Entrevista com Beatriz Roquette-Pinto - Pg3

Separadores primários


ENTREVISTA COM BEATRIZ ROQUETTE-PINTO BOJUNGA



Entrevista para o programa especial sobre Roquette-Pinto, gravada em maio de 1990.

Transcrição: Gisele Pimentel

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– Por que que o Rádio começou muito alto?
B. – Começou na Academia de Ciência! Não pode ser, não pode ser lugar melhor para um país começar! Eu acho que foi o único país no mundo em que esse Rádio começou tão alto, na Academia de Ciência! Alto, que eu digo, na parte cultural. Bem entendido, não é? Porque, a parte financeira foi sempre muito alijada, pode-se dizer pelo Roquette. E eu, até, estava lhe contando isso. É que, quando acabavam as irradiações, que aliás, eu não sei, é uma pena que não tenham continuado, a Rádio Ministério da Educação e Cultura, os directores mudavam, eu sempre dizia "Por que não acabam...", ele sempre acabava assim: "Acabaram de ouvir a PRA2, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que acabou de irradiar, pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil."
Tocava o Hino Nacional e acabava. Vamos dizer que tirem o Hino Nacional; mas a frase, ele não botou para os brasileiros, não, olha como isso é extenso: "Pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil". E ele, antes disso, ele dizia: "Cooperam para o fundo da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro Irineu Santos e Cia., Rua Chile, 23, fulano de tal, Rua da Carioca..." Aí entrava um anúncio daqueles que mandavam válvula para ele de presente, coisas que ele não pagava, não é? Então, a Rádio começou por isso. Era um ideal. Começou e acabou como um ideal, quer dizer, acabou não, porque ela não acabou. A Rádio Ministério da Educação continua tendo o mesmo espírito da Rádio Sociedade. Tem que continuar! Se não continua, ela tem que continuar! Agora, essa Rádio, eu queria muito... Eu posso falar agora sobre a doação?
– Pode! Só que a gente podia falar um pouquinho mais dessa Rádio Sociedade, em relação...
B. – Pois não.
– A senhora lembra da programação da Rádio?
B. – Lembro. Eu fui Directora muitos anos, da Rádio.
– O que era? Como é que era?
B. – Primeiro, se ganhava cachê, não é? Eram uns envelopinhos que o Mesquita, o Seu Mesquita, todo mundo tinha medo do Mesquita, menos eu, porque ele me tratava com muito carinho, mas era o cachê que se dava, a gente contratava. Por exemplo, tinha um programa da Elisinha Coelho, cantando "No Rancho Fundo", aquela que canta agora, numa novela, tinha o Francisco Alves. Todos esses grandes cantores, até pouco tempo. Agora, não. Até pouco tempo, vocês tinham lá na Rádio Ministério da Educação, não sei se ainda têm, uma galeria de retratos (eu não sei onde estão esses retratos). Quando pintaram, tiraram os retratos. Em nome de todos os cantores, porque é preciso que se diga que, por exemplo, a primeira novela que houve de Rádio foi lá, na Rádio Sociedade. Chamava-se "A lenda do lago". O Sérgio Vasconcelos vai se lembrar. Era dirigida pelo Gran Muri. Foi lá que começou. As óperas com o Sérgio, foi o papai que começou. Você sabe como era feito o jornal, o Sérgio Vasconcelos não contou, não? Que ele fazia da casa dele? Riscava e fazia. Ah, todos os grandes cantores que vinham, passavam na Rádio Sociedade, todos. Orlando Silva, Elisinha Coelho, a Marília Batista, a Aracy de Almeida, todos cantaram na Rádio, mas ninguém mais fala, falam só em Rádio Nacional. Você sabe que isso me dói? Porque a Rádio, para mim, a PRA2 é gente. Eu não ouço falar da Rádio. Mas a Rádio, pra mim, eu dizia a meu marido, é como se, se cortasse assim, cortaria um pedaço dela. Eu tenho que entrar na doação, sem querer eu vou entrar (risos).
– Então a senhora, por favor, explique o que levou a Rádio a ser doada.
