O "verdadeiro radiomadorismo" ou a reinvenção da roda?

Olhemos à nossa volta. Onde estão os desbravadoers de novas fronteiras, "indo audaciosamente onde nenhum homem jamais esteve"?

Nós não encontraremos mais desbravadores numa garagem do fundo do quintal, romanticamente emaranhados em uma porção de fios e parafusos, decifrando um manual raro em língua estrangeira e fazendo experiências com mais ou menos voltas em uma bobina. Isto seria reinventar a roda, algo totalmente desnecessário em uma época em que este conhecimento não é mais novo nem "esotérico", podendo ser adquirido em diversas livrarias, consultado nas bibliotecas ou aprendido em um curso profissionalizante.

Os desbravadores de hoje utilizam as tecnologias já bem conhecidas e difundidas, produzidas pelos desbravadores do passado, para ir além, muito além de onde os antigos pioneiros já estiveram. É assim que se aprimora a ciência, e é assim que evolui o cabedal de conhecimentos da humanidade.

Eu entendo a mágoa dos veteranos ao ver qualquer guri mal saído das fraldas fazendo e desfazendo na internet, conversando com gente de outros países pelas salas de bate-papo ou pelos "programas mensageiros", sem ter a menor idéia de como funciona toda esta parafernália. Quem muito sofreu para construir o próprio rádio e passou noites levando choques, furando os dedos e ouvindo zumbidos para finalmente fazer um contato muito chiado com outro entusiasta dedicado certamente não vê com bons olhos a posibilidade de simplesmente comprar seu rádio pronto e sair falando. *Parece* uma certa "desvalorização" de todo aquele esforço. Mas não é.

Foi o esforço dos pioneiros que nos trouxe a novas fronteiras, e foi a produção dos pioneiros que nos forneceu a base para nos tornarmos *novos* pioneiros. Não temos por que redescobrir a Lei de Ohm, nem nos sacrificarmos enrolando bobinas que podem ser adquiridas solicitando-as a uma loja por um número de referência. Não temos nem por que mexar na bobina, contrata-se um técnico para fazer os consertos. Afinal, técnicos sempre existirão para preservar este conhecimento e prestar-nos assistência quando necessário, liberando-nos para outras atividades que utilizem a tecnologia não como fim, mas como meio. Meio para quê? Para honrar a memória dos pioneiros, alargando mais e mais as fronteiras que eles abriram, produzindo *novos* benefícios.

Eu sou um dinossauro da era da informática: tive em mãos - e usei - um floppy disk com DOS 1.0 no tempo em que ainda fazia sentido chamar o disquete de "floppy", pois ele era realmente flexível, com largura de cinco polegadas e um quarto. Naquele tempo a memória RAM era medida em kilobytes, e a memória em disco em megabytes. Hoje isso parece piada, tudo foi multiplicado por um fator não inferior a mil, e a complexidade atingiu níveis impressionantes. Pois bem, naquela época nós *digitávamos* os joguinhos em assembler, copiando de uma revista, e os gravávamos em fita K7. Demorava cinco a oito minutos para carregar um joguinho na memória, e quando "dava pau" tínhamos que começar tudo do início novamente.

Se eu tenho saudade daquela época? Sim, claro! Ainda tenho meu TK82-C, com 2 kbytes de memória, expansíveis para incríveis 16 kbytes, teclado de membrana, BASIC residente, processador Z-80. O PC-XT veio depois disso, com seu poederosíssimo processador 8086 de 4,77 MHz. Comprei um PC-AT com modem de 2.400 bps, o dobro da velocidade usual na época, e navegava rápido como um foguete na bitnet, antiga rede concorrente da internet que hoje ninguém mais nem sabe que um diz existiu. Mas ninguém aqui imagina que eu ainda insisto em utilizar estes equipamentos, certo?

Meu computador atual era top-de-linha há dois ou três anos atrás, e hoje ruma em direção à obsolescência rapidamente. Mais um par de anos e ele estará realmente obsoleto, necessitando substituição. Mas eu não vou chorar por isso: vou pegar meu carro, dirigir até a loja de informática e comprar uma máquina mais poderosa, como há de requerer o futuro.

Minha pergunta é: haverá ainda alguém para conversar comigo por radioamador, no caminho entre minha casa e a loja de informática? E quando eu estiver fazendo trekking, ou acampando, ou navegando, e quiser bater um papo, eu poderei conversar com os amigos pelo rádio? Ou haverá somente meia dúzia de remanescentes ainda vivos, socados no fundo das garagens, enrolados em fios e bobinas, resmungando contra estes novatos que não conhecem a Lei de Ohm?

Arthur Golgo Lucas
bio1968@ig.com.br

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