Entrevista com Beatriz Roquette-Pinto - Pg2

Separadores primários


ENTREVISTA COM BEATRIZ ROQUETTE-PINTO BOJUNGA



Entrevista para o programa especial sobre Roquette-Pinto, gravada em maio de 1990.

Transcrição: Gisele Pimentel

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– Por que que o Rádio começou muito alto?
B. – Começou na Academia de Ciência! Não pode ser, não pode ser lugar melhor para um país começar! Eu acho que foi o único país no mundo em que esse Rádio começou tão alto, na Academia de Ciência! Alto, que eu digo, na parte cultural. Bem entendido, não é? Porque, a parte financeira foi sempre muito alijada, pode-se dizer pelo Roquette. E eu, até, estava lhe contando isso. É que, quando acabavam as irradiações, que aliás, eu não sei, é uma pena que não tenham continuado, a Rádio Ministério da Educação e Cultura, os directores mudavam, eu sempre dizia "Por que não acabam...", ele sempre acabava assim: "Acabaram de ouvir a PRA2, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que acabou de irradiar, pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil."
Tocava o Hino Nacional e acabava. Vamos dizer que tirem o Hino Nacional; mas a frase, ele não botou para os brasileiros, não, olha como isso é extenso: "Pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil". E ele, antes disso, ele dizia: "Cooperam para o fundo da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro Irineu Santos e Cia., Rua Chile, 23, fulano de tal, Rua da Carioca..." Aí entrava um anúncio daqueles que mandavam válvula para ele de presente, coisas que ele não pagava, não é? Então, a Rádio começou por isso. Era um ideal. Começou e acabou como um ideal, quer dizer, acabou não, porque ela não acabou. A Rádio Ministério da Educação continua tendo o mesmo espírito da Rádio Sociedade. Tem que continuar! Se não continua, ela tem que continuar! Agora, essa Rádio, eu queria muito... Eu posso falar agora sobre a doação?
– Pode! Só que a gente podia falar um pouquinho mais dessa Rádio Sociedade, em relação...
B. – Pois não.
– A senhora lembra da programação da Rádio?
B. – Lembro. Eu fui Directora muitos anos, da Rádio.
– O que era? Como é que era?
B. – Primeiro, se ganhava cachê, não é? Eram uns envelopinhos que o Mesquita, o Seu Mesquita, todo mundo tinha medo do Mesquita, menos eu, porque ele me tratava com muito carinho, mas era o cachê que se dava, a gente contratava. Por exemplo, tinha um programa da Elisinha Coelho, cantando "No Rancho Fundo", aquela que canta agora, numa novela, tinha o Francisco Alves. Todos esses grandes cantores, até pouco tempo. Agora, não. Até pouco tempo, vocês tinham lá na Rádio Ministério da Educação, não sei se ainda têm, uma galeria de retratos (eu não sei onde estão esses retratos). Quando pintaram, tiraram os retratos. Em nome de todos os cantores, porque é preciso que se diga que, por exemplo, a primeira novela que houve de Rádio foi lá, na Rádio Sociedade. Chamava-se "A lenda do lago". O Sérgio Vasconcelos vai se lembrar. Era dirigida pelo Gran Muri. Foi lá que começou. As óperas com o Sérgio, foi o papai que começou. Você sabe como era feito o jornal, o Sérgio Vasconcelos não contou, não? Que ele fazia da casa dele? Riscava e fazia. Ah, todos os grandes cantores que vinham, passavam na Rádio Sociedade, todos. Orlando Silva, Elisinha Coelho, a Marília Batista, a Aracy de Almeida, todos cantaram na Rádio, mas ninguém mais fala, falam só em Rádio Nacional. Você sabe que isso me dói? Porque a Rádio, para mim, a PRA2 é gente. Eu não ouço falar da Rádio. Mas a Rádio, pra mim, eu dizia a meu marido, é como se, se cortasse assim, cortaria um pedaço dela. Eu tenho que entrar na doação, sem querer eu vou entrar (risos).