B. – Foi o seguinte: a Rádio Sociedade, quando foi entregue ao Governo, de volta, foi dada ao Governo, ela estava com suas contas em dia, tudo pago, não devia a ninguém, estava funcionando maravilhosamente bem. Mas, o Dr. Roquette-Pinto não deixava, por exemplo, fazer anúncio da Casa Mathias, anúncio de bebida, então ela tinha tantos kilowatts, ela teria naquele momento... As outras todas estavam entrando, aumentando; ninguém mais ouvia a Rádio, porque a Rádio ia ficar com um prefixo, como ele dizia: "PRA2 é o prefixo maior da América do Sul, é o primeiro e maior". Tanto é, que está aqui dito pelo João Calmon, a quantidade de Rádios que deu – eu quero depois dizer, porque isso é muito interessante – o prefixo da Rádio, PRA2. Só um minutinho, posso falar uma coisa?
– Fique à vontade!
B. – Só aqui um pouquinho, quer ver? O prefixo da PRA2, quando foi doado ao Governo, esse prefixo deu, exactamente: a Rádio Sociedade, quer dizer, está no ar até hoje, transformou-se, em 1936, na Rádio Ministério da Educação e Cultura. A primeira emissora educativa do país, núcleo de onde se originaram 19 emissoras de rádio, e as 20 emissoras de televisão, hoje vinculadas à programação educativa do MEC. Somadas às emissoras em implantação pode-se dizer que Roquette-Pinto criou a matriz de nada menos que 46 emissoras dedicadas à formação do cidadão brasileiro, eu acho isso muito importante. Agora, ela foi, eu digo doada, porque os canais que muita gente diz: "Ah, mas os canais são do Governo, ele não tinha que doar uma coisa que não era dele, foi cedido..." Vai perguntar ao Roberto Marinho ou ao Bloch se eles vão reverter os canais. Então, naquele momento, foi doado o seguinte: ele viu que não poderia, que ele teria que aumentar a Rádio para poder competir com as outras. E, para aumentar, ele não tinha o dinheiro necessário. Não quis fazer anúncio; se ele quisesse fazer anúncio, faria como outra qualquer, aí estaria como outras, como a Tupi, como a Nacional, como outras, e ele não queria.
Eu me lembro como se fosse hoje, ele me chamou, a mim e meu irmão, nós ficamos de cada lado assim e ele sentado, eu de um lado, meu irmão do outro. Ele disse "Olha, eu chamei vocês dois porque eu sou um homem pobre. Eu só tenho de fortuna hoje, realmente fortuna, este prefixo desta Rádio. Esta Rádio, que é uma fortuna. Que só o canal (que o senhor sabe como é o canal, não é, só o canal da Rádio é uma coisa imensa, está dando a emissora até agora), mas o meu ideal é que esta Rádio nunca se transformasse. Ela foi fundada para educação do povo dela, e eu queria que ela continuasse para educação do nosso povo, da nossa gente." Eu não deixei meu irmão levantar. Eu me levantei e disse "Papai, é seu ideal?" Ele disse "É, minha filha."
Eu digo "Então faça. É tão raro um homem conseguir realizar seu ideal na vida! Um ideal tão bonito. Papai, faça!"
Dei um beijo nele, um só não, mais. Mas foi frio, sem emoção, sem nada. No dia 7 de setembro de 1936, não, antes disso, ele mandou uma carta, essa carta que nos salvou (risos), eu digo sempre, que ele mandou uma carta ao Capanema, perguntando se o Ministério da Educação se interessava pelos canais. E a doação toda tinha móveis, tinha tudo! A Rádio estava montada! Inclusive, seis funcionários desde a fundação. Se o Ministério da Educação se interessava pela Rádio. O Dr. Capanema mandou uma carta dizendo que "O Presidente Getúlio Vargas mandava agradecer muito e que aceitava, em nome do Governo, a Rádio". Papai mandou outra carta, a nossa salvadora: "Vossa Excelência não me entendeu (isso é bem de Roquette). Vossa Excelência não me entendeu. Eu não estou doando esta Rádio ao Governo do Brasil. Estou doando à educação do meu povo, da minha gente."
