A história da rádio segundo Álvaro de Andrade (parte 2)

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Álvaro Andrade
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Álvaro Andrade, também funcionário da Emissora Nacional e chefe de redação em Rádio Semanal à época, desempenhou o papel de crítico do cronista. Não seria melhor ele pedir aumento de salário diretamente ao presidente da Emissora Nacional?

No texto de 1 de setembro de 1970, Álvaro Andrade recordava nas páginas do Diário Popular a primeira estação de rádio a emitir com regularidade em Portugal, CT1AA. Na minha investigação, a estação emitiu entre 1924 e 1937. CT1AA pertencia a Abílio Nunes dos Santos, da família proprietária dos Armazéns do Chiado e vinha de experiências de fonia e radiofonia quando decidiu evoluir para a radiodifusão. Os Armazéns do Chiado chegaram a ter um secção de discos, que, certamente, eram publicitados pela estação. A programação era essencialmente de música clássica – ou séria, como se dizia então.

No texto publicado no Diário Popular, identificam-se os nomes dos locutores (ou speakers, como eram então nomeados): Adriano Lopes Vieira e Mário Garrido Pinheiro. O dono de CT1AA deixou de emitir, primeiro em ondas médias e depois em ondas curtas quando a Emissora Nacional, a estação pública, começou a emitir. Nunes dos Santos voltou às suas experiências de fonia e radiofonia, mais económicas e sem preocupações organizativas, solicitando anualmente autorização para essas atividades.

No dia 8 de setembro de 1970, o Diário Popular editava a sexta história da rádio segundo Álvaro de Andrade. No texto, combinaram-se as duas maiores paixões do jornalista – a rádio, ele que fora funcionário da Emissora Nacional nos seus primeiros anos, e o teatro, ele que foi um persistente organizador de eventos teatrais, dada a sua ligação orgânica aquela indústria criativa.

Álvaro de Andrade, ao recordar a sua intervenção juntando essas duas paixões, convidaria artistas e críticos a pronunciarem-se sobre a representação radiofónica da peça A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas, numa espécie de estudo qualitativo de audiências. A peça era interpretada por Alexandre de Azevedo, António Sacramento e Henrique de Albuquerque, belas vozes claras e das melhores de então – 1936. O crítico não encontrava muita diferenciação nas cenas, com pouca allure (que poderei traduzir por elegância) e vibração. Por exemplo, Alexandre de Azevedo não dava “duplo colorido às frases”. Isto é, como a peça só tinha vozes masculinas, graves, falhava a cor do espetáculo que outros tons podiam fornecer. Mesmo o bater de louças e vidros no começo da peça lembrava outra peça, envolvendo comensais velhinhos.

Em 15 de setembro de 1970, o texto de Álvaro Andrade versou sobre um cortejo regional folclórico. Já o Estado Novo dominava politicamente o país e António Ferro ensaiava as suas estratégias de arte e cultura popular a culminarem nas comemorações dos centenários de 1940.

Em 1938, ainda Henrique Galvão estava à frente da Emissora Nacional de Radiodifusão, a estação organizou o Grande Cortejo Regional do Campo Grande. Álvaro de Andrade contou três mil homens e mulheres, do Minho ao Algarve, representando os vinhedos, os pomares, as amendoeiras, o jaspe.

O desfile durou cerca de duas horas. Duas notas, a primeira para escrever o seguinte: à época, o Campo Grande ficava no extremo da cidade e era local de feiras e corridas de automóveis. Penso que, algum tempo depois, o Benfica funcionava num estádio de tábuas, antes de se mudar para as Amoreiras e se fixar na Luz, espaço depois ocupado pelo Sporting. Segunda nota: o desfile de quilómetro e meio de extensão lembra a atual marcha de Santo António, pela avenida da Liberdade abaixo.

Carros alegóricos, etnografia, orfeões e bandas de música faziam parte da reconstituição histórica, um dos objetivos do desfile, dividido em doze grupos. O jornalista destacou a representação da Estremadura, e de Lisboa, os pescadores da Nazaré, com um barco puxado a bois, e os campinos do Ribatejo. Álvaro de Andrade seria o organizador do grupo do Minho.

Na Emissora Nacional, começou a 24 de abril de 1937 o programa Meia Hora da Saudade. A sugestão partira de um ouvinte em Moçambique, no tempo em que Portugal tinha um imenso império colonial – a de pessoas que tinham familiares em África mas também na Madeira ou nos Açores poderem falar com esses familiares ou amigos deslocados. Era apenas meia hora por mês, mas tornou-se um programa muito popular. Ainda não havia estudos de audiências, mas a estação oficial (ou pública, como hoje se diz) recebeu muitas cartas de agradecimento.

