Mudança de era

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Mudança de era


Com o MC275 fecha-se a era dos aparelhos clássicos, ou seja antes do transístor. A partir de 1968, o transístor toma o lugar das válvulas em quase todas as aplicações electrónicas. Mas vai produzir-se um milagre (dois mesmo) que vai impedir a morte definitiva das válvulas e conceber o panorama da alta fidelidade tal como conhecemos hoje.

Paradoxalmente não é nenhuma das grandes marcas clássicas a criadora desse fenómeno, mas duas empresas da era moderna.



Uma pausa


É o momento de compreender o panorama da alta fidelidade desta época, e a sua evolução. Os anos 40 / 50 - A década trágica, mas das ideias e do génio não é falso pensar ou dizer, que foi algures, entre os anos quarenta e cinquenta que as maiores descobertas e circuitos áudio nasceram. Referimo-nos à criação no sentido ideia, projecto, e não concretização, pois alguns desses esquemas só apareceram dez ou vinte anos mais tarde, quando a tecnologia possibilitou a sua realização.

A segunda grande guerra irá ajudar a definir o panorama. A Inglaterra e os Estados unidos são os únicos países, desenvolvidos tecnicamente, que não foram ocupados. Isto possibilitou um desenvolvimento do áudio profissional, melhor que nos países ocupados, como a França, ou muito envolvidos tecnicamente e socialmente como a Alemanha e a Rússia na guerra.

O desenvolvimento do radar nos anos quarenta, na Inglaterra, contribui para um conhecimento aprofundado do funcionamento em alta frequência das válvulas. Mas é sobretudo pós guerra que em Inglaterra e nos Estados unidos (pois não havia necessidade de reconstrução), que a pesquisa fundamental em áudio aumenta, e que as grandes descobertas se produzem.

Algo que deve ser salientado é o facto desses dois países possuírem revistas especializadas como a Wireless World e Audio Engeneering, que vão cristalizar e desenvolver os novos circuitos e distribui-los entre os entusiastas.

Assim desde 1946 a realimentação negativa permite aos aparelhos Leak atingir 0.1% de distorção à potência máxima e a todas as frequências, a partir do esquema Williamson que tinha saído na Wireless World.

Hoje em média não fazemos melhor neste parâmetro.

O circuito Unity coupled da McIntosh será desenvolvido durante esta época, e a carga catódica da QUAD / Bogen também. A ideia do ultra linear do Hafler está a nascer, a Partridge faz os primeiros transformadores de saída sectorizados de bobinagem complexa, e os principais inversores de fase de alta performance datam também desta época. Isto explica que no fim dos anos quarenta, a Inglaterra e os Estados Unidos, possuem um capital intelectual e tecnológico, que ultrapassa todos os outros países e que explica o domínio insolente, e sem partilha, do mercado do áudio (em amplificação), nas décadas seguintes.



Os anos 50 / 60 - A década da concretização, da criação da alta fidelidade moderna


A indústria do cinema falado, tinha oferecido aos Estados Unidos uma grande vantagem no desenvolvimento dos amplificadores. A invenção do radar pelos Ingleses, tinha dado uma vantagem no controlo das altas frequências (agudos) na amplificação. Graças a tudo isto (e mesmo mais) esses dois países estão prontos para passar ao estado industrial e começar a produzir aparelhos destinados ao público.

A Leak e a QUAD estão prontos em Inglaterra, e a McIntosh, Marantz e Harman Kardon estão prestes a fazê-lo nos Estados Unidos.

Os Americanos são mais ambiciosos e sonham verdadeiramente com o domínio tecnológico. Em contrapartida os Ingleses, mais pragmáticos, querem atingir a fidelidade musical. Duas escolas, duas maneiras de ver a vida, duas filosofias.

Um fenómeno desconhecido dos amadores, e que vai ajudar a supremacia dos EUA é a aparição na Califórnia de uma terceira escola, a escola Russa!

Nos anos cinquenta muitos dissidentes soviéticos emigram. Alguns deles são grandes especialistas na electrónica e no radar militar, um domínio onde os russos superam os americanos. Esses dissidentes mais patrióticos não querem colocar os seus conhecimentos ao serviço dos EUA, e decidem especializar-se em domínios civis, e alguns no áudio.

É assim que Yakov Aronov nasce em Los Angeles.

Os aparelhos feitos por este homem (poucos na realidade) são considerados como os Stradivarius dos Amplificadores a válvulas. São aparelhos muito complexos, com alimentações reguladas, e sistemas de compensação da distorção activos, que ultrapassam tudo o que tinha existido até essa altura.

É a verdadeira tecnologia do radar aplicada ao áudio. Mas como os russos são elegantes melómanos, os aparelhos soam divinamente bem e têm performances tecnológicas incríveis. Este fenómeno influenciará a evolução da escola americana que passará a incorporar a filosofia da escola russa.