Então ela ficou vinculada à Educação. Esta Rádio é vinculada à Educação! Bom, o Capanema aceitou, no dia 7 de setembro de 1936, o Capanema foi... Quem pôs os selos nos móveis fui eu com o Drummond e o Garrenaud (mas outro Drummond), eles eram Oficiais de Gabinete do Capanema. Eu me lembro, eu e o Drummond botando selos, lá, por isso ele sabia da história toda da Rádio. E botando os selos nos móveis, nas máquinas, e nesse dia o meu pai fez um discurso e acabou assim: "Entrego esta Rádio, com a mesma emoção com que se casa uma filha." E veio chorar comigo num corredorzinho que tinha na Rua da Carioca. Bom, vê se eu posso ficar calada! Vê se eu posso ficar calada numa hora dessas! Assisto a isso tudo, está certo, muito bem, papai morre em 54. Não sei qual foi o ano em que eu fiz o Mandato de Segurança, não me lembro, dois anos depois que ele morreu, ou três anos. Eu fiquei sabendo que há uma Lei, talvez por engano, a pessoa que fez até era amiga nossa, um deputado e tal, que não vale à pena dizer o nome, eu acho que eu esqueci, até. E a Rádio passaria para o Senado e a Câmara. Eu fiquei louca! Mas eu fiquei num estado tal, que o meu filho Cláudio, ele era menino, eu disse: "Vai já à casa do... Vou já tocar para o seu tio (o meu irmão, Paulo Roquette-Pinto) e eu vou dizer a ele que ele tem que fazer qualquer coisa, que isso não pod eficar assim".
Telefonei para ele e, e o meu filho ia lá.
– Mas o que ocorreu?
B. – Ocorreu que a Rádio... Veio uma Lei em que a Rádio passou para o Senado e a Câmara! No Diário, Diário Oficial com uma penada! Eu tive a impressão que o papai tinha morrido de novo! Aí eu digo: "Não é possível!". Falei com meu irmão, meu irmão: "Ah, não se pode fazer nada...", eu digo: "Tem que fazer!" Eu peguei a minha cunhada, que era Lia Roquette-Pinto, uma mulher muito inteligente. Agora eu quero fazer uma homenagem a ela: ela trabalhou até na Rádio, também, era uma mulher fora do comum. Ela era Xavier da Silveira, casada com meu irmão, Roquette-Pinto. Uma grande mulher! Ela disse "Vou com você, Tizinha". Fomos nós duas para o Ministério. Eu fazia assim, dedo em riste, no Salgado Filho: "Isto não fica assim! Esta Rádio não lhe pertence! Não pertence ao Governo! Esta Rádio pertence ao povo, à nossa gente!". Ele disse: "Pois não, minha senhora, pois não! Eu vou chamar o Consultor Jurídico."
E eu... Aí eu chorava, não é? Aí eu, eu dizia: "Fala, Lia", porque ela era mais calma, e dizia: "Não pode (ela com o Estatuto da Rádio na mão), não pode, seu Ministro, porque isto aqui, está aqui dito, aqui, quando foi fundada a Rádio, foi fundada assim, para a Educação, assim, assim... Foi doada neste sentido, com esta carta." Aí eu fiz um barulho, quando cheguei em casa Dinah Silveira de Queiroz, que já morreu, Rachel de Queiroz, o Drummond, um grupo grande (de brasileiros) me telefonava: "A família não vai fazer nada?" E eu digo: "Já fez! Já fez!". O Dr. João de Oliveira Filho, que era um grande advogado, de graça, sem cobrar um tostão, mas meu irmão ainda teve que pagar as custas, para a Cintev. Para que o Ministério da Educação ficasse com uma fortuna que nós estávamos, enfim, papai doou, foi preciso que meu irmão gastasse um dinheiro.
