logo
Publicado em AMINHARADIO (http://www.aminharadio.com/radio)

Morte definitiva do museu da rádio

Por aminharadio
Criado 02/01/2008 - 21:42
Concretizou-se no fim do ano que passou um crime contra a memória da rádio que já se anunciava desde meados de 2004: A morte definitiva do museu da rádio da RDP. Rogério Santos, autor do blog Indústrias Culturais [1] é o portador de tão más novas. Neste post [2] fala-se da concretização deste crime cultural, da destruição de um dos mais importantes museus da rádio do mundo, da colocação de um espólio com peças únicas numa garagem, da destruição do edifício, provavelmente para dar origem a um moderno mamarracho que alojará um banco ou um centro comercial. Passaram 3 anos desde o anúncio da morte do museu e, mais uma vez, a tradicional vontade e forma de actuação dos nossos políticos cumpriu-se. Deixou-se assentar a contestação, os protestos cartas e petições. Já tudo estava (estaria?) esquecido e, de repente, a notícia, crua do fim definitivo.

Cronologia dos acontecimentos/h3> No dia 1 de Maio de 2004 o jornal “O Público” noticiava o desmantelamento do museu da RDP. Levantava-se a suspeita de interesses imobiliários. No dia 2 o blog de aminharadio.com publicava o seguinte texto: “O que se narra abaixo corre o risco, caso se torne verdade, de ser um enorme atentado contra a rádio e a preservação da sua memória. E esse atentado será feito em Portugal, um país da Europa que se diz civilizado, moderno, democrático, respeitador da sua história e do seu passado. Uma notícia do jornal "O Público" dá conta que «A Administração da RTP Rádio e Televisão de Portugal SGPS deu ordens para reclassificar o acervo do Museu da Rádio, que existe desde 1992 e está alojado num palacete do século XVIII situado no número 21 da Rua do Quelhas, em Lisboa. Parte da colecção deverá ter por destino o Museu das Comunicações, em Santos-o-Velho, mas a falta de espaço disponível poderá ditar o armazenamento, a venda ou mesmo a ida para a sucata da maior parte das peças que desde há mais de uma década estão expostas ao público». É obrigação de um país preservar a sua memória. Só assim se pode perceber o presente e prever o futuro. Um país sem memória está morto, é nada, não tem alma. E sendo um museu uma prova viva do passado, quando se fecha algum deles é como se retirasse um pouco de vida, como um pedaço da sua história fosse arrancado ao presente. A confirmar-se esta intenção do governo, porque é o governo quem manda na RTP, será uma vergonha para um país que tem feito pouco pela cultura, pela preservação do passado, um país que não tem qualquer consideração pelos seus cidadãos nem gosto pelo futuro. Enquanto cidadão eleitor, contribuinte e pagante de uma taxa de radiodifusão manifesto aqui a minha revolta e indignação. Sugiro que se criem formas de evitar este disparate próprio de burros e analfabetos para quem tanto equipamento acarinhado durante tanto tempo não tem qualquer valor. Para que não existam dúvidas sobre a veracidade do facto, segue abaixo a notícia do jornal "O Público": Início da notícia: Acervo do Museu da Rádio em Risco Por CLARA TEIXEIRA Sábado, 01 de Maio de 2004 A Administração da RTP-Rádio e Televisão de Portugal SGPS deu ordens para reclassificar o acervo do Museu da Rádio, que funciona desde 1992 num palacete do século XVIII situado no número 21 da Rua do Quelhas, em Lisboa. Parte da colecção deverá ter por destino o Museu das Comunicações, em Santos-o-Velho, mas a escassez do espaço disponível poderá ditar o armazenamento, a venda ou mesmo a ida para a sucata da maior parte das peças que desde há mais de uma década estão expostas ao público. A intenção da administração da RTP SGPS, que gere a rádio e a televisão públicas, foi transmitida aos funcionários do Museu da Rádio, tutelado pela RDP, pelos membros de uma comissão instaladora criada para estudar a ideia inicial de juntar, num único local, um futuro museu da rádio e da televisão. O aparente abandono desse projecto, e a sua substituição por um espaço dedicado à rádio no Museu das Comunicações, está a levantar preocupações entre os funcionários, alguns dos quais afirmaram ao PÚBLICO desconhecerem que peças irão continuar expostas, quais os critérios que irão presidir à selecção e em que condições de conservação irá a parte restante da colecção ser armazenada. Antes da abertura em 1992 do Museu da Rádio, foram gastos sete anos na reabilitação de peças museológicas da extinta Emissora Nacional e do antigo Rádio Clube Português, muitas delas danificadas ou completamente destruídas pelas deficientes condições de armazenamento a que foram sujeitas após o 25 de Abril. De acordo com a informação obtida pelo PÚBLICO, a administração da RTP terá ordenado a divisão da colecção do Museu da Rádio em quatro grupos: um primeiro com as peças consideradas históricas destinadas a exposição, um segundo com as reservas (susceptíveis de substituir as históricas), um terceiro com as peças alienáveis e, por fim, um quarto com a parte do acervo que, não se enquadrando nos requisitos anteriores, terá por destino a sucata. Esta última decisão está a causar um incómodo particular entre os funcionários, que se mostram cientes do valor da colecção entregue à sua guarda. O Museu da Rádio da RDP, que resulta de um projecto iniciado no antigo RCP na década de 60 - através do lançamento de uma campanha de oferta de receptores -, reúne "uma das mais significativas colecções existentes na Europa", composta por milhares de receptores, equipamentos de registo sonoro, de emissão, suportes de gravação e microfones, segundo informa a sua página na Internet. Entre as peças mais valiosas, encontra-se um dos