A rádio que não tocava música

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RÁDIO AMAZÕNICA, A RÁDIO QUE NÃO TOCAVA MÚSICA


Foto de pôr-do-sol na Amazónia


Avistei o Dr. Percy próximo ao acampamento, tinha um semblante sério e compenetrado no trabalho, muito diferente da pessoa afável e alegre que conheci havia 10 dias em Itaituba, estava visivelmente preocupado vindo ao meu encontro e perguntando logo:

- Fizestes boa viagem? Com sotaque característico dos Pampas não escondia sua origem gaúcha.

Antes que eu pudesse responder ou tomar um pou-co de fôlego, vendo o estado lastimável que me encontrava, completamente sujo e extenuado, carregando uma maleta de ferramentas e outra de roupas, olhou-me fixa-mente enquanto apontava para dois jovens e fortes índios e disparou:

- Eles não te ajudaram? Por que não carregaram suas coisas?

Só consegui balançar a cabeça em-quanto respondia para mim mesmo. Como não me ajudaram? Um carregou 20 litros de gasolina o outro suportou um rádio e sua pesada fonte. Tão logo perguntou riu abundantemente vendo o quanto eu suava. A figura sisuda se foi no lugar dela entrou um cicerone da selva convidando para entrar no “galpão”.

Depois de um breve descanso parcialmente refeito da minha longa caminhada, Dr. Percy um experiente geólogo olhava o relógio e ordenava:

- É melhor banhar-se logo, falta pouco para as 17:00 horas e em breve estará completamente escuro!

Quase ri, mas ele estava pleno de razão, quem não conhecia a densa selva Amazônica como eu nem imaginava que a altura das árvores ultrapassam facilmente os 60 metros, assim elas formam uma espessa cortina encurtando os dias e produzindo aterrorizantes lon-gas noites. Meu consolo foi que não haveria de faltar mastros de boa qualidade para amarrar antenas...

Naquele dia normal de mais de 40º C com umidade acima de 95%, no isolamento e solidão da selva paraense, fiquei imaginando quanto tempo duraria um rádio funcionando bem sob este clima e o quanto seria difícil e custoso mantê-lo assim.Se a pro-pagação ionosférica se mantivesse estável e permitisse uns 30 minutos de conversação diária, já estaria muito bom.

Itaituba, uma pequena cidade nas margens do rio Tapajós, distanciava do acampamento cerca de 9 horas de caminhada em trilhas invisíveis para urbanos, entre colinas total-mente cobertas pela espessa floresta úmida e quente,depois mais 2 horas de Cessna, Na cidade o escritório do Percy era espartano, uma pequena mesa, telefone que rara-mente a companhia telefônica fazia funcionar e um pouco de conforto gerado por dois enormes aparelhos de ar condicionado na mesma saleta, a custo de muito barulho faziam a temperatura baixar confortavelmente a 32 º C!

Lá no "campo" como dizia Percy nada destes confortos da cidade fazia sentido, o que ele mais lamentava era o facto de ficar 45 dias isolado na selva, depois 15 dias na ci-dade para fazer seus relatórios de pesquisa chegarem a matriz em São Paulo.

Fora isto o sonho era estar junto a recém formada família distante 14 horas de barco Tapajós abaixo em Santarém que oferecia mais facilidades como hospital, delegacia de policia, supermercado e três vôos semanais para a capital Belém.

17:30 e já completamente escuro, um jantar nos foi servido no cardápio anual constava arroz, feijão, farinha e carne seca, esta quase sempre de macaco.

Do fundo da mochila tirei uma cerveja e bolinhos de mandioca, ao vê-los Percy babou feito cão esfomeado, lamentando a falta de música para abrilhantar tão lauta refeição! "Mas nem um rádio você tem aqui neste cafundó?" Perguntei, ao que ele respondeu :

- Tenho mas não funciona, já procurei outro para comprar mas não encontrei em Santarém e muito menos em Itaituba aqui só pega ondas curtas.

Automaticamente lembrei-lhe que Ondas Médias têm alcance mundial a noite e lá naquele lugar a pelo menos 300 Km de redes eléctricas e outros aparelhos interferentes o ruído tenderia a zero. Pensei, "aqui deve ser o paraíso do DX, exceto pelos milhões de insectos que nos esperam do lado de fora da barraca."

O gerador ficava ligado apenas até as 20:00 horas, após o jantar peguei o receptorzinho do Percy para pelo menos fazer uma inspecção visual, afinal consertar e instalar rádio é o meu ganha pão. Não foi surpresa descobrir umidade no circuito impresso, bem como notar que alguém já havia tentado calibrar as bobinas.

Em poucos minutos uma valsa vienense enchia o ar e já estávamos conectados com o mundo! Que alegria ver todos aqueles rudes garimpeiros dançarem, na lama do "galpão"!