Eu agora nem poderia, porque ele tinha um cartório, e eu não tenho. Fazer um Mandato de Segurança, ganhamos a Primeira Instância, o Mandato de Segurança, e a Rádio continuou na Educação. Aí começaram a correr os trâmites legais. Aí eu ia, eu fui para a TV Rio, e o Gilson Amado, que era muito nosso amigo, como é, como é o nome dele? O Artur da Távola foi conosco várias vezes na Rádio, nós falávamos na televisão. E falávamos que a Rádio era do povo, que a Rádio é do povo. E tanto batemos, e tal, não se falou mais nisso. E a Rádio ficou que se chama " Sub Júdice", quer dizer, ela está "injulgada". Ela não foi julgada, ainda. Ela não pode sair da Educação, por enquanto não pode. A menos que me mostrem onde foi julgada, quais foram os Ministros que julgaram, porque inclusive os Ministros todos, eu ia falar – o meu marido caçoava porque eu, em todo lugar que eu fosse, eu ia na sociedade, num "cocktail", eu ia numa festa, ou eu ia num colégio, ou aonde eu fosse, era "...porque o Rádio...", então ele dizia: "Onde a gente vê uma aglomeração assim, está a minha mulher falando do Rádio. Você vai ficar conhecida como 'a louca do Rádio'!".
– Estávamos falando após a doação, e a senhora estava falando que o seu marido estava lhe dizendo que a senhora ia se tornar "a louca do Rádio", conhecida como "a louca do Rádio".
B. – É isso mesmo (risos). Ah, mas aí, felizmente, o processo todo, Dr. João de Oliveira Filho, que eu queria fazer um reconhecimento (acho que até já morreu), mas prontificou-se – era um senhor, um dos melhores advogados do Rio de Janeiro – eu telefonava: "Dr. João, preciso hoje de um programa", ele ia conosco lá, não é, sem cobrar honorários. Todos! É um grupo de brasileiros. Eu acho que foi uma coisa impressionante! O que eu tenho de cartas, de documentos, de coisas, pedindo para a família – que a família já estava, eu acho que seria quase uma desonra, que a família não fizesse isso, não é? De maneira que a Rádio ficou "Sub Júdice", continuou com as suas programações, e diga-se de passagem, muita gente acha que devia fazer assim, eu não devia fazer, ou popular, ou não popular, e eu digo sempre: os directores mudam, mas a Rádio, ficando na Educação, ela está na Educação! Ela sempre tem alguém, um director, que a ponha no caminho certo. É como filho, não é? As vezes cai um pouquinho para a direita ou para a esquerda, e você empurra um pouquinho e ela volta, não é? Então a Rádio tem é que continuar no Ministério da Educação. Para isso é que ela foi doada.
– A senhora poderia falar outra vez a respeito desse ideal, o que ele sonhava para essa Rádio, o que ele achava que ele podia conseguir para essa Rádio se fosse levado às últimas conseqüências o ideal dele?
B. – Eu vou te explicar como. Uma das coisas que você pode entender muito bem é que ele – vou explicar: parece que não tem relação, mas tem, com a sua pergunta – quando o Anísio Teixeira era Secretário de Educação no Rio de Janeiro, o ideal do Roquette-Pinto era ter uma Rádio-Escola municipal. Portanto, vê que a Rádio Sociedade ele não queria uma escola. Se o ideal dele era formar uma Rádio-Escola, não era a Rádio Sociedade. Então, ele foi ao Anísio Teixeira e disse: 
"Anísio, eu quero fundar uma Rádio-Escola, está na hora de nós fazermos isso". O Anísio Teixeira disse: "Eu não tenho dinheiro, Roquette." Papai disse: "Quanto você tem?", e ele disse: "Dez Contos de Réis". Papai disse: "Me dá os dez Contos que eu lhe dou uma Rádio". E com o material antigo da Rádio Sociedade, os funcionários que iam trabalhar de graça, que ajudaram a montar a Rádio, a PRD5, a Rádio-Escola municipal, que hoje tem o nome dele, e que não tem nada que ver com a nossa doação, com o Ministério da Educação – que muita gente confunde, são duas coisas diferentes. Então por aí você vê, a Rádio Sociedade, ele queria mais uma cultura do que escola. Ele queria uma coisa mais geral. É aquilo que eu estava lhe explicando sobre educação, instrução. Porque aqui confundem muito – tudo é cultura. Aqui no Brasil tudo é cultura, cultura. A parte educativa é muito séria! Você tem que ter uma parte de cultura e uma parte de educação. É verdade que, com a cultura, muitas vezes vem a educação, mas nem sempre, porque é como ele diz: "Educar é criar hábitos de significação social." Então, ele não queria. O ideal dele da Rádio Sociedade eu acho que seria aquilo como ele fez: era para irradiar boa música, era para ensinar as pessoas, enfim, textos bonitos, um bom jornal, limpo, sem direita, sem esquerda, sem frente, sem atrás, é um jornal corrido. Porque o ideal dele é que aquele pessoal todo que está no Brasil afora, que ele dizia: "A Rádio é escola", não é? Sem ser escola, quer dizer, é um instrumento de instrução sem ser escola. Justamente o contrário, sem ser escola. A Rádio-Escola era outra coisa. Então, eu acho que o ideal dele é que mantivessem essa parte. Meu Deus, o lema dele está dizendo: "Pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil!" Isso é que era o ideal dele.
