Advento da radiodifusão brasileira

Separadores primários


ADVENTO DA RADIODIFUSÃO BRASILEIRA


Categorização das fases de actuação

Bandeira do Brasil


 

I FASE DA RADIODIFUSÃO: 1925 A 1934

Por volta de 1925, a Rádio Sociedade já emitia três jornais falados, além do "Jornal da Manhã", efectivado por Roquette Pinto, que comentava as notícias dando um cunho de jornalismo interpretativo, pois reportava-se ao evento comentando historicamente, fazia um apanhado geral da situação da época e preconizava sobre as tendências dos acontecimentos; o "Jornal do Meio-Dia", o "Jornal da Tarde" e o "Jornal da Noite" já eram acompanhados de suplementos musicais e abrangiam páginas literárias, agronomia, desportos, seção feminina, doméstica e infantil.

A estrutura formal que antes estava mais ligada à entidade associativa começou nessa época também a formalizar-se em termos de radiodifusão. Assim em 1925 - 1926 participavam: 
- Dr. Dulcídio Pereira (comissão de broadcasting)

- Dr. Mário Saraiva (direcção de organização de programas);
- Maestro Luciano Gallet (director artístico).
Em 1925, objectivaram iniciar com a parte instrucional da programação com aulas de francês, português, geografia, história do Brasil, higiene, silvicultura, química, história natural e física.
Nessa época, os programas infantis tiveram, acrescentados à programação já existente, programas teatrais de um quarto de hora de duração. Esses programas eram descontínuos e apresentados quando os convidados faziam as suas colaborações.

Em 1926, a Rádio publicou o "balanço" das actividades radiodifusoras e da sociedade em geral, acusando o montante de dez mil documentos arquivados: "Alguns do maior valor para a história do rádio no Brasil.

A sua consulta é facilmente acessível a qualquer dos nossos prezados consorcios... e 800 volumes em livro... todos catalogados em fichas próprias". (Conforme Rádio, Secção Official, 1926, p. 63) Pena que esse exemplo de organização não tenha sido seguido nas décadas posteriores pois o desencontro com a memória do rádio esteve sempre presente até hoje. Além da compra de elementos importados para construção de aparelhos, havia outras despesas a considerar, tal é o caso das exigências (o que redundava em restrição para a prática até mesmo da recepção) para ser radiouvinte:
"São estes os termos dos diversos requerimentos que devem ser feitos por todo amador que queira instalar em sua casa um aparelho receptor radio-telephonico:

Exmo. Sr. Ministro da Viação:

________________________(nome, nacionalidade, profissão, residência), desejando instalar em sua casa um aparelho receptor de radio-telephonia, vem por meio deste pedir a V. Excia. a necessária licença.
Junta documentos que provam sua idoneidade e
P. Deferimento
Rio de Janeiro, ____ de _________________________ de ________
_______________________________________________________
Assinatura

(Estampilha de 1$000)

Documento de idoneidade: A Rádio Sociedade fornece aos seus sócios o attestado de idoneidade exigido".

"Sr. Director dos Telegraphos:

O abaixo-assinado pede a V. Excia. fazer chegar às mãos do Sr. Ministro, devidamente informado, o requerimento incluso em que sollicita licença para estabelecer um aparelho receptor de radio-telephonia em sua residência.
Junta esquema de installação.
P. Deferimento
(Data, assinatura e estampilha de 1$000)"

"O abaixo-assinado compromette-se a guardar absoluto sigilo de toda correspondência radio-telephonica porventura interceptada pelo seu posto de recepção radio-telephonica a ser instalado em sua residencia à Rua ______________ nº. ______.

(Assinatura sobre estampilha de $600)"

Esquema de installação radio-telephonica a ser installada na residência de (nome do requerente) à Rua _____________________ nº. _________.

