História da rádio do Porto contada às novas gerações (III)

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História da rádio do Porto contada às novas gerações
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[a partir de elementos editados no livro "Os Microfones da Rádio", ]

Os seus detratores chamavam-lhe Micas Eletromecânica e até diziam que ela andava pelo estúdio da rádio com avental e chinelos. Não sou tão negativo quanto a isso, pois uma outra locutora do Porto, Olga Cardoso, do programa "Despertar", aparecia, por vezes, no estúdio da Renascença de roupão. Ela morava num andar e o estúdio era noutro. Tal dessacralizava a rádio, tornava-a mais popular e pragmática. Bem infelizes eram os locutores da Emissora Nacional que, mesmo em dias muito quentes de julho, se dirigiam aos senhores ouvintes vestidos de casaco e gravata, como se o mundo os visse nesse código de vestuário.

Sobre a Micas Eletromecânica vamos por partes. Primeiro, o teórico. Vladimir Propp estudou as personagens dos contos maravilhosos, e que nós encontramos na Branca de Neve, na Cinderela, nos contos dos irmãos Grimm e nos filmes animados do Natal e de agosto, com animais fofinhos como personagens. Cada história tem um herói, um ajudante, uma princesa, um agressor, entre outros. O meu folhetim não é bem como os de Camilo, Júlio Dinis ou Eça de Queirós, com paixões, traições e, sei lá, facadas e tiroteios, mas tem gente boa (como António Laranjeira), alguns quezilentos (como Rogério Russo). A Micas Eletromecânica não parecia muito inteligente ou assaz culta; talvez a coloque na posição de ajudante. Micas ou Miquinhas é o tipo de diminutivo ao mesmo tempo terno e suspeito, a fugir para o escárnio. Mas ela era a mulher do dono do Posto Emissor Eletromecânico e, por isso, com uma posição de destaque. Há uma história muito deliciosa, a ilustrar os seus conhecimentos linguísticos, mas que não conto agora, para manter o "suspense" dos folhetins. Talvez mais à frente se revele essa história de Laura Moreira, o seu nome verdadeiro. A estação publicitava-se como a voz do povo e a sua atividade produtiva inicial foi a reparação de recetores de rádio.

Numa notícia publicada no jornal "A Defesa", de 15 de abril de 1954, ela aparece ao lado do marido, a presidir a uma cerimónia de aniversário dos Emissores do Norte Reunidos. Há uma alusão à ausência de João Manuel Antão, que, contudo, mandou um telegrama. O jornalista levantou a dúvida. O grande mentor de A Voz dos Ridículos estaria a trocar, nesse momento, o programa de Portuense Rádio Clube para a Ideal Rádio, uma das estações do grupo dos Emissores do Norte Reunidos. Deixo um outro recorte, da revista "Rádio Nacional", num número de dezembro de 1953, que reporta o nascimento da RTP, a televisão portuguesa, e em cujo capital entrou, entre outros grupos e acionistas, os Emissores do Norte Reunidos, a que o Posto Emissor Eletromecânico pertencia.

Por isso, cessem de chamar Micas Eletromecânica a Laura Moreira. Ela, através da sua estação, foi acionista da televisão portuguesa. Isso de criticar quem andava de avental e chinelos é preconceito. Como é que se comportam as Cristinas Ferreiras dos programas televisivos da manhã?