Ainda hoje há nos EUA marcas feitas por russos que são os descendentes desta escola como BAT, CAT e sobretudo LAMM.



Os anos 60 / 70 - As válvulas morrem, o transístor nasce e o Single-ended renasce


É a década da transição, do apogeu e da morte. Desde o início da década o espectro do transístor já rodeia. A tecnologia industrial ainda não está optimizada, mas todos sabem que as válvulas vivem os seus últimos anos de glória.

A partir de 64 / 65 os primeiros amplificadores a transístores são comercializados. É um choque! Mais ligeiros, mais potentes, com menos distorção, menos calor e mais fiáveis teoricamente. As válvulas estão condenadas, e o pior é que a McIntosh, Marantz e Harman Kardon embraiam rapidamente no mundo do transístor.

Os japoneses estão no mercado desde a metade da década com marcas como a Sansui, Luxman e a Pioneer e oferecem uma luta dura a certas marcas ocidentais. Mas é do Japão que um fenómeno desconhecido e maravilhoso vai aparecer.

Desde o começo da década um grupo de amadores, iniciados e melómanos, enquadrados pela revista Radio Jitsu, duvidam da evolução do áudio. Consideram que a tecnologia já foi muito longe, e que a ciência não está a servir a música. Fazem marcha atràs e interessam-se pelos aparelhos dos anos 30 da RCA e Western Electric. Com novos componentes da época, escolhidos à escuta e novos transformadores de saída, irão provar que um velho tríodo como o 300B pode ser mágico. A single-ended desaparecida em finais dos anos 30 renasce trinta anos depois. Um milagre!

Estabelecendo um paralelo entre ciência, empirismo e escuta a escola audiófila Japonesa nasce e inventa a AUDIOFILIA, e nada mais será igual no futuro. Os artesãos (mestres) deste milagre são o Koïzumi, Anzaï, Asano, Hiraga, Tanaka, Kaneda,. Alguns destes ourives irão construir os single-ended mais perturbantes e vertiginosos da história, e elevar o áudio ao nível de arte.

Desde 1968 o transístor é rei e as válvulas desapareceram quase completamente das aplicações áudio. Em 1970, a tecnologia a transístores saboreia a sua Vitória total, mas cinco anos depois dois milagres vão, de novo, mudar o rumo da história.

A válvula tal a Fénix, renasce das cinzas.

Como foi dito anteriormente, no princípio dos anos setenta a missa está feita, a válvula está morta e o reino do transístor é total. Mas (há sempre um mas...) uma empresa vai ser criada nesse ano que modificará, com a ajuda (involuntária) de uma outra, a face do áudio a válvulas.

É de notar que nessa época há um stock de válvulas e de componentes para estas últimas nos EUA, gigantesco e que ninguém quer, pois está considerado como obsoleto. É o momento de fazer coisas extraordinárias comprando os componentes mais baratos.

O Bill Z. Johnson percebeu isso, e aproveitou a ocasião para concretizar a sua utopia, ou seja, fazer o maior aparelho a válvulas da era contemporânea e um dos maiores de todos os tempos.

Em 1975 o Audio Research D79 nasce e cria um dos maiores choques do mundo do áudio. A reacção do público é imediata, este é o maior amplificador de sempre.

Mas no momento em que o D79 sai dois funcionários do Banco Federal americano (Lewis Johnson e Bill Conrad) criaram uma pequena empresa e trabalham num projecto similar, mas com uma filosofia diferente, que será apresentado em 1977, o Conrad Johnson MV75.

O público está estupefacto e dividido entre considerar o D79 ou o MV75 como os melhores amplificadores de toda a história do áudio. Desta divisão nascerá a expressão "irmãos inimigos" para falar destas marcas, e torna-se impossível para o público, bem como para os jornalistas, falar de uma sem citar a outra.

Estes "falsos gémeos" são os dois milagres de que as válvulas necessitavam para atingir a eternidade.

Em cinco e sete anos respectivamente, a Audio Research e a Conrad-Johnson eclipsam a McIntosh, Marantz e Harman Kardon do coração dos americanos.

Juntos atacam o transístor de frente e provam que a válvula ainda é a patroa em performance e sobretudo em reprodução musical.

Este fenómeno irá incentivar outros construtores para continuarem na via das válvulas, ou para se lançarem na aventura.

Os seguidores são conhecidos, ou seja, a Manley, Beard, Michaelson & Austin, VTA, etc. A válvula acaba de atingir a sua vingança última, ou seja renascer em mestre, e no princípio dos anos oitenta a sua reputação musical praticamente eclipsa completamente a do transístor. A historia acaba por mudar de rumo de novo, as válvulas renascem, e este fenómeno explica o respeito eterno que os jornalistas, público e melómanos têm (ou devem ter) em relação à Audio Research e à Conrad-Johnson.

Excepcionalmente serão analisados os dois em alternância para que se compreenda melhor o que os une, e o que os separa.



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