– Queria que a senhora falasse agora da Rádio Secretária e da Rádio-Escola.
B. – Secretária... Da Rádio-Escola, que tem o nome dele?
– Que virou a Rádio Roquette-Pinto. Como é que foi isso?
B. – Bom, isso foi assim como eu lhe contei. O sonho dele era fundar uma Rádio-Escola, tanto que o Anísio Teixeira, quando fez o discurso de inauguração da Rádio PRD5, ele disse: "Esta Rádio, milagre de Roquette-Pinto" – porque foi um milagre, fazer uma Rádio funcionar com dez Contos de Réis, naquela época era milagre – mas era para tudo de currículo escolar. Até que é muito engraçado. Vou lhe contar um caso: a Rádio PRD5 – que tem a PRA2 e a PRD5. Não chamo Roquette-Pinto nem Sociedade, eu chamo PRA2 e PRD5, para mim é "gente", nem é mais PRA2. É outro prefixo. Mas a PRD5, a Rádio-Escola, ela conseguiu o currículo escolar, então era Ilka Labarte, que era professora, era ... Diniz, era um grupo. Eram quatro professores, seguiam exactamente o currículo escolar da Escola Primária. E, um dia, eu me lembro, já tinha sido inaugurada, o Anísio Teixeira já tinha morrido, e o papai ficava muito em casa ouvindo rádio, assim, e eu chego, todo dia ia lá vê-lo, já estava aposentado, e eu vejo ele meio triste, e eu disse: "O que aconteceu, papai?", e ele disse: "Ah, minha filha..." (papai não era homem de falar de nossa terra, ao contrário, está sempre para cima, sempre, mas ele era lúcido, ele via as coisas como eram, ele não era "o Brasil tem mais estrelas", não; como ele dizia: "minha geração foi contar as estrelas", ele sempre dizia isso). Nesse dia encontrei ele muito triste, e eu disse: "Mas o que aconteceu?", e ele disse: "Ah, minha filha, não sei o que fizeram aqui na nossa terra. Deram meu nome, puseram-me homenagem, e agora passaram para a Câmara dos Vereadores, então está lá, eu agora assisti, estão irradiando só nomes feios pela Rádio", a Rádio PRD5. Aí aquilo me doeu, assim, até em um grupo também de brasileiros – Maciel Pinheiro, que foi professor, trabalhava comigo, e outro grupo de brasileiros – se movimentaram e a Rádio saiu do... quer dizer, essa coisa que a gente tem que estar sempre alerta, entende?
Eu disse aos meus filhos "Olha, uma das heranças que eu vou deixar para vocês é a defesa dessa Rádio Ministério da Educação. Eu sei, já tenho uma certa idade, não tenho mais meu irmão, minha cunhada, meu marido (não pode mais), sou eu só! Vocês (eu estou dizendo para você, agora, eu estou dizendo para você), vocês é que têm que defender essa Rádio, a Rádio é de vocês! Não posso, não se pode fazer mais nada. É procurar onde está esse Mandato de Segurança, ver onde é que está, quais são as pessoas que os tem que ajudar, contar o caso todo – isso eu estou pronta para falar!
– A senhora falou, ainda há pouco, que Roquette-Pinto não tinha temperamento político. Mas ele foi um dos fundadores...
