Roquette-Pinto, o homem multidão - Pg5

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ROQUETTE-PINTO: O HOMEM MULTIDÃO



por RUY CASTRO

 

Foto de 

Roquette-pinto

 

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Em julho de 1936, quando resolveu desfazer-se de sua rádio, Roquette-Pinto chamou os seus filhos Paulo, de 27 anos, e Beatriz, de 25, à Rua da Carioca. Informou-os que, aos 52 anos, era um homem pobre e que a única herança que poderia deixar-lhes era a rádio, para que a dirigissem como uma rádio comercial. Só o prefixo, já então PRA-2, valia uma fortuna. "Mas não quero que ela se transforme numa rádio comercial", acrescentou.

A seu ver, ninguém – nem ele, nem os seus filhos – poderiam salvá-la desse destino. Somente um órgão oficial teria meios para isso.

Beatriz entendeu o que seu pai queria dizer. E nem esperou pela opinião do irmão. Antecipou-se e perguntou:

"É esse o seu ideal, papai?"

"É", respondeu Roquette.

"É tão raro um homem realizar seu ideal, meu Deus. Dá a rádio, papai. Nem se discute".


Roquette então perguntou por carta a Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde, se o ministério se interessaria pela rádio com tudo o que havia dentro: instalações, equipamento, biblioteca, laboratório de ensaios científicos, discoteca, instrumentos musicais, partituras, arquivo, móveis e utensílios, além, é óbvio, da estação transmissora em perfeito estado de funcionamento, com os seus canais de ondas médias e curtas, e um quadro completo de locutores e técnicos com 13 anos de experiência. Tudo isto sem dívidas ou ônus de espécie alguma para a União e até com dinheiro em caixa. única e irrevogável condição: a de que a rádio permanecesse fiel ao seu lema cultural e educativo, sem qualquer vinculação comercial, política ou religiosa.

Capanema respondeu que o presidente Getúlio Vargas aceitava e agradecia, mas sugeria que a reversão fosse feita através do Departamento de Propaganda e Difusão Cultural. Ao ler isso, um alarme tocou na cabeça de Roquette. Pareceu adivinhar que, em menos de um ano, o tal departamento se tornaria o infame Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do Estado Novo. Ora, ninguém o estava a obrigar a desfazer-se de sua rádio. Sem hesitar, mandou outra carta a Capanema enfatizando que a reversão seria feita "ao Ministério de Educação do povo, não ao governo". E só então Capanema entendeu e encerrou a correspondência, garantindo que o ministério a aceitava sem discussões, nos termos em que fora proposta.

Essas cartas foram os anticorpos que, no futuro, garantiriam a integridade da rádio contra os vários órgãos que tentariam apossar-se delas.

A reversão foi sacramentada no dia 7 de setembro de 1936. Na cerimônia oficial, realizada no terceiro andar do prédio da Rua da Carioca, Capanema fez-se acompanhar pelo seu chefe de gabinete, Carlos Drummond de Andrade. Vinte e cinco anos depois, Drummond recordaria numa crônica que a cerimônia "tinha qualquer coisa de casamento no seio de uma família muito unida, que via a filha sair nos braços do rapaz escolhido livremente; sim, um excelente rapaz, tudo estava óptimo, os dois seriam muito felizes – mas... quem sabe?"

A imagem ocorrera-lhe porque Roquette passara os canais a Capanema com a frase:

"Entrego esta rádio com a mesma emoção com que se casa uma filha".


Roquette saiu dali com Beatriz para um pequeno corredor nos fundos do andar e chorou de antecipada saudade. Com os olhos também molhados, Beatriz voltou para ajudar Drummond a colar os selos do ministério nos móveis e objectos da rádio.

Naquele dia, há exactamente 60 anos, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro deixava de existir, para que nascesse a Rádio Ministério da Educação.

Em 1924, Roquette candidatara-se à Academia Brasileira de Letras na vaga do poeta Vicente de Carvalho, mas fora derrotado. Em 1927, foi eleito na vaga de Osório Duque Estrada. Usou o fardão na noite da posse – e nunca mais. Um ano antes, tornara-se diretor do Museu Nacional. Bem ao seu estilo, em todo o tempo em que partejou o rádio no Brasil e esteve à frente da emissora, Roquette nunca interrompeu o seu trabalho científico: naquele período, publicou dezenas de palestras e monografias sobre antropologia, medicina, história e lingüística. Entre uma e outra, traduzia Goethe. Um jornalista francês escreveu-lhe perguntando se tinha uma divisa. Roquette respondeu: "Crer e agir". E explicou que nunca agira sem crer e que, depois de crer, nunca deixara de agir.

Agir, para ele, era uma segunda natureza. Em 1933, como um menino curioso que – em vez de destruir um brinquedo para saber como funciona – constrói esse brinquedo para vê-lo funcionar, Roquette montara uma televisão primitiva, à base de processos mecânicos usando o disco de Kipkov. Com isso, simplesmente realizou a primeira transmissão de imagens no Brasil. Instalou a emissão na sede da rádio na Rua da Carioca, um receptor na casa do seu amigo Flávio de Andrade na rua Cândido Mendes, em Santa Teresa, e fez uma única transmissão. As imagens mostravam cartazes com as letras A, B e I, formando a sigla da Associação Brasileira de Imprensa. No futuro, o cronista Antônio Maria destacaria o facto de que, graças a Roquette, as primeiras imagens de TV mostradas no Brasil não foram as de um anúncio comercial ou um retrato do presidente da República, mas o nome da entidade dos jornalistas.

