Fechem as cortinas! Silêncio no estádio!

Separadores primários

Fechem as cortinas! Silêncio no estádio! Fiori Giglioti morreu

Texto: Eduardo Matarazzo Suplicy
In: O Regional online (www.oregional.com.br)

O poeta da bola, o homem que criou a linguagem do futebol que conhecemos, que “inchou” a nossa paixão pelo futebol, que disse que éramos os melhores do
mundo, e nos fez acreditar nisso porque também acreditava, que incentivou e formou os locutores das rádios brasileiras nos deixou na madrugada dessa quinta-feira,
aos 77 anos.

Ele tinha nome de flor: “Fiore Giglioti” em italiano quer dizer “flor-lírio”, ou “flor-de-lis”. Nasceu em Barra Bonita, em São Paulo, lugar onde o rio Tietê
é limpo e lindo, e os canaviais deixam no ar aquele cheiro doce de açúcar.

Tratava os companheiros de trabalho com afeto e qualquer repórter ou narrador queria ficar ao seu lado. Exigia que a profissão fosse respeitada, brigava
por condições de trabalho, defendia seus companheiros, conforme tantos testemunharam pessoalmente à sua colega de jornalismo Rose Nogueira. Cresceu e fez
todo mundo crescer.

E era também com muito afeto que via uma partida de futebol. Quem é que não se lembra da famosa “entrada” do Fiori? Era assim:

“Caríssimos senhores e senhoras ouvintes. Carinhosamente iniciamos mais uma transmissão de uma partida de futebol. Aaaaabrem-se as cortinas! O espetáculo
já vai começar!”...

Fiori Giglioti é conhecido também por ter sido um dos jornalistas e radialistas que mais souberam usar o rádio, considerado o mais criativo meio de comunicação
de massa. É que o rádio depende da imaginação de cada ouvinte.

Uma pessoa num só lugar fala para milhões. Cada uma delas “visualiza” a narração. É um grande exercício que mistura a nossa parte racional e emocional.
Por isso, é chamado de “meio quente”.

Fiori Giglioti esquentou o rádio mais ainda. São frases suas:

“O tempo passa!”... - quando os jogadores enrolavam em campo.

“O tempo tenta passar, mas não passa” - quando enrolavam mais ainda.

“Agüenta, coração!” - ele gritava para a preparação de cobranças de faltas ou pênaltis.

“Gol! Gol”. Gooool. Uma beleeeeeza de gol!” - e dizia o nome do jogador várias vezes.

“É fogo, torcida brasileira!” - quando alguém perdia uma oportunidade, ou quando ficava na expectativa de mudar o placar.
Fiori Giglioti foi o jornalista que mais cobriu Copas do Mundo: foram 10. Não se sabe de outro igual no planeta. Era tão querido, tão amado, que foi campeão
em outra coisa: recebeu 162 títulos de cidadania.

Alegre, foi o inspirador da Rádio Camanducaia, um programa de humor sobre o futebol que contagiava qualquer paulista.

Começou a trabalhar ainda muito jovem na Rádio Bandeirantes - “desde o tempo da rua Paula Souza”, gostava de esclarecer. Depois passou para a Tupi. E brincava
com isso: “dos baixos do Tamanduateí para os altos do Sumaré”.

Em seguida, foi para a Rádio Panamericana, que era especializada em esportes - e hoje é a nossa querida Jovem Pan.

Até o ano passado trabalhou na Rádio Record, cobrindo os jogos, comentando a partida, inventando um jeito de falar muito rápido para que o torcedor e ouvinte,
em casa, imaginasse o grande espetáculo que ele gostava de anunciar. Desde abril último estava trabalhando na Rádio Capital.

Além do futebol, dizia que tinha mais três paixões: Adelaide, a mulher; Marcos e Marcelo, os filhos. “E tenho meus filhotes amados, os cães, que são meus
melhores amigos”.

Falava em todos, o tempo todo. Na família, nos animais e na bola em campo. Era assim o alegre Fiori Giglioti, que pregava a bondade como verdadeira ideologia.

Encontrei Fiori Giglioti em algumas viagens. Em certa ocasião, transmiti-lhe o quanto, desde menino, o admirava pelo seu trabalho como jornalista e locutor
esportivo.

Eu vibrava com Fiori Giglioti quando ele “entrava em campo” e, tão bem, narrava os jogos de futebol de meus times favoritos, o Santos Futebol Clube e a
Seleção Brasileira.

A Copa do Mundo já começou! O Brasil fará sua estréia na próxima terça-feira, e Fiori Giglioti não estará na Alemanha, nem em nossa casa.

É que ele estará ocupado, no céu, ajudando o Brasil a trazer a Copa pela sexta vez.

Eduardo Matarazzo Suplicy
Senador

Comentários

ficamos orfaos

Eduardo Suplicy, mostra nesse comentário a mesma sensibilidade que sempre teve na política... Fiori Gigilioti, o melhor e o mais poético dos narradores rádio-esportivos, merecia um texto do melhor senador que essa república já teve... Um senador que foi pra convenção do seu partido enfrentar o ícone do PT Lula, sem as baixarias que hoje vemos em Obama e Hillary Clinton... Parabéns Suplicy também por ser santista e que quando você sair da vida pública, no momento de fecharem-se as cortinas e terminar o espetáculo... A gente diga é fogo, é fogo, é fogo... Porque pessoas como vc e o inesquecível Fiori, estarão por todo e sempre no nosso CANTINHO DA SAUDADE!


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