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Por que o radiomadorismo vai morrer
Quando duas tecnologias permitem fazer a mesma coisa, uma do jeito mais fácil, outra do jeito mais difícil, a escolha econômica racional de todo ser humano é optar pelo que é mais fácil. Esta é a verdadeira razão pela qual o radioamadorismo vai morrer: porque é muito mais fácil contatar outras pessoas pelo telefone e pela internet do que pelo rádio.
Os critérios para "fácil" são vários: é mais simples, é mais rápido, é mais barato e é mais desburocratizado adquirir e usar um telefone celular do que um equipamento radioamador. O celular eu vou até qualquer loja, preencho o cadastro da anatel, pago e saio usando. O equipamento radioamador eu nem sei onde comprar, preciso fazer um curso, estudar uma linguagem esotérica, fazer uma prova, esperar uma licença... e pagar mais caro do que para adquirir um celular! Quem vai preferir o jeito mais difícil, mais complicado, mais demorado e mais caro quando há outra alternativa muito mais prática disponível?
Para "salvar" o radioamadorismo será necessário desburocratizá-lo, atualizá-lo e torná-lo atrativo para fazer coisas interessantes que não podem ser realizadas pelo telefone celular e nem pela internet, pelo menos não com o mesmo custo. E há pelo menos *uma* coisa que se encaixa neste perfil: a comunicação multilateral em deslocamento.
O radiomadorismo é uma verdadeira "sala de bate-papo virtual", aliás é a sala de bate-papo virtual pioneira no mundo! Não se pode conversar em grupo com baixo custo pelo telefone, e não se pode teclar na internet durante uma viagem de carro, barco ou uma expedição a pé. Este é o nicho de maior possibilidade de aproveitamento pelo radioamador.
Não faz muito sentido ter uma estação de radioamador em casa quando se pode conectar na internet com banda larga e fazer tudo que o radioamador faria, e além disso sem necessidade de cursos, provas, licenças e outros complicadores. O lugar da estação no mundo moderno deve ser o *automóvel*, e para quem curte trekking ou esportes junto a natureza o lugar do equipamento é a mochila.
Muita coisa útil poderia surgir em termos de serviços e redes de apoio mútuo, no bom e velho espírito dos pioneiros do radioamadorismo, se os *automóveis* viessem equipados com um radioamador. Enquanto as grandes montadoras não colaborarem com essa idéia, o que os radioamadores poderiam fazer seria instalar seus equipamentos em seus automóveis e começar a desenvolver uma rede de serviços especial para motoristas e viajantes. Utilidade sempre atrai público, sempre lembrando que a área também precisa ser desburocratizada e o acesso simplificado e facilitado.
Código Morse? Longas listas de códigos esotéricos? Provas e licenciamentos? Níveis de qualificação? O telefone e a internet não possuem nada disso, nem por isso são "terra de ninguém", e tomaram conta do mundo. O radioamadorismo NÃO irá desbancá-los nunca mais, e será morto por eles se não investir pesadamente nos únicos nichos onde tecnologicamente ainda faz sentido e onde pode produzir benefícios com vantagem sobre seus concorrentes.
Aos automóveis e mochilas, rápido!
Arthur Golgo Lucas
bio1968@ig.com.br