Em São Paulo, datam também de 1923 os esforços pioneiros para instalação de uma Sociedade de Rádio. Foi constituída a 30 de novembro de 1923 a "Sociedade Rádio Educadora Paulista", cujos ideais estavam também ligados à educação. Os nomes que envolveram essa iniciativa também se referem a membros da elite da nossa sociedade, estudantes de engenharia, etc., que além da ideação efectivaram contribuições e angariaram fundos em instituições paulistas para a sua consecução, como foi o caso da Câmara Municipal de São Paulo que doou 50 contos de réis.

A íntegra da Ata é esta:
"Aos vinte e tres de Março do anno de Christo de mil novecentos e vinte e seis, presentes as altas autoridades do Estado, os membros da directoria, e do conselho consultivo da Sociedade Radio Educadora Paulista, os socios e os convidados que assignam, realisou-se às 16 horas, com toda a solemnidade, o lançamento da pedra fundamental da estação de radiotelephonia que esta Sociedade levantará neste local, à rua Carlos Sampaio nesta Capital de São Paulo, que deu a necessaria permissão.
Foi orador o Dr. Frederico Vergueiro Steidel, que saudou os presentes, fez o historico da Sociedade e expoz os fins para os quaes foi creada.
Fundada aos trinta de Novembro de mil novecentos e vinte e tres, vem mantendo as irradiações de sua estação provisoria desde o dia primeiro de Janeiro de mil novecentos e vinte e quatro, a princípio instalada na casa à rua Frei Caneca numero vinte e dois e vinte letra "A", residencias do Dr. Leonardo Y. Jones Junior e Luiz Amaral Cesar e posteriormente no Palacio das Industrias no Parque D. Pedro II.
Para a acquisição dos apparelhos e construcção do predio e das torres, cujo inicio hoje foi testemunhado por este acto, concorreram os auxilios dados pelas Camaras Municipais de São Paulo, Campinas e outras assim, como o producto de uma subscripção popular.
Depois de assignada esta acta, por todos os presentes, e por mim, Octavio Ferraz de Sampaio, 1º secretario, que a redigiu será ella encerrada com um exemplar dos estatutos em uma urna que ficará depositada neste edificio.
A directoria actual, sob cuja direcção tem estado a Radio Educadora Paulista, desde a sua fundação, é a seguinte: presidente, Dr. Edgard de Souza; vice-presidente, Dr. Frederico Vergueiro Steidel; 1º secretario, Dr. Octavio Ferraz de Sampaio; 2º secretario, Dr. Luiz Wanderley; thesoureiro, Dr. Luiz Ferraz de Mesquita; conselho consultivo: Dr. Bento Bueno, Dr. Gabriel Ribeiro dos Santos, Dr. José Carlos de Macedo Soares, Dr. Francisco Fonseca Telles, Dr. Georges Corbisier, Dr. Leonardo Y. Jones Junior, Dr. Luiz de Rezende Purech, Luiz do Amaral Cesar". (Cf. Radio, nº.2, ano I, 1923, p. 61)

Essa sociedade começou a sua vida, encomendando os equipamentos da fornecedora Western Electric Company de Nova Iorque e, enquanto estes não chegavam, iniciaram irradiações com os transmissores de 10 w localizados na residência de vários dos seus idealizadores, como Leonardo Jones e Luiz Amaral Cesar. Mais tarde, o Secretário da Agricultura, Dr. Gabriel Ribeiro dos Santos, cedeu o Palácio das Indústrias onde se instalou transmissor de baixa potência que funcionava diariamente fornecendo cotações da Bolsa e emitia concertos directamente do Teatro Municipal ou do Conservatório Dramático e Musical. Auxiliavam todas as entidades artísticas e científicas de São Paulo colaborando nas emissões de conferências e serões de declamação, de concertos sinfônicos, etc., contavam-se entre elas a Sociedade de Ópera Lyrica Nacional e o Quarteto Paulista de Virtuoses.

