São Paulo - Há 8 décadas , o Brasil testemunhava o que ficou conhecida como a primeira transmissão radiofônica no território nacional. O cenário foi uma exposição comemorativa pelos cem anos da Independência, no Rio de Janeiro, que contou com a presença de figuras ilustres, como a do então presidente Epitácio Pessoa. Reuniu também autoridades estrangeiras, entre eles o prÃncipe Alberto da Bélgica, interessadas em conhecer as realizações brasileiras de 1922.
Para o evento, visitantes norte-americanos carregaram dois transmissores, que foram instalados no alto do Corcovado. O presidente foi o primeiro a fazer o teste nas novas aparelhagens.
Por meio de uma legÃtima transmissão radiofônica, o seu discurso foi veiculado por 81 alti-falantes, distribuÃdos pela área da feira internacional. "Mas o som estava tão mau, tão incipiente ainda, que o impacto foi muito reduzido", diz o professor da USP André Barbosa Filho, especialista em rádio.
A primeira transmissão radiofônica foi assim descrita pelo Jornal "A Noite", do dia 8 de setembro de 1922, em notÃcia que começava com o tÃtulo:
"Um sucesso da radio-telephonia e telephone auto-falante":
"Uma nota sensacional do dia de hontem foi o serviço de
rádio-telephone e auto-falante, grande atractivo da Exposição.
O discurso do Sr. Presidente da República, inaugurando o certamen foi,
assim, ouvido no recinto da Exposição, em Nictheroy, Petropolis e em São
Paulo, graças à instalação de uma possante estação transmissora no
Corcovado e de apparelhos de transmissão e recepção, nos logares acima."
"Desse serviço se encarregaram a Rio de Janeiro and S. Paulo Telephone Companhy, a Westinghouse International Co. e a Western Electric Company. A noite, no recinto da Exposição, em frente ao posto de Telephone Público, por meio do telephone auto-falante, a multidão teve uma sensação inédita. A ópera Guarany, de Carlos Gomes, que estava sendo cantada no Theatro Municipal, foi alli, distinctamente ouvida, bem como os applausos aos artistas. Egual cousa succedeu nas cidades acima."
Ouvir o discurso presidencial e a ópera pelo alto-falante assombrou
a multidão e centenas de outras pessoas distantes. Aquilo parecia coisa
de mágicos ou milagre.
Há quem discorde da data oficial, como os pernambucanos. "Em 1919, algumas pessoas realizavam pesquisas, no Recife, mas as transmissões ainda não tinham voz humana e, mesmo as que tinham, não apresentavam uma programação", diz Barbosa.
Segundo ele, as comemorações devem estender-se até ao dia 21 de setembro do ano que vem, (2003) data em que se lembra o nascimento do etnólogo e escritor Roquette Pinto, considerado pai do rádio no Brasil. Roquette-Pinto divide esse tÃtulo com Henry Morize.
Em abril de 1923, ambos fundaram a primeira rádio no PaÃs, a Sociedade do Rio de Janeiro, que começou a funcionar com aqueles dois transmissores trazidos pelos norte-americanos no ano anterior.
No mesmo ano da primeira transmissão de rádio no Brasil, em 1922, foi fundada a rádio BBC de Londres, pioneira na veiculação de uma programação diária.
Desde o inÃcio, a emissora seguia três objectivos imprescindÃveis, estabelecidos pelo seu estatuto: lazer, entretenimento e educação. Roquette Pinto inspira-se nesse formato nos primeiros anos de vida do rádio no Brasil.
Em 1926, o Congresso norte-americano admite o uso dos comerciais nas programações de rádio. "Os EUA estabelecem mais uma norma e passam a injectar dinheiro no rádio, o que incentiva a profissionalização dos seus funcionários", afirma Barbosa.
A inserção dos comerciais publicitários ajudou também a modificar a linguagem radiofônica. Nesse contexto, surgem os famosos jingles. "No PaÃs, os jingles existem desde a década de 30, quando foi para o ar um anúncio da Padaria Bragança, escrito por Antonio Nassara, em ritmo de fado", comenta o publicitário Lula Vieira, que reúne no seu arquivo pessoal cerca de 10.000 jingles gravados. "Os nossos maiores compositores, como Ary Barroso, faziam músicas para anunciantes.
Inicialmente, somente um grupo restrito, endinheirado, tinha acesso ao aparelho. Nos anos 30, entretanto, popularizou-se e consolidou-se, com a descida de preço tanto dos transmissores quanto dos receptores. Nascem os speakers (locutores) e os programistas (produtores). Entre os speakers, Nicolau Tuma é citado até hoje como uma das figuras mais criativas e importantes. Foi o mentor do termo ´radialista´ e ficou conhecido como ´speaker´ metralhadora durante a narração do jogo de futebol Vasco e Flamengo, no Estádio de São Januário, em 1934. "No intervalo, pedi para o humorista Barbosa Filho assumir o microfone enquanto eu descansava um pouco. E ele falou: esse não é gente, é uma metralhadora. Fala mais depressa que o jogo."
Foi justamente num programa de Tuma, em 1938, que a actriz Vida Alves, famosa mais tarde por protagonizar o primeiro beijo na TV, iniciou a sua carreira no rádio. "Participei de programas infantis, cantando, mas só assinei o meu primeiro contrato em 1944. Participei de radioteatros e radionovelas", recorda. "A rádio foi o berço de quase todos os artistas que foram para a TV."
A década de 40 marcou a época de ouro da radiodifusão, com uma cobertura de 60% da população brasileira. "Os géneros surgem na sua totalidade, como o jornalismo, programas culturais radionovelas, programas de humor", enumera André Barbosa. Houve produções históricas, como o lendário Repórter Esso, que permaneceu no ar durante 28 anos. Outras atracções são os programas de auditório, que atraÃam multidões aos teatros, de onde eram transmitidos, e criaram mitos, como as cantoras Marlene e Emilinha Borba, rivais dentro e fora do rádio.
Com a chegada da TV, nos anos 50 - trazida por Assis Chateaubriand -, houve um esvaziamento nas emissoras de rádio. Artistas, técnicos entre outros profissionais, migraram para a TV, em busca de novas oportunidades profissionais. Em 1958, foi fundada a Rádio Eldorado que, entre outras acções, lutou contra a obrigatoriedade de transmitir A Voz do Brasil.
Desde aquela época até hoje, a radiodifusão viu o surgimento das emissoras FMs, a popularização das AMs, a criação de rede de emissoras por satélite. E actualmente, discute-se a rádio digital. Hoje, quase 90% da população tem pelo menos um aparelho em casa. "Para mim, é o começo de tudo", diz a apresentadora Hebe, que passou pelo rádio. "Aproximou as pessoas, como hoje nos reunimos na frente da TV."
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