Mas Roquette sabia que ainda era cedo para a televisão. Até lá, havia muita coisa a ser feita, como salvar a rádio ou, se não conseguisse, passá-la para um órgão público – o que acabou acontecendo. Depois de doá-la ao ministério da Educação, Roquette ainda a dirigiu por boa parte de 1937 antes de a entregár ao seu sucessor Fernando Tude de Souza. Só que, antes disso, no próprio ano de 1936, ele já se envolvera com a que seria a ultima paixão de sua vida: o cinema.

Um vendedor de electrodomésticos fora procurá-lo no Museu Nacional tentando empurrar-lhe alguns para o museu. Chamava-se Humberto Mauro, tinha 39 anos e era famoso porque, mesmo morando na pequena Cataguazes (MG), fizera filmes que se tornariam clássicos do cinema brasileiro, como Tesouro Perdido (1927) e Brasa Dormida (1928). Mudara-se para o Rio em 1930 para trabalhar na Cinédia, fizera Ganga bruta (1933) e acabara de rodar Cidade-mulher, com música de Noel Rosa e Assis Valente. Era um gênio intuitivo, mas, nas horas vagas, tinha de virar-se vendendo enceradeiras e aspiradores de pó. Roquette não lhe comprou nenhum - mas comprou o próprio Humberto Mauro com a proposta: "Você vai trabalhar comigo. Vamos fazer o cinema educativo no Brasil!"

O Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE) foi fundado por Roquette naquele mesmo 1936. A partir de O Descobrimento do Brasil (com música de Villa-Lobos), permitiria a Humberto Mauro rodar, nos anos seguintes, cerca de 300 documentários em curta-metragem, de carácter cientifico, histórico e da poética popular. Quase todos sob orientação de Roquette, que também escreveu e narrou muitos deles. No INCE, formaram toda uma geração de técnicos até 1947, quando Roquette aos 63 anos, se afastou da presidência e deixou Mauro no seu lugar.

O INCE funcionava num prédio da Praça da República, dois andares acima das novas instalações da Rádio Ministério da Educação. Donde, até sem querer, a menina-dos-olhos de Roquette-Pinto continuava sob o seu olhar vigilante e satisfeito. No decorrer dos anos apreciou o progresso da sua criação. Suas idéias originais – "maluquices líricas", como as chamava Drummond – foram conservadas, desenvolvidas e com os recursos técnicos e financeiros dados pelo governo, até ampliadas.

Roquette maravilhava-se ao ver que a rádio podia manter várias orquestras como a sinfônica, de câmara, de sopros e afro-brasileira; um quarteto vocal e outro de cordas; um conjunto de música antiga; um coral, um trio, vários duos e um fabuloso quadro de solistas. Os maestros responsáveis por eles chamavam-se Eleazar de Carvalho (regente do programa "Música para a juventude", que ficaria décadas no ar), Alceo Bocchino, Radamés Gnatalli, Guerra Peixe, Francisco Mignone, Iberê Gomes Grosso, Abigail Moura e muitos outros - a nata musical do Brasil. Roquette acompanhava também os concursos de orfeões promovidos pela rádio, somando às vezes mais de 700 vozes. Tudo aquilo nascera do seu pioneirismo.

Roquette gostava também de ver os programas educativos em forma de radioteatro e vibrava com os programas sobre literatura, poesia, teatro, cinema, folclore e jazz. Mas, provavelmente, o seu grande orgulho era saber que as aulas do "Colégio do ar", transmitidas diariamente em dois turnos durante o ano lectivo, contavam com milhares de alunos matriculados. Era o sonho feito realidade: o rádio como professor.

Nos seus últimos anos, a imagem de Roquette-Pinto, já enorme, cresceu às dimensões de uma lenda. E os que seguiam à distância as suas realizações nem imaginavam que, desde pelo menos 1935, qualquer movimento físico lhe provocava dores quase intoleráveis. Roquette passara a sofrer de espandilose – um processo degenerativo da espinha vertebral que o foi deformando aos poucos, curvando-o para a frente e impedindo-o até de virar o pescoço sem virar também o tronco. Era cruel que isso lhe acontecesse – logo a ele, que sempre convivera tão harmoniosamente com a sua saúde, seu corpo e a sua beleza.

Para combater a dor, Roquette habituara-se à aspirina, que tomava, não de uma em uma, mas às colheradas, várias vezes ao dia. Mas nada disso impediria que continuasse activo até ao fim. Às vezes, até desnecessariamente.

A Universidade do Brasil ia homenageá-lo com o título de professor honorário, a mais alta láurea universitária. Com quase 70 anos, Roquette subiu pela escada e chegou cansado ao andar onde se daria a cerimônia. O seu amigo, o cientista Carlos Chagas, perguntou-lhe por que não usara o elevador. "Sou um homem disciplinado". Respondeu Roquette. "O contínuo lá embaixo me disse que usasse a escada".

Roquette sofreu um derrame fatal no dia 18 de outubro de 1954, no seu apartamento na Avenida Beira-Mar, enquanto escrevia um artigo para o Jornal do Brasil. O apartamento em que insistia em viver sozinho, com os poucos aposentos, inclusive o banheiro, entulhados de engenhocas mecânicas que inventava para se divertir. Nem todas iriam funcionar e ele sabia disso. Mas as suas principais criações – Rondônia e a Rádio Ministério da Educação e Cultura – estavam mais vivas do que nunca.

E ele também sabia.



A matéria e o som com o extracto da entrevista é uma cortesia do Site da Rádio Mec 800kHz AM
http://www.radiomec.com.br/

Ouça um extracto de uma ENTREVISTA DE ROQUETTE PINTO (ACERVO DA RÁDIO MEC)

Leia A ENTREVISTA COM BEATRIZ ROQUETTE-PINTO BOJUNGA, filha de Roquette-Pinto



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