Alguns minutos mais e acabou a luz, ficou a BBC e a França Internacional disputando um espaço no dial. Agora era a minha vez de fazer perguntas, para começar eu não sabia a minha localização exacta, tampouco o Percy sabia,naquela época pré GPS Antes que começasse a falar Percy atalhou :

- Estou muito preocupado, você tem que instalar estes rádios o mais rápido possível, o “inverno” está começando e vai chover muito, daqui alguns dias, nenhum avião consegue pousar e vamos ficar isolados mais ou menos 6 meses.

Fiquei perplexo com tudo aquilo que ouvi e... cerca de meia hora depois choveu abundantemente até quase amanhecer o dia.

Ao levantar-me chamei o “Noé” e disse "Como você sabia que ia chover?" "Você não escutou o aru ontem?" Foi a resposta.

"Escutei muitos bichos na vinda e também uma cachoeira não muito distante, mas o que é aru?" Indaguei.” Noé” que riu fartamente, "não era cachoeira nenhuma são milhares de sapos gigantes coaxando antevendo a chegada da chuva!" Que satélite nada! A previsão do tempo é com os sapos agora!

Logo mais sob chuva fina comecei a instalar uma antena dipolo na pequena clareira onde fi-cava nosso acampamento, esta simples tarefa levou naquelas condições um dia todo. O teste ficaria para a manhã seguinte. Assim se sucedeu pontualmente as 07:00 horas o Manuel no escritório da cidade respondeu claramente meu curto chamado. Percy de longe veio correndo e disse : “Seu” Pereira nunca vi um rádio SSB falar tão claramen-te! Não imaginam pois os leitores a minha alegria, para aquele rádio de HF chegar ali e funcionar foram exactos 18 dias de aflição, numa jornada desde São Paulo, passando pelo Rio de Janeiro, Belém, Santarém, Itaituba e finalmente o acampamento.

No meio disto coloque extravio de bagagem pessoal, extravio dos rádios, além de ser roubado e ficar sem dinheiro se quer para um lanche! Naquele instante mágico toda preocupação desvaneceu, agora eu só pensava em sair o mais rápido possível dali! Enquanto isso Percy se deliciava com a nitidez da recepção, do outro lado Manuel na volta do cambio disse : "Tem uma pessoa que quer falar com você." Uma doce voz feminina perguntou :

- Bem você está me ouvindo?

Num misto de espanto e de terror soltando o microfone ao chão, murmurou :

- O que você está fazendo aí no escritório Júlia?

Repreendi-o que deveria apertar o "PTT" ao falar.Mais uma vez a pergunta :

- Bem você está me ouvindo? Tenho uma surpresa para você!

Percy ficou estático ao reconhecer a voz da esposa. Ele sem entender nada, pensava o que a esposa grávida estava fazendo no escritório a mais de 300 Km de casa? Por que empreender tamanho esforço sabendo que eu deveria ficar no mato ainda mais 35 dias?

De repente um choro de um recém nascido chegou até nós! Percy ainda mudo pode ouvir :

- Nosso filho nasceu hoje e está tudo bem conosco e estou em casa. Você me ouve?

- Eu sou pai!!! - Um grito ecoou na selva e por todo o mundo por onde a santa propagação permitiu.

Abraçamos e não contivemos lágrimas de alegria. Mais tarde expliquei que o "milagre", não passava de um simples acoplador telefônico que fazia a conexão do rádio com a linha telefônica no meio tinha um anjo que apertava o botão accionando a trans-missão e que ouvia tudo que se falava. O milagre até que foi fácil, impossível foi explicar por que Manuel,( que não sabia da gravidez da esposa de Percy ) deveria fa-zer a ligação para a matriz da firma e não para ela, depois dupla e feliz coincidência a primeira foi ter uma ligação telefônica de qualidade e a outra foi o nascimento.

Para minha grata satisfação os rádios que instalei, funcionaram muito bem por vários anos até o final da geo pesquisa. Departamentos do governo ( CPRM e Funai ) além de outras empresas da região mandavam e recebiam seus recados, pedidos e muitas vezes noticias, era comum o Manuel ler jornal do sul do país ( com uma semana de atraso ),. Era comum os usuários fazerem caminhadas de 2 dias para um simples efectuar um mero pedido. Assim foi nossa Rádio Amazônica a rádio que tocou uma música sequer em toda a sua curta e profícua existência!

Passados mais de 20 anos deste ocorrido, ainda tenho viva a lembrança daqueles mo-mentos de grande emoção vividos intensamente na solidão da selva. Agora compartilhado com vocês meus caros leitores.



Texto: J. GERALDO PEREIRA
Foto: Afonso Tadeu

Comentários

Lendo seu relato me imaginei no acampamento e a riqueza de detalhes me fez ver as arvores com mais de 60 metros e ouvir o aru.

Parabens pela sua coragem a pelo seu gesto, seu ganha pão, levando alegria as pessoas isoladas de todos.

parabens


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