B. – Foi. Foi, eu vou explicar porque que eu digo isso: ele foi convidado pelo Partido Socialista, e ele aceitou. Bom, porque ele era um homem de esquerda, quer dizer, um homem de esquerda no sentido humano da coisa, que todos nós somos. Mas ele não tinha o senso, o sentido político, e eu vou te explicar porquê. Ele aceitou ser candidato. Mas o meu irmão até caçoava, meu irmão dizia assim: "Papai não é político, não é? Papai vem assim, com cinco cédulas na mão, e diz assim: 'Olha, toma aqui; quantas você quer? Três, quatro?". Papai não tinha dinheiro para ser político, papai não tinha espírito político, papai não sabia o que era a Política. Quer dizer, não sabia, papai sabia tudo no sentido, quem sou eu para dizer isso! Mas, quer dizer, era uma política diferente. Sabe o que ele me dizia? Ele me dizia assim: "Minha filha, o meu ideal de político seria este: eu estou deitado, na minha rede, estudando ou lendo; vem um grupo de brasileiros dizendo: 'Dr. Roquette, o senhor foi escolhido para ser eleito Deputado'. Aí, eu ia ver se aceitava ou não".
O senhor acha que este homem era político na nossa terra?
Sinceramente, não? Seria um grande político, entende? Ele é que sabia como era o político, como deveria ser a Política.
– Mas, segundo me consta, ele foi um dos fundadores do Partido Socialista.
B. – O nome. Quer dizer, eu não digo só. Papai não era homem de dar só nome. Ele tinha afeto! Talvez ele acreditasse naquilo, entende? Mas o que eu digo... Eu lhe contei a história que eu acho que não era político, entendeu? No sentido da coisa em si. Ele tinha idéias políticas! Ele era um homem que não podia viver sem idéias políticas, sem pensar. Pois um homem que dá uma Rádio para um povo, para gente ter, quer um homem mais político que esse? Não pode ser!
Ele era político, humanamente político! Mas não era (eu digo) uma outra espécie de político, entendeu? Eu não quero fazer ao meu pai um agravo, quando eu achava que meu pai... Não é que ele fosse perfeito, ninguém é perfeito, nem ele era perfeito, mas ele foi um grande brasileiro! E digo mais: talvez um dos maiores brasileiros, do ponto de vista de educador, porque ele sempre dizia isso: "Minha filha, eu não sou nada disso de grande que dizem. Eu sempre fui, e serei, um simples e modesto professor". E ele parava e dizia assim: "Na nossa terra, é título de honra". Quer dizer, ele é um homem que nasceu para isso. Então, ele não tinha essa faceta, digamos assim. Não vamos dizer que ele não fosse político; ele não tinha a faceta do político normal. O Jornal do Brasil, aqueles artigos que ele escrevia sobre o Jornal do Brasil, que houve uma ocasião. Essa coluna, que hoje é do Josué Montelo, ele herdou de papai. Quando papai morreu, ele estava justamente na máquina – não sei se o senhor sabe como ele morreu – na máquina, escrevendo esse artigo sobre educação, e a última frase que ele escreveu foi essa: "Ensinem os que sabem o que sabem aos que não sabem". Aí ele caiu com o derrame, que me telefonou, ainda falou comigo no telefone, apesar de estar com o derrame. Mas era a coluna do Jornal do Brasil, que ele escrevia diariamente. Eu tenho a coleção toda aqui, isso eu posso lhe ver, depois. Eu tenho uns, depois eu lhe mostro o que eu tenho, o material.
- Já que a senhora falou da morte, continuando a falar, e o funeral de Roquette-Pinto?