dois únicos altifalantes de excitação datados de 1924 ainda existentes - o outro pertence ao Museu da Radio France, em Paris - e um dos primeiros gravadores AEG de fita magnética produzidos a nível mundial. O acervo do Museu da Rádio ocupa 20 salas no edifício da Rua do Quelhas e pode ser visitado gratuitamente. O espaço de exposição, os anexos e as caves ocupados pelo Museu apresentam uma área total de cerca de dois mil metros quadrados, não sendo ainda do conhecimento público o destino que a administração da RTP vai dar ao imóvel, depois de retirado o seu conteúdo. Apesar das várias tentativas feitas pelo PÚBLICO junto da administração da RTP, não foi possível obter um comentário sobre as decisões tomadas sobre o futuro do Museu da Rádio. Fim da notícia Estejam atentos a este blog, serão dadas notícias sobre este crime contra a rádio.” No dia 12 de Maio, dia dos museus, o blog publicava o seguinte post: “No dia de hoje, 12 de Maio, o Museu da Rádio da RDP faz doze anos de existência. Parece que a "prenda" desta pequena longevidade é o seu desmantelamento! O Museu de que se fala tem cerca de cinco mil peças como acervo, que se estendem por cerca de dois mil metros quadrados e um número de visitantes anuais à volta dos doze mil. Este conta com uma das mais significativas colecções existentes na Europa, composta por milhares de receptores, equipamentos de registo sonoro, de emissão, suportes de gravação e microfones. O museu possui ainda um valioso núcleo documental composto por monografias, publicações periódicas, fotos, etc. O Museu foi a concretização de uma ideia de José do Nascimento que, na década de 60, a apresentou à Rádio Clube Português. Desde o primeiro momento o projecto contou com o apoio da direcção da emissora, que lançou uma campanha de recolha de receptores. A Emissora Nacional aliou-se à ideia e comprometeu-se a isentar do pagamento de taxa os aparelhos doados à RCP. Esta ideia não seria colocada em prática na altura devido à falta de espaço, mas todo o material recolhido foi preservado, nem sempre nas melhores condições. Em 1992, depois de mais de 7 anos de trabalho na recuperação de muito deste material maltratado, era inaugurado o Museu da Rádio, em instalações da RDP situadas em Lisboa, na Rua do Quelhas 21, onde antes se situava a Emissora Nacional. Agora, 12 anos depois, o museu corre o risco de perder grande parte do seu acervo, pior ainda, de ver muitas destas peças de inegável valor irem parar à sucata, como foi publicado no "O Público" de 1 de Maio e cuja notícia os principais sites e blogs dedicados à rádio em Portugal fizeram eco. Por este motivo apelamos à sua consciência cívica e pedimos-lhe, todos nós que amamos a rádio, que manifeste o seu protesto enviando uma carta à administração da RTP – Rádio e Televisão de Portugal, pedindo que tal crime contra a memória da nossa rádio não se perca numa amalgama de ferros. Por favor, leia todos os pormenores em: (url já desactivado) E depois… faça uma visita ao Museu da Rádio: O museu funciona de Terça a Sábado das 10 às 17 horas. A entrada é grátis. Se não o poder visitar, faça-o virtualmente através do endereço: http://www.rdp.pt/geral/museu/index.htm Ajude a preservar a história do mais importante meio de comunicação: A Rádio!” No dia 18 de Maio o mesmo blog colocou on line uma carta e uma petição para ser subscrita por quem estivesse interessado em lutar pela preservação do museu. No post lia-se: “Comemora-se hoje o dia internacional dos museus. O mais provável é que este dia passe despercebido à maioria da população portuguesa, pouco habituada a visitar estes espaços que servem de residência à nossa memória. Em boa verdade têm sido poucas as iniciativas para atrair visitantes aos museus: os hábitos culturais são poucos e não será com museus fechados para obras que se arrastam por uma eternidade, horários incompatíveis ou mesmo encerrados aos fins-de-semana e feriados, que se motivará a população a visitar estes espaços. Este post pareceria fora do contexto se não fosse a lembrança, também neste dia como em todos os outros, do crime contra a memória da rádio, que se prepara com a transferência do espólio do Museu da Rádio para o Museu das Comunicações, obrigando a que, por falta de espaço, parte das peças existentes possa ir parar à sucata. Aproveite este dia para exercer um dever cívico: o de protestar contra a destruição da memória da rádio. Veja como pode ajudar a que a história do mais importante meio de comunicação não se perca no endereço: (url já não existente) Aqui há uma carta que poderá enviar à administração da RTP – Rádio e Televisão de Portugal e ainda assinar uma petição que, caso tenha um número significativo de subscritores, será enviada à entidade que tutela o Museu da Rádio. Mesmo que não tenha tempo ou vontade de, hoje, visitar um museu, por favor, ajude a salvar um deles – o da Rádio. E pode fazê-lo sem sair de casa!” Nos meses seguintes os principais blogs ligados à rádio, jornalismo e comunicação fizeram eco desta notícia e promoveram a petição on line. A petição esteve disponível durante 2 meses e teve 110 subscritores. Depois as vontades foram arrefecendo e o esquecimento ocupou a rotina do dia-a-dia. Passaram 3 anos e agora a notícia refere o acto consumado. É triste quando um país não tem respeito pela sua memória e quando não se tem memória, não se tem presente e, muito menos, futuro. Ao longo do século passado quantos discos, filmes, livros, documentos de toda a espécie, não foram destruídos, por incompetência, deslexo, fanatismo, etc? Bem, ao que parece, o novo século vai ser igual. Começamos da melhor forma!


Fonte:
http://www.aminharadio.com/radio/node/1200