
Acabo de tomar conhecimento do falecimento do nosso colega e amigo António Magno Máximo dos Santos cuja voz se fazia ouvir através dos microfones da sua estação que tinha por indicativo CT1NK.
Há cerca de um ano, num dos contactos que habitualmente fazíamos na banda dos 40 metros tinha obtido o seu consentimento para publicar uma modesta crónica em que invocava parte do seu percurso radioamadorístico como resposta a vozes que se ouvem, por vezes, a denegrir os amadores da velha guarda.
Como consequência dum pedido duma finalista dum curso de Psicologia que quis ouvir a minha opinião sobre criatividade, ocorreu-me designar a crónica acima referenciada com o título “Os Radioamadores e a Criatividade” na qual incluía factos de grande relevância ligados às comunicações e dos quais foi protagonista o colega e amigo Santos.
Protelada que foi essa oportunidade, venho agora, em sentida homenagem, evocar esta figura que nos deixa, em parte, porque a sua voz forte, com acento algarvio, ficará no subconsciente de quantos tiveram a satisfação de a ouvir nas bandas de amador.
É claro que nos tempos idos em que se fabricava um emissor a partir duma lata de bolachas não existiam as possibilidades económicas de agora e, por muito que se menospreze e até ridicularize esta época, a verdade é que se aprendeu muito em obediência à máxima "saber é fazer".
Desta asserção, como prova do seu valor, fica o engenho do CT1NK a quem vamos encontrar na década de 60 como 1º sargento do exército destacado em Cabinda durante a guerra colonial, com o indicativo CR6GV (gato vadio). A condição de militar afastado do torrão natal e da família e a incerteza no combate numa guerra cínica, de guerrilhas, multiplicou-lhe a necessidade de comunicar…de sair do isolamento da floresta…de extravasar as angústias comprimidas no espírito dum soldado.

Foi respondendo a uma sua chamada geral que um dia lhe respondi a partir da minha estação móvel CT1APA e ouvi uma prolongada risada entrecortada dum pigarrear emocionado :
- Mas não é possível! Eu não estou a sonhar? Eu estou mesmo a comunicar com uma estação móvel em Santarém?
Tinha razão o Santos para tanta euforia. Este comunicado firmava e confirmava a sua competência técnica e o espírito criativo que não admitia nem a inércia de quem não tem isto ou aquilo nem a passividade morna de quem, pelo trabalho dos outros, se entrega a uma preguiça mental geradora de envelhecimento prematuro.
Em Cabinda não havia nada que pudesse servir os mais limitados desígnios de um radioamador, por isso, o Santos substituiu os isoladores de antena por garrafas de cerveja. Cabo para antena... Nem pensar. Utilizou o arame farpado para fazer dipolos e... pasme-se, uma antena cúbica quadrada de dois elementos feita com o mesmo material e alimentada com fios retorcidos retirados duma velha instalação eléctrica.
Na descrição da sua estação dizia com grande sentido de humor que das várias marcas de rotores de antena que havia por lá à venda, se tinha decidido por um bambu que enfiava num batoque dum barril que estava enterrado junto dos estúdios . As fotos que me enviou há mais de 40 anos, se bem que de má qualidade para os tempos actuais, são elucidativas, destacando-se dos equipamentos um receptor do serviço oficial que esporadicamente era usado como ondâmetro .
A rusticidade da secretária diz da rusticidade dos equipamentos e das condições em que foi possível fazer funcionar uma estação de radioamador cujo operador gerou empatia comigo e com outro colega americano veterano de guerra que idealizou um sistema retráctil para poder usar os seus equipamentos na cama do hospital onde se encontrava incapacitado fisicamente.

Durante alguns anos, e de Cabinda, o Santos foi o paradigma do radioamador português pela conduta irrepreensível e afabilidade com que esteve entre nós, legando-nos o valor da persistência quando inteligentemente aplicada na prossecução dos projectos de cada um.
Por ele peço um minuto










Comentários
Re: 1 minuto por CT1NK
Decorriam os anos 70, quando recebo a agradavel visita do amigo SANTOS, de imediáto convida-me para o acompanhar a Espanha, e no regresso porque talvez fosse portador dumas coisitas que os verificadores entenderam ser por mal "o que eu conhecendo bem aquela cambada" nem vi nada de mal em tudo, e que eu não soluciona-se com uma nota de 100$00.
Deixou-me em casa "creio era um mini" despedimo-nos, falamos algumas vezes nos 40m, colocou-me o seu QTH á disposição, mas nunca mais nos encontramos, com a triste noticia, apresento condolençias á familia e que sua alma tenha a paz eterna.
Submeter um novo comentário