História da rádio do Porto contada às novas gerações (VIII)

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Folhetins radiofónicos, relatos de futebol (mais hóquei em patins e volta a Portugal em bicicleta) e publicidade seriam três dos principais géneros da rádio. A publicidade não é propriamente um programa mas serve para manter as rádios comerciais financeiramente saudáveis.

Hoje, vou escrever sobre o desporto na rádio. Em regra, o futebol era uma modalidade transmitida ao domingo, hoje repartida pelos vários dias da semana por questões publicitárias, em especial na televisão. A programação ao domingo era marcada por três momentos: transmissão da missa (manhã), programa humorístico (A Voz dos Ridículos à hora do almoço) e relato desportivo (meio da tarde).

O futebol na rádio começou há cerca de 80 anos. Primeiro, com a transmissão em direto apenas da segunda parte. Temia-se que os espectadores não fossem ao estádio se o relato fosse transmitido pela rádio. Depois, seguiram-se etapas com relato completo, transmissão de vários desafios em simultâneo, uso de gravação para repetir os golos, admissão de locutores brasileiros a darem um toque sonoro distinto. Empresas foram constituídas, como Sonarte (de Artur Agostinho) e Produções Lança Moreira. No Porto, as diversas estações formaram também produtores independentes para explorarem a atividade, tornada muito rentável porque os anunciantes queriam associar-se. A Belarte fo uma dessas empresas.

Recordo aqui três homens, o primeiro deles Ilídio Inácio. Ido de Rádio Ribatejo (Santarém) ainda muito novo, fez rapidamente nome nos Emissores do Norte Reunidos, onde chegou a gerente de Rádio Clube do Norte. Ele foi responsável pelo teatro radiofónico da estação, onde fazia habitualmente o papel de galã, conquistando, por isso, muitas simpatias femininas. A sua entrada no futebol deu-se pela necessidade absoluta dos Emissores do Norte Reunidos terem uma secção forte de transmissões desportivas. Com a compra dos Emissores do Norte Reunidos pela Emissora Nacional em 1971 e o desaparecimento posterior pela nacionalização da rádio no final de 1975, ele tornou-se um produtor independente mais importante, com estúdios próprios e fornecimento de serviços à Rádio Renascença.

O segundo homem a recordar aqui é Nuno Brás, talvez o mais importante na rádio portuense no desporto. Ele concorreu a um lugar na Emissora Nacional em Coimbra, mas foi logo incorporado num lugar vago no Porto. A sua voz disputaria a das celebridades como Artur Agostinho ou Amadeu José de Freitas. Ele cobriu jogos das equipas nacionais e da seleção portuguesa de futebol, mas também hóquei em patins. Aqui lembro uma história bonita porque ilustra o nosso desenrascanço. Num dado ano, o campeonato mundial de hóquei em patins desenrolou-se numa cidade da Argentina. Quando ele chegou lá, a organização pediu-lhe uma verba inusitada para poder aceder ao pavilhão e relatar os jogos. Ele não tinha essa verba em dólares e pediu ajuda a Lisboa. Como as comunicações financeiras eram complexas então, ele pensou em alternativas, uma delas passando por instalar uma escada magirus dos bombeiros e observar de fora os jogos. Mas isso provou-se ser difícil: por estar longe não conseguia ver a identidade dos jogadores. A sorte veio de uma festa de receção aos jornalistas e relatadores, com um baile de tango. Aí, Nuno Brás revelou-se exímio dançarino, foi entrevistado pelos jornais locais como se fosse uma celebridade mundial e viu perdoado pela organização o pagamento da inscrição. Não sei se Portugal ganhou o campeonato, porque não pesquisei, mas o certo é que o locutor garantiu as transmissões para o nosso país.

António Trindade Guedes ligou-se ao futebol como jogador (treinado por Artur Baeta), treinador (Salgueiros, Coimbrões, Lousada) e dirigente (Coimbrões; presidente do Conselho Técnico da Associação de Futebol do Porto). Entrou para os Emissores do Norte Reunidos, onde fez o programa "Penalty" com o produtor Fernando Gonçalves. Em 1972, ligou-se a Artur Agostinho. Nesse ano, tornou-se produtor independente e criou o programa "Alvo", emitido diariamente às 13:00. Quando António Ribeiro Cristóvão assumiu a condução do desporto na Rádio Renascença passou a trabalhar com ele. Trindade Guedes seria o único jornalista de rádio presente na Taça Intercontinental de 1987. Noutro jogo de 1987, João Pinto, jogador do F. C. Porto, interrogado sobre a previsão do resultado entre o seu clube e o Bayern de Munique, respondeu com uma frase que ficou famosa: "Olhe, ó Trindade Guedes, prognósticos, prognósticos, só no fim do jogo". Conhecido pela marca TG, iniciais do seu nome, ele usaria métodos pouco convencionais para saber novidades, ao abordar os dirigentes desportivos quando estes iam à casa de banho. Autênticas emboscadas.

[recortes de "Jornal de Notícias", 18 de agosto de 1960, 20 de janeiro de 1968 e 1 de janeiro de 1970; capa de livro de Trindade Guedes]