Lisboa antiga

Separadores primários


LISBOA ANTIGA



Poema: José Galhardo e Amadeu do Vale
Música: Raul Portela
Primeira Gravação: 1952

Lisboa, velha cidade,
Cheia de encanto e beleza,
Sempre a sorrir, tão formosa,
E no vestir, sempre airosa.
O branco véu da saudade,
Cobre o teu rosto linda princesa.

Olhai, senhores,
Esta Lisboa d’outras eras,
Dos cinco réis, das esperas,
E das toiradas, reais.
Das festas,
Das seculares procissões,
Dos populares pregões matinais,
Que já não voltam mais.

Comentários

Gostaria de saber o significado de "das esperas" da parte da letra.
"Esta Lisboa d’outras eras,
Dos cinco réis, das esperas,
E das toiradas, reais."
Obrigado.
Paulo

"Das esperas" dos touros. A tradição das "esperas" remonta ao século XIX, com a abertura da Praça do Campo de Santana (Mártires da Pátria). Os touros entravam em Lisboa pela Calçada de Carriche, seguiam depois pela antiga Estrada do Lumiar até ao Campo Grande, passavam pelo Campo Pequeno (ainda sem praça de touros) e percorriam a Estrada do Arco Cego até Arroios, para subirem de Santa Bárbara ao Paço da Rainha e chegarem ao destino. Pelo caminho, "esperavam-se os touros". Outro percurso estava relacionado com a partida do gado do Tourel (junto ao actual jardim no topo do Campo dos Mártires da Pátria) e, depois, do Mercado (em Entrecampos), para o Matadouro Geral, que ficava em Picoas-Saldanha.
Está tudo ligado a modos de vida profundamente reaccionários, nem sequer característicos da "Lisboa antiga" -- antes a manifestações de uma certa fidalguia que pretendia manter os privilégios feudais. As "esperas" originais, por exemplo, tiveram origem nas touradas patrocinadas por D. Miguel, que cedia os touros da ganadaria pessoal às corridas na praça do Campo de Santana.

E os "cinco réis"? Desculpem-me se for extremamente óbvio, mas sou brasileiro.

A expressão cinco réis remete para a unidade monetária da monarquia, o Real (com o plural, réis), que prevaleceu na linguagem popular, depois da implantação da República, em 1910, quando se criou o escudo, com a correspondência de 1/1000. Assim, ao longo do século XX, quando o dinheiro se media em escudos (e um escudo era igual a "mil réis"), não era raro encontrar-se gente que continuava a usar os "réis" na linguagem quotidiana, às vezes até com uma certa ironia: mil réis representavam muito pouco dinheiro, apenas um escudo; "cinco mil réis", cinco escudos; dez mil réis, dez escudos, etc.
Para ter uma ideia, no final dos anos de 1960, um escudo (ou dez tostões) permitia apenas comprar dez rebuçados de tostão ou apenas duas "chicletes" Pirata. Um chocolate Favorita, pequeno, já ia para os dois escudos e um gelado Rajá podia chegar aos dois escudos e cinquenta (ou 25 tostões ou 2 mil e quinhentos... réis). O actual Euro, ao qual correspondeu uma conversão de pouco mais de 200 escudos, poderia, nessa medida, representar então algo como cerca de "200 mil réis".
Assim, a expressão "cinco réis" significa algo infinitamente pequeno: cinco milionésimos de um escudo; cinco centésimos de um "tostão" (que era igual a dez centavos, dez partes de um escudo); cinco partes de um centavo. A expressão "cinco réis" era assim usada para qualificar algo ou alguém muito pequeno ou muito insignificante -- "cinco réis de gente", "cinco réis de nada", etc...

Muito boa a explicação, gostei!

José Lopes


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