
A "RDP", Rádio Difusão Portuguesa, sucessora, com a revolução de Abril, da "Emissora Nacional", conservou, a despeito de tantos cortes drásticos com o passado, aquele que era já considerado o mais original e belo sinal horário do mundo.
A pesar dos anos conturbados da revolução e de todas as alterações de hábitos que a sociedade e os tempos modernos impuseram, o sinal horário mais longo do mundo manteve-se até Setembro de 2003.
Depois foi o fim de algo que, durante mais de três décadas, foi mais do que um símbolo, um logótipo, uma referência do serviço público.
Eram 20 segundos de um suave silêncio interrompido por um breve "bip" a cada 5 segundos. O último, mais curto, fazia adivinhar o fim do silêncio e a continuação da emissão com a leitura das notícias do país e do mundo.
Era um sinal horário que fazia lembrar os velhos tempos da rádio, do pioneirismo e curiosidade, onde os silêncios não importavam e ninguém estranhava uma pausa.
Os tempos modernos e a rádio que se faz actualmente são incompatíveis com 20 segundos de silêncio. 20 segundos é muito tempo e há tanto para dizer; talvez publicidade ou o estado do tempo.
A "RDP" aderiu aos tempos modernos, converteu o seu sinal horário numa acelerada sucessão de "bips" transmitidos num quarto do tempo do sinal anterior.
Não se sabe se ganhou alguma coisa com isso, mas certamente que perdeu parte do seu património, sim, porque o sinal horário da "RDP" era um património único e o mais belo do mundo.
No dia 16 de Setembro de 2003 Adelino Gomes, um dos homens a quem a rádio deve muito, escrevia assim no jornal "O Público":
"Vai o ouvinte embalado pela voz e pelos sons de António Cartaxo para as 10 da manhã e nem quer acreditar nas horas que um "mixing" surpreendente e agressivo lhe anuncia. Mudança automática de frequência, pensa, aborrecido. O anúncio de estação logo a seguir mostra-lhe que não há engano. Aquilo é mesmo a Antena 1. O que acabou foi o sinal horário.
Assim de repente, sem aviso prévio, deitou-se borda fora um património sonoro que acompanhou três gerações de ouvintes de rádio. Mais do que o logótipo, mais até do que a sigla - ambos com menos de trinta anos e infelizmente de uma triste banalidade - , muito mais do que os indicativos com que cada novo director parece querer ganhar o seu lugar na eternidade radiofónica, o sinal que até ontem nos anunciava a hora certa na RDP (antes, na Emissora Nacional) era a imagem de marca, o referencial estético sonoro do serviço público de Radiodifusão.
Tão diferente era de todos os outros quanto esta síntese amalgamada de nervosos "pis" se confunde agora com a de todas as outras estações do espectro radiofónico. Sim, aquele era - sustentei neste mesmo jornal há nove anos quando outros decisores o calaram, felizmente por pouco tempo - o mais belo sinal horário do mundo. Ouvi-lo, assim solene e límpido, era regressar à magia dos dias do sanfilismo. Os burocratas que o suprimiram não devem nunca ter amado a Rádio, (...)
Argumentarão os responsáveis com a excessiva duração do "velho" sinal horário. Por isso lhe cortaram 15 dos 20 segundos que demorava no "ar". Como se deles necessitassem para algum anúncio a algum sabonete. Mostrando que não entenderam que aqueles momentos sem palavra antes da hora eram, num tempo de frenesim e caos informativo, a pausa de reflexão, o sereno respirar fundo que nos prepara para a entrada numa outra hora do resto das nossas vidas.."
Abaixo poderá voltar a ouvir ou ouvir pela primeira vez esses fantásticos 20 segundos de um sinal que, para além de horário, foi também prenúncio de novos tempos, incompatíveis com o silêncio.
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Sinal horário da RDP, 20 segundos de silêncio |
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Montagem simulando o sinal horário numa emissão da RDP |
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Outra montagem simulando uma emissão mais recente |