História da rádio do Porto contada às novas gerações (VII)

Separadores primários

História da rádio do Porto contada às novas gerações
Outra foto

Um folhetim tem personagens más. Eu, confesso, tive dificuldade em encontrar alguém com esse perfil. Mas descobri em Rui Vieira Peixoto Vilas-Boas, visconde de Guilhomil, com escritório na rua de Santo António, hoje 31 de janeiro, 176, uma figura detestável. Antes de avançar, lembro que ele foi avô ou bisavô de um antigo treinador de futebol do F. C. Porto e atualmente do Marselha, André de nome próprio, que pode ostentar esse título nobiliárquico.

Ora, o visconde de Guilhomil era fiscal do governo junto de estações de rádio, figura que o Estado Novo nomeava para controlar as empresas e reportar diretamente ao governo o que se passava dentro. No caso da rádio, era um censor. Mas ele não era muito habilidoso, pois não percebia nada de rádio e, aliás, ouvia pouca rádio. Dizem as más línguas que ele teria censurado obras de autores consagrados e até muito identificados pelo regime, por ignorância. Dois dos seus inimigos principais eram o proprietário de Ideal Rádio, Júlio Silva, e o locutor Alfredo Pimentel (para tornar mais apetecível a história folhetinesca, estes dois também não se podiam ver, pelo menos no tempo de afirmação profissional do segundo, logo configurando a ideia de rivalidade).

Abaixo, junto cópias de documentos (não completos) de análise do visconde, nos primeiros meses de 1945. Um era sobre o programa "Hora Inglesa", transmitido por Rádio Porto. Para Rui Vieira, tratava-se de programa de propaganda inglesa no final da II Guerra Mundial. Para justificar a sua discordância quanto ao programa, ele argumentou que outra estação queria emitir programas ditos culturais em língua francesa e alemã. Gosto particularmente da sua escrita manual, muito redondinha e de fácil leitura.

Outro documento revela a sua oposição aos programas de discos pedidos. As rádios cobrariam vinte escudos em dinheiro por cada pedido, tipo "a senhora A a viver na rua X dedica a próxima música ao senhor B, que vive na rua Z". Dois argumentos contra do visconde de Guilhomil eram a forma como se fazia a locução, com muitos adjetivos, e o modo como as estações lucravam com essas emissões, ele que lutava pela elevação do nível da radiodifusão. Este segundo documento já estava datilografado, a ilustrar a entrada da máquina de escrever no seu escritório, então uma grande inovação tecnológica.