– Então a senhora, por favor, explique o que levou a Rádio a ser doada.
B. – Foi o seguinte: a Rádio Sociedade, quando foi entregue ao Governo, de volta, foi dada ao Governo, ela estava com suas contas em dia, tudo pago, não devia a ninguém, estava funcionando maravilhosamente bem. Mas, o Dr. Roquette-Pinto não deixava, por exemplo, fazer anúncio da Casa Mathias, anúncio de bebida, então ela tinha tantos kilowatts, ela teria naquele momento... As outras todas estavam entrando, aumentando; ninguém mais ouvia a Rádio, porque a Rádio ia ficar com um prefixo, como ele dizia: "PRA2 é o prefixo maior da América do Sul, é o primeiro e maior". Tanto é, que está aqui dito pelo João Calmon, a quantidade de Rádios que deu – eu quero depois dizer, porque isso é muito interessante – o prefixo da Rádio, PRA2. Só um minutinho, posso falar uma coisa?
– Fique à vontade!
B. – Só aqui um pouquinho, quer ver? O prefixo da PRA2, quando foi doado ao Governo, esse prefixo deu, exactamente: a Rádio Sociedade, quer dizer, está no ar até hoje, transformou-se, em 1936, na Rádio Ministério da Educação e Cultura. A primeira emissora educativa do país, núcleo de onde se originaram 19 emissoras de rádio, e as 20 emissoras de televisão, hoje vinculadas à programação educativa do MEC. Somadas às emissoras em implantação pode-se dizer que Roquette-Pinto criou a matriz de nada menos que 46 emissoras dedicadas à formação do cidadão brasileiro, eu acho isso muito importante. Agora, ela foi, eu digo doada, porque os canais que muita gente diz: "Ah, mas os canais são do Governo, ele não tinha que doar uma coisa que não era dele, foi cedido..." Vai perguntar ao Roberto Marinho ou ao Bloch se eles vão reverter os canais. Então, naquele momento, foi doado o seguinte: ele viu que não poderia, que ele teria que aumentar a Rádio para poder competir com as outras. E, para aumentar, ele não tinha o dinheiro necessário. Não quis fazer anúncio; se ele quisesse fazer anúncio, faria como outra qualquer, aí estaria como outras, como a Tupi, como a Nacional, como outras, e ele não queria.
Eu me lembro como se fosse hoje, ele me chamou, a mim e meu irmão, nós ficamos de cada lado assim e ele sentado, eu de um lado, meu irmão do outro. Ele disse "Olha, eu chamei vocês dois porque eu sou um homem pobre. Eu só tenho de fortuna hoje, realmente fortuna, este prefixo desta Rádio. Esta Rádio, que é uma fortuna. Que só o canal (que o senhor sabe como é o canal, não é, só o canal da Rádio é uma coisa imensa, está dando a emissora até agora), mas o meu ideal é que esta Rádio nunca se transformasse. Ela foi fundada para educação do povo dela, e eu queria que ela continuasse para educação do nosso povo, da nossa gente." Eu não deixei meu irmão levantar. Eu me levantei e disse "Papai, é seu ideal?" Ele disse "É, minha filha."
Eu digo "Então faça. É tão raro um homem conseguir realizar seu ideal na vida! Um ideal tão bonito. Papai, faça!"
