As mulheres do rádio


AS MULHERES DO RÁDIO


Foto de uma antiga raínha do rádio


Eram vozes femininas, despertaram arrebatadas paixões, deram corpo e voz aos cantores do rádio.

Encheram casas e corações, agudas, doces, roucas, sensuais ou impetuosas, fizeram sonhar com a fama, o amor, o dinheiro ou a felicidade.

Foram moda, modelaram usos e comportamentos, foram desinibidas ou tímidas, semearam paixões, colheram infelicidade, ódio e inveja.

Muitas foram felizes, outras terminaram a vida amargamente e em solidão. Mas a todas elas, para com todas elas o rádio tem uma dívida de gratidão. O rádio não as esquece.

Abaixo enumeram-se várias biografias, pequenas amostras dos percursos de vida de algumas destas mulheres, verdadeiras pérolas do rádio.



Texto: Tereza Cristina Tesser
"DE PASSAGEM PELOS ESTÚDIOS - Presença Feminina no Início do Rádio - Rio de Janeiro e São Paulo - 1923/43"
Dissertação apresentada no Departamento de Comunicação e Artes da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, sob a orientação do Professor Doutor Celso José Loge, defendida em 05 de maio de 1994

Alzirinha Camargo

Oferecendo a São Paulo belos números musicais, Alzirinha Camargo chegou a esta cidade por volta de 1934.

Estudava na Escola Normal de Itapetininga e era solista de Orpheon. Alguns familiares aconselharam a menina a cantar no Rádio. Ingressou na Educadora, passou para a Record, Cruzeiro do Sul e depois foi inaugurar a Difusora de São Paulo, apresentou-se também em Santos.

A primeira música que cantou foi “Moreninha Brasileira”, de Joubert de Carvalho.
Depois sentiu necessidade de ir para o Rio de Janeiro e, em 1935, estava a actuar no microfone da Rádio Tupi, onde lançou a marcha “Querido Adão”, de Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago. Actuou também na Ipanema, Nacional e Mayrink Veiga.

Aracy de Almeida

Na década de trinta, um nome já recebia o reconhecimento nacional: Aracy Telles de Almeida.

Nasceu em 19 de julho de 1914, no subúrbio carioca de Encantado, e cantava em igrejas Baptistas. Com 15 anos conheceu o compositor Custódio de Mesquita, que após ouvir a sua interpretação levou-a para a Rádio Educadora. Em depoimento à Revista do Rádio, Janeiro de 1940, Aracy de Almeida explicava como foi o início da sua carreira:

“Estreei na Educadora. Nunca tinha estado antes numa estação. Os meus pais não queriam que eu cantasse para o público. Os vizinhos não olhavam com bons olhos artistas do Rádio, porém, hoje (1949) eles são os meus mais intransigentes fans.”

Aracy de Almeida tornou-se uma estrela nacional. Em 1935, gravou pela primeira vez um samba de Noel Rosa intitulado “Sorriso de Criança”. E, depois disso, tornou-se a maior intérprete do compositor.

Em 1936, a Revista Carioca já noticiava o grande sucesso de Aracy de Almeida. “O samba cantado pelo timbre de sua voz é diferente: malandro sem ser brejeiro; vivo porém sem rebuscamento de breques fora de compasso, é positivamente criado pelo temperamento original... Ela é o samba na sua expressão mais tropical. Um samba que sabe onde nasceu, não nega sua origem e tem orgulho de ser simplesmente samba.”

Uma outra definição interessante sobre Aracy foi dada por Hermínio Bellode Carvalho. “Dama Aracy de Almeida– Arquiduquesa do Encantado. Meu amor por Araca veio junto de outras coisas fundamentais: Chagall, Drummond e Picasso... Ela elevou o palavrão à categoria de uma cantada de Bach.”

Elizinha Coelho

O Rádio começou a ficar fortalecido e conhecido no final de 1926 e decorrer de 1927.

Entre as cantoras que começaram a disputar a preferência dos ouvintes estava Elisinha Coelho.

O seu filho, o jornalista Goulart de Andrade, fala da carreira da sua mãe. “O Rádio na época em que ela começou tinha características elitistas. Alguns artistas eram recrutados da sociedade.”

Nasceu em Uruguaiana, Rio Grande do Sul. Filha do médico Marcelino Coelho e Acelina Piernard de Carvalho. Toda a família morava no Sul e foi para o Rio de Janeiro pela carreira de Elisinha.

