Arquivo criativo com sons históricos da rádio

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27.10.2007 - 09h10 Ana Machado
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1308916

A RTP prepara-se para lançar um arquivo criativo com sons da rádio, de acesso livre.
O projecto, inspirado em experiências semelhantes da BBC, em Inglaterra, ou da Rádio Pública Nacional norte-americana, colocará on-line e de forma gratuita, sons hoje inacessíveis aos cidadãos e que representam momentos únicos da história portuguesa desde os anos 1930.

Estamos em Junho de 1961. No cais da rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa, a multidão reuniu-se para ver partir um dos primeiros contingentes de soldados
a partir para a Guerra Colonial. Há fanfarra, hino e ambiente de festa. O repórter lança-se no seu discurso, previamente revisto, onde fala da grandiosidade
do império e do céu azul na partida, despedindo-se com um “boa viagem rapazes e até breve”. Mas o microfone da rádio, que não obedece a ordens, não conseguiu
fazer calar os gritos de dor de mulheres e mães que se ouvem de fundo, ao longo de toda a reportagem.

Inês Forjaz, jornalista da RDP, uma das responsáveis pelo projecto do arquivo criativo, revela que são fragmentos de história como este que o arquivo da
rádio guarda e que deviam ser acessíveis ao público em geral, lembrando que, hoje, a UNESCO celebra o Dia Mundial do Património Audiovisual, que é preciso
preservar.

Há dois meses que Inês “vive” nos arquivos da rádio: “Tenho pena de não ter quantificado quantas horas já passei a ouvir sons”. E tem um “caderninho de
mercearia” onde apontou todos os tesouros que foi apanhando. São muitas histórias e muitos sons que a jornalista, juntamente com Eduardo Leite, responsável
pelos arquivos da rádio, e António Almeida, autor da plataforma informática do projecto, querem agora tornar disponíveis ao público em geral. “Encontrei
autênticas revelações históricas”.

Para os autores do projecto não se trata apenas de disponibilizar ficheiros de som, muito menos de uma forma exaustiva: a plataforma, que ficará alojada
no portal da RTP, alojará de início talvez não mais de dez exemplos de sons considerados simbólicos dos acontecimentos mais importantes da nossa história
do século XX, que também é o século da rádio: “Vamos dar prioridade aos primeiros anos da rádio, desde 1936, que correm o risco de ficarem esquecidos”.

Os sons serão ainda devidamente acompanhados, sempre que possível, do contexto em que foram captados e do contexto histórico em que estão inseridos. E
a intenção é que a lógica deste arquivo criativo seja bidireccional: “Imagine-se que um cidadão ouve um som do arquivo e que até tem lá uma bobines em
casa que quer partilhar. O objectivo é que haja um fluxo bidireccional”, explica Inês Forjaz que espera que sejam os utilizadores, nos primeiros tempos,
a sugerir os temas que gostariam de ver ali disponíveis. “Para um professor de português se calhar interessará apresentar Camões aos seis alunos dito por
Vasco Santana”.

A questão dos direitos de autor, que o grupo classifica como “pantanosa”, está a ser resolvida com recurso a licenças Creative Commons, que permitem a
utilização livre dos sons para fins não comerciais.

Eduardo Leite afirma que a palavra-chave do projecto é partilha. E que a intenção subjacente a este arquivo criativo toca na intenção do Governo, já expressa
pelo secretário de Estado da Cultura, Mário Vieira de Carvalho, de criar um arquivo nacional de som, inexistente em Portugal, apesar do grande investimento
que a rádio pública fez nos últimos anos de passar o seu espólio para um formato digital mais moderno e fácil de conservar.

O projecto deste arquivo criativo, que ainda não tem data de arranque, terá um período experimental de seis meses. E será construído, como avançam os seus
mentores, de acordo com as sugestões que forem sendo lançadas pelos utilizadores.

Comentários

Vou ficar à espera para ouvir se o produto final supera as espectativas deixadas pela promoção.
A todos um grande abraço
Nuno Miguel

A todos um grande Abraço!
Nuno Miguel


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