História da rádio do Porto contada às novas gerações (VI)

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Recorte de "Rádio Nacional
Recorte de "Rádio Nacional
Recorte de "Rádio Nacional

Em 1940, celebravam-se os centenários de Portugal com uma exposição do mundo colonial, a fazer de conta que o país era um oásis face à Espanha derrubada por uma tremenda e sangrenta guerra civil e à Europa a ser devastada por uma das maiores e cruéis guerras entre povos. O ideólogo António Ferro propunha uma cultura harmoniosa em que a tradição se combinava com a modernidade, exibindo habitantes das depois designadas províncias ultramarinas como se fossem atores num museu ou dentro de uma montra. Na zona de Belém construíram-se edifícios para alojar os vários territórios a parecer um mundo ali plantado.

Mas o ensaio geral dera-se em 1934, na exposição colonial portuguesa no Porto. Aí, tiveram êxito Henrique Galvão e as forças vivas da cidade na sua organização. O Porto colocava-se na frente da mostra colonial, iniciando a narrativa de harmonia e progresso ampliada seis anos depois junto aos Jerónimos e Torre de Belém. No Porto, o local escolhido foi o Palácio de Cristal e no seu terreno montaram-se edifícios depois destruídos após o final da exposição.

Mas ficaria um edifício, o que pertencera à mostra de Angola, no local perto da atual biblioteca Almeida Garrett. A casa do colono serviria para hospedar o primeiro centro dedicado à Emissora Nacional, incluindo a antena que fazia chegar à cidade a programação ida de Lisboa. Eram poucas horas por dia, com música das diferentes orquestras da estação, palestras e programas como Meia Hora da Saudade e o início dos Serões para Trabalhadores. O emissor era muito artesanal, havendo mesmo entre os técnicos da estação quem o considerasse um trabalho de amadores. As grandes válvulas de emissão eram arrefecidas por água corrente e uma pequena vedação impedia que os técnicos se aproximassem, evitando o perigo de apanharem um forte e mortal choque elétrico.

Em Lisboa, a Emissora Nacional começara a emitir regularmente em 1934, acabando por ser inaugurada em agosto do ano seguinte. O emissor estava instalado em Barcarena, numa época em que ainda não havia por ali a urbanização desenfreada posterior. No Porto, os primeiros anos de radiodifusão nacional fizeram-se com audição muito má até à instalação do emissor nesse Palácio de Cristal (1940), seguindo-se a criação de estúdios na rua Cândido dos Reis (1943) e construção de edifício e antenas de transmissão em Azurara (Vila do Conde) (1954). Ao longo dos anos, algumas horas começaram a ser emitidas diretamente do Porto, o que exigiu a criação de uma equipa capaz de fazer programas. O responsável pelo Emissor Regional do Norte (Emissora Nacional do Porto) foi, entre 1940 e 1974, Rogério Leal, um dos mais importantes homens da rádio de sempre na cidade. O emissor autónomo no Porto foi inaugurado na parte final do mandato de Henrique Galvão como responsável da estação.

Rogério Leal fora escolhido pelo diretor técnico Manuel Bivar. Um elemento a refletir: se Henrique Galvão presidiu à exposição do Porto (1934) e foi nomeado presidente da Emissora Nacional (1935), António Ferro, responsável da exposição do mundo colonial em Lisboa (1940), seguiu-se-lhe à frente da presidência da Emissora Nacional (1941). Pareceu existir uma correlação direta entre exposições coloniais e liderança da rádio oficial (pública).

[recorte de "Rádio Nacional", 25 de agosto de 1940]