No texto escrito por Álvaro de Andrade, homem do teatro e da rádio, o também jornalista, que escreveu até provecta idade (Diário Popular, 22 de setembro de 1970), conta várias histórias sobre o programa, a nível de receção do mesmo. Naquela altura, um aparelho de rádio era ouvido por várias pessoas, familiares e amigos, reunidos em círculo à volta dele, sem falar ou tossir sequer. Um ouvinte regulava os registos, isto, é os botões do complexo recetor, e todos se concentravam na luz do aparelho até ouvirem a voz do locutor pronunciar as 21 horas, o começo do programa. Notícias várias: a sobrinha que casou com um piloto, duas meninas a tocar piano para que o pai as ouvisse no interior africano.

Depois, a Emissora Nacional, embalada pelo sucesso do programa criado no tempo de Henrique Galvão como presidente da estação e que os sucessores António Ferro e seguintes mantiveram, abriu um programa orientado para os pescadores que estavam na frota da pesca do bacalhau (Hora da Saudade, e onde mães, filhas e amigos falavam nos estúdios da Emissora Nacional na rua de S. Marçal ou em estúdios improvisados em centros piscatórios do país), os emigrantes (em França e Montréal, Canadá) e, no começo da década de 1960, um programa para os soldados que faziam a guerra em África. Deste tempo, e com a apropriação televisiva, os soldados engasgavam-se e diziam “muitas propriedades” em vez de “muitas prosperidades”, ideia que se associa ao Natal e ao Ano Novo, e “até ao meu regresso”.

Mais de cem músicos faziam parte das orquestras da Emissora Nacional em 1938. Com emissões experimentais desde 1934, a partir de Barcarena, e emissões oficiais desde agosto de 1935, já na rua do Quelhas, 2, em Lisboa, a Emissora Nacional daria emprego a quase todos os músicos do país, dada a inexistência de uma orquestra sinfónica nacional desde a I República. António Joyce, que reerguera das cinzas o orfeão de Coimbra, fora generoso no levantar orquestras dentro da novel estação. Ele saiu pouco depois de entrar na Emissora Nacional. Henrique Galvão sucedeu-lhe, atribuindo-se-lhe uma frase sibilina sobre o seu antecessor: as notas musicais zangaram-se com as notas do banco. Galvão reduziu bastante a dimensão das orquestras, mas ainda permaneceriam cem músicos integrados no quadro da estação.

Havia oito agrupamentos (entre parêntesis, coloco o nome do maestro): grande orquestra sinfónica (Pedro de Freitas Branco), orquestra genérica (Pedro Blanc), popular (Wenceslau Pinto), câmara (Frederico de Freitas), salão (Wenceslau Pinto), sexteto A e B (René Bohet), quarteto (Luís Barbosa) e trio (Silva Pereira). Só a grande orquestra sinfónica tinha 85 elementos, apresentados com instrumentos e nomes no texto de Álvaro de Andrade (Diário Popular, 29 de setembro de 1970): primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, flautas, oboés, corne inglês, clarinetes, clarinetes baixo, saxofone, fagotes, trompas, trompetes, trombones e cuba, tímpanos, percussão, harpa e teclado.

O maestro Pedro Freitas Branco atingiria reconhecimento nacional e internacional durante as décadas de 1930 a 1950. O jornalista elencaria algumas das obras executadas pelo maestro, a quem dedicaria textos posteriores.

A Emissora Nacional dotava-se, deste modo, de instrumentos para criar gosto. António Ferro, que sucedeu ao intempestivo Henrique Galvão em 1941, dotou a rádio oficial (como se dizia à época) de novos instrumentos, como o Gabinete de Estudos Musicais e o Centro de Preparação de Artistas da Rádio, entre 1947 e 1948. De forma lenta – quase harmoniosa em termos de hoje – preparara-se a mudança de gosto: da música clássica para a música ligeira orquestrada. No final da década de 1960, um arguto jornalista, João Paulo Guerra, chamaria a esta produção de música ligeira de nacional-cançonetismo, matando o sonho de Ferro de elevar esteticamente a música ouvida pela população em geral e criar um novo gosto.

Na sequência de um artigo sobre Pedro de Freitas Branco (publicado em 29 de setembro de 1970), o jornalista voltaria a escrever sobre o diretor de orquestra, onde destacou a homenagem nacional ao maestro, que terminou com uma condecoração atribuída pelo presidente da República. No texto de 6 de outubro de 1970, ele recordaria uma das maiores digressões ao estrangeiro, ao Mónaco, onde dirigiu 15 concertos da “saison musicale” de 1938-1939. Reproduzo uma pequena parcela do texto sobre a orquestra e o maestro: “receberam do público escolhido e cosmopolita e da grande Imprensa, dos jornais e das revistas da especialidade, uma consagração que não pode nem deve ser esquecida”. Álvaro de Andrade destacara já o trabalho de Pedro de Freitas Branco num jornal diário de “pouca expansão” e em dois semanários radiofónicos.


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