A cantora recebeu do compositor Heckel Tavares o título de “o pássaro cantor".
Casou-se pela primeira vez com Flávio Goulart de Andrade, filho do senador Eusébio Goulart de Andrade. Gravou aproximadamente 30 discos e entre os seus maiores sucessos estão “Caco Velho” e “Rancho Fundo”, ambos de Ari Barroso.

Goulart de Andrade continua a explicar: “Até os anos 30 era chique trabalhar no Rádio e não havia preconceito contra os artistas; este veio, com a popularidade do veículo. A minha mãe era comadre de Carmem Miranda, de quem sou afilhado. Elisinha casou-se pela segunda vez com José Inácio da Costa Couto, que era “croupier” de um casino. Conheceram-se numa “tournée” e ela abandonou a carreira. Hoje, minha mãe mora em Volta Redonda e vive de uma pensão de meu avô. Essa é a estória de uma cantora que foi rica, importante e talentosa.”.

Heleninha Costa

Nasceu no Rio de Janeiro no final da década de 20 e bem pequena veio morar na cidade de Santos. A década de quarenta prometia muitos lançamentos e cantoras que iriam destacar-se muito. Uma delas era Heleninha Costa, que começou ainda menina, com 10 anos, na Rádio Clube de Santos e aos 12 na rádio Atlântica.

Depois de encantar nessa cidade, foi para São Paulo e apresentou-se na Record,Tupi,Difusora e Cosmos. No Rio de Janeiro actuou na Mayrink e Clube.Em 1940, foicontratada pela "Nacional", cantandosambase canções.Formoutambém com Braulio de Carvalho eMoacyr Peixoto o Trio Irapirús.

A Revista Careta, em 1952, na secção Coluna Gente do Rádio, dedicou a Heleninha Costa os seguintes versos:

“Tem um palminho de cara
E na testa uma franjinha
À Joanne D’arc, coisa rara
E uma voz engraçadinha
Apareceu com agrado
Que continua patente
Cantando o samba afamado
Do faquir e da serpente
E aspirando as alegrias
De um lar doce como mel
Casou-se em dezembro, há dias
com outro artista, o Ismael.”

Ida de Alencar

Soprano, possuidora de uma voz aprimorada. Ocupou um dos postos mais destacados no cenário musical do Brasil.

Tanto se fez admirar no palco do Teatro Municipal como nas emissoras de rádio. Na década de 30 actuou em diversas rádios do eixo Rio de Janeiro e São Paulo, entre elas a Rádio Club de Santos.

Roxane

“São Paulo terra roxa, de Mário de Andrade, tem produzido muita coisa, além do café. E aí está Roxane.” Desta forma a Revista O Malho definia a actuação da cantora.
“Interpreta nos idiomas originais, os blues americanos e as canções francesas.”

Nasceu em Santos, o seu nome real era Lucy da Silva Prado. cantou, entre outras, nas emissoras Educadora Paulista, Cruzeiro do Sul, Tupi de São Paulo. E, no Rio de Janeiro, na Mayrink Veiga e Nacional.

Zilah Fonseca

A cantora Zilah Fonseca, que tinha como nome real Yolanda Ribeiro da Silva Angarano, nasceu em São Paulo e iniciou a sua carreira num grupo de teatro amador do Clube Guaiaúna.

Mas o seu desejo nãoera o teatro e sim a música. Quando Ari Barroso,
Na Rádio Cosmos, instituiu um concurso para a Rainha do Carnaval, vislumbrou a possibilidade de uma carreira. Entrou no concurso e foi eleita a rainha do bairro do Jardim Paulista (onde morava).

Entusiasmado com Zilah, Ari convidou-a para ingressar no Rádio, porém os seus pais nãopermitiram.E somente dois anos depois, em 1940, ingressou no Rádio como profissional, tendo o seu primeiro contrato na Difusora, atuando por um ano nessa estação.

Em seguida o maestro Souza Lima levou-a para a Tupi de São Paulo, onde ficou quase um ano. Depois, foi em passeio ao Rio de Janeiro, e Teófilo de Barros Filho convidou-a para cantar na Tupi desta cidade.

Já em 1942 foi para a Mayrink Veiga e aí casou-se com o locutor Oswaldo Luiz Angarano. Era intérprete de sambas.