A contribuição mensal dos associados era de cinco mil réis o que não correspondia, no total das arrecadações, às necessidades reais da Rádio Paulista. Foi da análise dessa situação econômica insatisfatória, que o Dr. Bento Bueno resolveu estabelecer uma subscrição, que ele encabeçou e foi aberta por uma comissão presidida pelo conde Sylvio Penteado, que resultou na soma de 195.500$000. O número de Radio que traz essa notícia evidencia alguns dos doadores e notam-se entre eles: RCA dos Estados Unidos com "cinco contos de réis", conde Matarazzo com "dez contos de réis" e vários outros com "cinco contos de réis".


(Fonte: Radio, nº. 4, ano III, 1926, p. 59)

Embora a subscrição e subsídios das Câmaras Municipais se elevassem a 253 "contos", o preço da nova estação superava essa quantia, pois se elevava a "290 contos" (já pagos) e "39 contos" da estação de 10 w, o que resultou num déficit de "76 contos de réis". Os próprios directores, na ansiedade de verem os seus ideais realizados, desembolsavam quantias consideráveis para a conclusão dos empreendimentos.

A 23 de março de 1926, instaladas já as torres e com o prédio em fase adiantada, foi finalmente levantada a pedra fundamental do edifício da Rádio Educadora na Rua Carlos Sampaio n. 5 no Paraiso, a qual tinha partes das instalações e da torre completadas, esta com 50 metros para antena que teve equipamento fornecido pela Millikan Steel Co.

O bairro elegante, junto à Avenida Paulista, já tinha apontado dois mastros para a poderosa estação, como se depreende do discurso de inauguração feito pelo Dr. Vergueiro Steidel. Ela era de alta potência para levar a palavra, "a música, o ensinamento e a informação, a lição de civismo e de história pátria aos mais recôndito sertão, allcançando até os extremos limites do nosso território".

O prefixo SQ1G da estação mais potente da América do Sul, na classificação mundial, dava as seguintes características à Sociedade Rádio Educadora:

- prefixo: SQ1G;
- fabricação: International Western Electric Company de Nova Iorque;
- potência: 1.000 w na antena (podendo ser elevada a 3.000 w);
- antena: 70 metros de extensão sobre torres de aço galvanizado de 55 m de altura.

Ouviam-se, já por essa ocasião, emissões procedentes dos Estados Unidos, Argentina, Chile, Inglaterra e Austrália.

Em julho de 1926, quando concluídas as primeiras obras, foram feitas as experiências com o novo transmissor de 1.000 w. Esse serviço era dirigido pelo então diretor técnico Leonardo Jones assistido pelo engenheiro da Western Electric, Sr. Antony Anderson.

Nessa época era director artístico da Educadora o Maestro José Manfredini e a programação nocturna estava dividida em três seções distintas com géneros dos mais diversos. Nota-se na programação o intervalo entre a programação diurna que se iniciava às 11 horas da manhã e a noturna que se iniciava às 21 horas.

Em 1925, a pesar de transcorridos dois anos da implantação da radiodifusão no Brasil, a situação era ainda amadorística e suas investidas incipientes. Todas as notícias referentes ao rádio, nesse ano, tinham essa tônica, embora anunciassem os novos desenvolvimentos.

Em 3 de março de 1926 "O Estado" publicou, referindo-se à Educadora: "Devido às más condições atmosphericas, deixou de haver irradiação hontem à tarde"; isso acontecia com muita freqüência na época.

Em 1927, ainda as condições eram precárias e um rádio receptor tinha que ter condições de selectividade e sensibilidade bem apuradas para captar os sons transmitidos, mesmo que por uma estação potente como a Rádio Educadora Paulista.


Fonte: História da Comunicação Rádio e TV no Brasil, de autoria de Maria Elvira Bonavita Federico, Editora Vozes - 1982

Colaboração de Ivan Dorneles Rodrigues - PY3IDR
e-mail: ivanr@cpovo.net


Faça um donativo!

Faça um donativo!

Agora é mais fácil com Paypal!

Com o paypal.me pode contribuir para o site em qualquer moeda e em qualquer valor com a segurança desta plataforma.

Clique aqui para ajudar com o que quiser, com o que poder.