta a presença de ferrugem, humidade, ausência de válvulas ou quaisquer outros componentes, estado físico dos condensadores, revestimento dos fios, etc. Também deve ter atenção às válvulas que podem estar partidas. Uma coloração esbranquiçada dentro da ampola de vidro, próxima do topo, quer, em regra, dizer que a válvula tem o vidro estalado e deixou de haver vácuo lá dentro. Note que muitas válvulas têm umas manchas escuras ou espelhadas ao longo do vidro. Isso não significa que estejam danificadas, essas manchas resultam de um gás que é colocado, durante o fabrico, dentro delas para criar alto vácuo.
Se tudo estiver aparentemente bem ligue o aparelho mas não directamente à corrente. Use a "lâmpada série" porque a avaliação visual não permite verificar as características eléctricas dos vários componentes e é impossível descobrir visualmente um condensador em curto-circuito ou um transformador avariado.
Avalie o brilho da lâmpada conforme já foi explicado no tópico "Lâmpada série" e apure os seus sentidos! Verifique se há fumo ou cheiro a queimado. Se o brilho da lâmpada aumentar demais ou for muito intenso na altura de ligar o aparelho é sinal de que há alguma sobrecarga.
Tente sintonizar alguma estação. Um ligeiro ronco no altifalante bem como ruído ao mudar o selector de banda ou o controlo de volume podem ser bons sinais.
Não se esqueça que geralmente estes receptores necessitam de antena para funcionar. Coloque um fio ou a ponta de prova do multímetro na respectiva entrada.
Agora a sorte ditará uma de três situações: o aparelho funciona perfeitamente, não funciona de todo ou funciona mal. Escolha o tópico e vá em frente!
Repare que a avaliação do funcionamento deve levar em atenção a idade e a qualidade do rádio e talvez seja preferível ter um pouco mais de distorção ou ruído de alterna a efectuar uma reparação com a substituição de algum componente por outro mais recente ou diferente.
Deixe o aparelho a funcionar por alguns minutos e depois ligue-o directamente à corrente.
Verificará uma melhoria do desempenho mas apure o ouvido. Há a possibilidade de algum condensador começar a "ferver", isto era muito comum nos rádios PHILIPS em que eram usados condensadores revestidos de alcatrão que, tendo alguma fuga, aqueciam provocando o derretimento do seu revestimento. Estes condensadores eram colocados no desacoplamento dos filamentos ou na entrada da rede. Se algum deles entrar em curto-circuito fundirá uma válvula.
Se tudo continuar bem seguir-se-á a limpeza do chassis, limpeza de contactos e suportes das válvulas bem como o possível restauro da caixa, botões, dial, etc.