B. – Bom, ele foi enterrado em Petrópolis, porque... coitado do meu pai. Ele dizia sempre que queria ficar em Petrópolis, que a mãe dele está enterrada lá. E ele dizia: "Aliás, vocês não vão se preocupar, eu quero me enterrar em Petrópolis porque a Academia paga tudo, porque senão eu ficava aqui mesmo, vocês não pagavam". Mal sabia ele que a Academia não paga fora do Rio! (risos) Mas ele morreu de repente, escrevendo essa frase sobre Educação, ficou na Academia de Letras, ficou desde as 11 h da manhã até as 11 h da manhã do outro dia, e tenho os discursos todos que fizeram, que agora é que eu posso ler – até então eu não lia – do Carlinhos Chagas, do Pedro Gouveia, todos os académicos (quase), o Peregrino Júnior, muito emocionados, muito bonitos. Depois – isso é interessante contar nós saímos daqui e fomos para Petrópolis, foi aquela caravana, família, os académicos. Quando nós entramos no cemitério de Petrópolis, não sei se o senhor conhece, é um cemitério muito bonito e parece um jardim, tinha tanta gente, chovia e tinha tanta gente, tanta gente... Eu olhei assim – eu me lembro que eu estava com o Elmano Cardim, ele estava de braço assim, comigo – eu disse: "Elmano, por que tem tanta gente aí? O que é isso?" Ele disse: "É seu pai, minha filhinha (ele disse), é seu pai!". Eu achei bonito porque o povo, em geral, se comove muito com esses populares. É verdade que ele, naquele momento, era o "Homem do Rádio", todo mundo estava falando do "Homem do Rádio". Mas ele teve a sua consagração como brasileiro!
– Eu gostaria que a senhora falasse agora sobre as preferências do Roquette-Pinto, as preferências artísticas e outras, principalmente na área musical.
B. – Ah, bom! Na área musical ele gostava muito de ópera, gostava muito de concertos, tudo o que era muito bonito ele gostava muito. E ele foi – não sei se sabem – ele foi, como é que chama? Ele dirigiu durante uma certa época, o Theatro Municipal, aqui no Rio de Janeiro. Eu não me lembro mais quem era o Secretário de Educação. E era uma coisa com que ele se preocupava muito, com a juventude, com a mocidade. E ele quando dirigiu o Teatro Municipal, era uma Companhia, me lembro, Companhia Francesa. Como eu estudei na Europa muitos anos, na França, eu conhecia até os actores que vinham – Jean Lebert, Jean Archeant, quando era mocinha lá em Paris, aquela coisa toda, e eu ia às peças todas – e papai disse: "Não, umas três peças eu vou fazer de graça", que ele tinha uma verdadeira... quase obstinação por educação do povo, sabe? Ele disse: "Eu vou fazer de graça para os estudantes brasileiros." Muita gente dizia "Ah, mas eles não vão", aquela história que "brasileiro não entende", não é, que "brasileiro não gosta", porque não dão! O povo não entende porque não dão! Porque é a tal história: você pode não entender francês, mas você vai a uma boa peça, bem representada, em que tem um livreto traduzido, você fica conhecendo Cornail, você fica conhecendo El Cid, você fica conhecendo pelo menos quem é o Shakespeare. Agora, você não dá. Você, você está vendo agora a quantidade de gente que vai para a Quinta da Boa Vista, a quantidade de gente que vai levar livro. Eu acho uma maravilha isso, aliás. Levam um livro e entram de graça no Theatro Municipal. Eu acho uma maravilha, porque para mim "livro é gente". É, é uma coisa fantástica! Eu gosto tanto de livro, eu gosto de andar sempre com um livro na mão. Eu dizia a meu pai: "Eu tenho, eu tenho a deformação de professora sem ser", (risos) se pode se chamar "deformação" ser professora. De maneira que ele botava de graça, ele tinha aquela coisa. Eu nunca vi meu pai dizer "Esse Brasil não vai pra frente". Nunca vi meu pai dizer: "Qual, esse pessoal não vale nada!". Nunca! Nunca! Quem é – nesse ponto eu acho, eu estou com o Paulo Carneiro –quem é bom brasileiro pega um livro do Roquette, mas não é assim – porque eu posso dizer, você pode dizer mas nós, desculpe, mas nós não temos