História da rádio do Porto contada às novas gerações (I)

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História da rádio do Porto contada às novas gerações

Como eu gostaria de ser folhetinista como o grande escritor Camilo Castelo Branco, sigo a sua estratégia e escrevo aqui uma espécie de folhetim sobre a vida da rádio no Porto. Previno que nem tudo o que vou dizer em episódios sucessivos é absolutamente verdade, pois me permito a faceta do escritor que escreve um romance histórico. Falarei de pessoas, episódios e estruturas, esperando que gostem.

A primeira personalidade é o locutor António Laranjeira, de Rádio Porto. Em reportagem publicada na revista "Eletra", de 15 de dezembro de 1934, sobre Rádio Porto, ficamos [presente do indicativo] a saber que a estação teve (em 1927) estúdios na rua de Cedofeita, 293, com um emissor de 12 watts, antes de se fixar, na década de 1930, na rua dos Clérigos, 64. A programação era de gravações em disco (21:00-24:00), quase toda dedicada à música clássica. Laranjeira, o segundo locutor da estação, foi apresentado como possuidor de elevada cultura, logo intelectual, e com boa voz.

Não tenho detalhes pessoais e profissionais dele. Pela fotografia, surge-nos como homem maduro e muito aprumado. Certamente ligado a associações da cultura, com formação empírica de música, talvez exercendo uma profissão ligada aos serviços ou, até, liberal. Então, a rádio era um passatempo de tempos livres para promover a educação e a querer criar ou ampliar uma cultura de música séria ou clássica, a exprimir vontades de setores da burguesia a viver da indústria e dos serviços. A fotografia junto aos equipamentos, em especial o microfone, releva o interesse à época de realçar a tecnologia. Na verdade, a transmissão da voz e da música era ainda recente, primeiro experimentada por Marconi em 1901 e depois massificada pelos antigos soldados americanos que, após a I Guerra Mundial, instalaram os seus emissores nos Estados Unidos no começo da década de 1920. A Rádio Porto foi uma das estações pioneiras do país e optou por prolongar a cultura dos teatros e dos concertos em sala. Logo depois, outras estações optariam pela música popular, como fado e folclore, e pelas palestras a favor do Estado Novo.