Dei um beijo nele, um só não, mais. Mas foi frio, sem emoção, sem nada. No dia 7 de setembro de 1936, não, antes disso, ele mandou uma carta, essa carta que nos salvou (risos), eu digo sempre, que ele mandou uma carta ao Capanema, perguntando se o Ministério da Educação se interessava pelos canais. E a doação toda tinha móveis, tinha tudo! A Rádio estava montada! Inclusive, seis funcionários desde a fundação. Se o Ministério da Educação se interessava pela Rádio. O Dr. Capanema mandou uma carta dizendo que "O Presidente Getúlio Vargas mandava agradecer muito e que aceitava, em nome do Governo, a Rádio". Papai mandou outra carta, a nossa salvadora: "Vossa Excelência não me entendeu (isso é bem de Roquette). Vossa Excelência não me entendeu. Eu não estou doando esta Rádio ao Governo do Brasil. Estou doando à educação do meu povo, da minha gente."
Então ela ficou vinculada à Educação. Esta Rádio é vinculada à Educação! Bom, o Capanema aceitou, no dia 7 de setembro de 1936, o Capanema foi... Quem pôs os selos nos móveis fui eu com o Drummond e o Garrenaud (mas outro Drummond), eles eram Oficiais de Gabinete do Capanema. Eu me lembro, eu e o Drummond botando selos, lá, por isso ele sabia da história toda da Rádio. E botando os selos nos móveis, nas máquinas, e nesse dia o meu pai fez um discurso e acabou assim: "Entrego esta Rádio, com a mesma emoção com que se casa uma filha." E veio chorar comigo num corredorzinho que tinha na Rua da Carioca. Bom, vê se eu posso ficar calada! Vê se eu posso ficar calada numa hora dessas! Assisto a isso tudo, está certo, muito bem, papai morre em 54. Não sei qual foi o ano em que eu fiz o Mandato de Segurança, não me lembro, dois anos depois que ele morreu, ou três anos. Eu fiquei sabendo que há uma Lei, talvez por engano, a pessoa que fez até era amiga nossa, um deputado e tal, que não vale à pena dizer o nome, eu acho que eu esqueci, até. E a Rádio passaria para o Senado e a Câmara. Eu fiquei louca! Mas eu fiquei num estado tal, que o meu filho Cláudio, ele era menino, eu disse: "Vai já à casa do... Vou já tocar para o seu tio (o meu irmão, Paulo Roquette-Pinto) e eu vou dizer a ele que ele tem que fazer qualquer coisa, que isso não pod eficar assim".
Telefonei para ele e, e o meu filho ia lá.
– Mas o que ocorreu?
B. – Ocorreu que a Rádio... Veio uma Lei em que a Rádio passou para o Senado e a Câmara! No Diário, Diário Oficial com uma penada! Eu tive a impressão que o papai tinha morrido de novo! Aí eu digo: "Não é possível!". Falei com meu irmão, meu irmão: "Ah, não se pode fazer nada...", eu digo: "Tem que fazer!" Eu peguei a minha cunhada, que era Lia Roquette-Pinto, uma mulher muito inteligente. Agora eu quero fazer uma homenagem a ela: ela trabalhou até na Rádio, também, era uma mulher fora do comum. Ela era Xavier da Silveira, casada com meu irmão, Roquette-Pinto. Uma grande mulher! Ela disse "Vou com você, Tizinha". Fomos nós duas para o Ministério. Eu fazia assim, dedo em riste, no Salgado Filho: "Isto não fica assim! Esta Rádio não lhe pertence! Não pertence ao Governo! Esta Rádio pertence ao povo, à nossa gente!". Ele disse: "Pois não, minha senhora, pois não! Eu vou chamar o Consultor Jurídico."
E eu... Aí eu chorava, não é? Aí eu, eu dizia: "Fala, Lia", porque ela era mais calma, e dizia: "Não pode (ela com o Estatuto da Rádio na mão), não pode, seu Ministro, porque isto aqui, está aqui dito, aqui, quando foi fundada a Rádio, foi fundada assim, para a Educação, assim, assim... Foi doada neste sentido, com esta carta." Aí eu fiz um barulho, quando cheguei em casa Dinah Silveira de Queiroz, que já morreu, Rachel de Queiroz, o Drummond, um grupo grande (de brasileiros) me telefonava: "A família não vai fazer nada?" E eu digo: "Já fez! Já fez!". O Dr. João de Oliveira Filho, que era um grande advogado, de graça, sem cobrar um tostão, mas meu irmão ainda teve que pagar as custas, para a Cintev. Para que o Ministério da Educação ficasse com uma fortuna que nós estávamos, enfim, papai doou, foi preciso que meu irmão gastasse um dinheiro.