capacidade de antropólogo, e ele estudou. Você sabe que a única classificação do Homem brasileiro que existe hoje é a do Roquette-Pinto, Chatodermos(...), e ele chegou à conclusão que o mestiço é óptimo, é formidável! Eduque esse Homem! Eduque, ensine a ele para ver onde ele vai, longe! Aliás, vou lhe contar, eu tenho um caso que se deu conosco, que eu me lembrei muito dele: a minha mãe foi casada duas vezes, e meu padrasto, que eu chamo de "segundo pai", foi o Almirante Dalzo Martins, foi Ministro da Marinha; foi um homem maravilhoso, um outro pai – eu fui uma pessoa muito feliz, tive dois grandes pais – muito bom, mesmo! Uma pessoa humana, uma pessoa fantástica! E ele foi numa viagem aos Estados Unidos, e nós fomos nessa viagem e tinha, acompanhando, um chofer, um daqueles "mariners" americanos, bonito, forte, sadio. E nós íamos para um almoço, não sei onde, e iam os Ministros, aquela coisa toda, e o meu marido e eu, nós íamos atrás. De repente, entramos lá e o rapaz, o marinheiro que ia guiando, disse: "Ih, não sei, nos perdemos!". Digo: "Mas como, perdemos? O senhor não sabe para onde nós íamos?" "Ah, não! A minha ordem é seguir o carro da frente!". Nunca que o mulatinho brasileiro seguia o carro da frente sem saber para onde vai! Nunca! Me lembrei de meu pai. Nunca. Pode ser uma coisa fantástica, mas não vai "no escuro" (risos), ele não vai "no escuro".
– Mas, Beatriz, ainda no capítulo das preferências, que tipo de música popular ele gostava?
B. – Ah, ele gostava muito de, de música popular, ele gostava, naturalmente – eu acredito que a música moderna actual de Rock ele não gostasse – mas ele gostava muito de canção. Ele gostava muito desse gênero dessa época, não é, da Elisinha Coelho – gostava muito dos sambinhas do Noel Rosa, gostava muito, é uma pessoa muito... Sabe, de tudo o que era bonito ele gostava! Agora, bonito e bem feito.
– Mas ele não tem, assim como Juscelino tem, ou tinha, adoração pelo "Peixe Vivo", ele não teria...
B. – Ah, não, ele tinha por várias músicas! Você sabe que ele era poeta?
– Sei, sei. É importante para mim para que eu, eu insira no programa...
B. – As músicas?
– Sim.
B. – Mas você pode inserir, pode pôr canções, pode pôr um sambinha bonito. Pode pôr, misturado com Mozart, que ele adorava! Pode pôr até um Wagner, porque realmente a figura dele era tanto humana como musicalmente, era muito ampla. Ele tinha uma concepção de vida muito grande. Olha, é uma das pessoas... Ele nasceu realmente com o dom de explicar as coisas, nisso ele tinha razão de ser professor. Por exemplo, uma ocasião, tinha uma amiga nossa que tinha uma filhinha pequena, e nós íamos almoçar com papai. E ela perguntou para o pai, que estava ao nosso lado: "Papai, o que é sorte?"; o pai disse: "Ih, nós vamos visitar o Dr. Roquette, você vai perguntar a ele o que é sorte." Aí nós chegamos, aquela coisa toda, e eu disse: "Pergunta!", e ela perguntou o que era sorte. Ele disse: "Me dá uma moeda" naquele tempo tinha aquela moeda – "Cara ou Coroa, Cara ou Coroa? Você ganhou; então, sorte é a quem o azar protege." Quer dizer, ele tinha o dom, então ele falava com as crianças. Por exemplo, ele morava na Rua Vila Rica, aqui perto do túnel, e ele tinha aquela "sensitiva", não é, aquela plantinha. Os meninos iam lá, adoravam! Porque o papai pegava uma folha e contava uma história, sabe? Ele não contava assim uma. Aliás, eu peguei isso com ele, estou contando à minha neta agora a história dos castelos da França, do "Chambor" ela não sabe o que é "Chambor", nem nada disso - mas ela sabe que o castelo tem um terraço, que o Rei ia caçar, porque eu acho que, é como ele dizia: "Toda dona-de-casa tem que ser uma professora na sua casa". Tem que ensinar; você não pode chegar para uma pessoa e dizer, não é: "Faça! Não faça!"; tem que explicar por quê. Você fazendo assim, você é muito mais bem servido em tudo, na vida.
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