Eu agora nem poderia, porque ele tinha um cartório, e eu não tenho. Fazer um Mandato de Segurança, ganhamos a Primeira Instância, o Mandato de Segurança, e a Rádio continuou na Educação. Aí começaram a correr os trâmites legais. Aí eu ia, eu fui para a TV Rio, e o Gilson Amado, que era muito nosso amigo, como é, como é o nome dele? O Artur da Távola foi conosco várias vezes na Rádio, nós falávamos na televisão. E falávamos que a Rádio era do povo, que a Rádio é do povo. E tanto batemos, e tal, não se falou mais nisso. E a Rádio ficou que se chama " Sub Júdice", quer dizer, ela está "injulgada". Ela não foi julgada, ainda. Ela não pode sair da Educação, por enquanto não pode. A menos que me mostrem onde foi julgada, quais foram os Ministros que julgaram, porque inclusive os Ministros todos, eu ia falar – o meu marido caçoava porque eu, em todo lugar que eu fosse, eu ia na sociedade, num "cocktail", eu ia numa festa, ou eu ia num colégio, ou aonde eu fosse, era "...porque o Rádio...", então ele dizia: "Onde a gente vê uma aglomeração assim, está a minha mulher falando do Rádio. Você vai ficar conhecida como 'a louca do Rádio'!".
– Estávamos falando após a doação, e a senhora estava falando que o seu marido estava lhe dizendo que a senhora ia se tornar "a louca do Rádio", conhecida como "a louca do Rádio".
B. – É isso mesmo (risos). Ah, mas aí, felizmente, o processo todo, Dr. João de Oliveira Filho, que eu queria fazer um reconhecimento (acho que até já morreu), mas prontificou-se – era um senhor, um dos melhores advogados do Rio de Janeiro – eu telefonava: "Dr. João, preciso hoje de um programa", ele ia conosco lá, não é, sem cobrar honorários. Todos! É um grupo de brasileiros. Eu acho que foi uma coisa impressionante! O que eu tenho de cartas, de documentos, de coisas, pedindo para a família – que a família já estava, eu acho que seria quase uma desonra, que a família não fizesse isso, não é? De maneira que a Rádio ficou "Sub Júdice", continuou com as suas programações, e diga-se de passagem, muita gente acha que devia fazer assim, eu não devia fazer, ou popular, ou não popular, e eu digo sempre: os directores mudam, mas a Rádio, ficando na Educação, ela está na Educação! Ela sempre tem alguém, um director, que a ponha no caminho certo. É como filho, não é? As vezes cai um pouquinho para a direita ou para a esquerda, e você empurra um pouquinho e ela volta, não é? Então a Rádio tem é que continuar no Ministério da Educação. Para isso é que ela foi doada.
– A senhora poderia falar outra vez a respeito desse ideal, o que ele sonhava para essa Rádio, o que ele achava que ele podia conseguir para essa Rádio se fosse levado às últimas conseqüências o ideal dele?
B. – Eu vou te explicar como. Uma das coisas que você pode entender muito bem é que ele – vou explicar: parece que não tem relação, mas tem, com a sua pergunta – quando o Anísio Teixeira era Secretário de Educação no Rio de Janeiro, o ideal do Roquette-Pinto era ter uma Rádio-Escola municipal. Portanto, vê que a Rádio Sociedade ele não queria uma escola. Se o ideal dele era formar uma Rádio-Escola, não era a Rádio Sociedade. Então, ele foi ao Anísio Teixeira e disse:
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