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ÀS PORTAS DO DIGITAL



Capacidade de integração na era multimédia parece preconizar futuro risonho para a rádio. Estarão as estações generalistas condenadas a uma morte a prazo? Aparentemente não. Humanização das emissões é uma das tendências para evitar que as ondas hertzianas se tornem numa "juke box".


Rádio digital 

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Pouco experimentada nos inúmeros serviços oferecidos pelas mais recentes tecnologias digitais, a rádio parece adivinhar, no entanto, um futuro risonho. Foi o meio que mais facilmente se integrou na era multimédia - conseguiu um casamento feliz com a Internet, com a televisão, e namora actualmente com o telemóvel. Desdobra-se em múltiplos formatos musicais, mas isso não significa a morte das estações generalistas.

A humanização das emissões e a afirmação da rádio como um meio charneira na era multimédia são duas das tendências sobre a rádio do futuro apontadas pelos profissionais ouvidos pelo "PÚBLICO".

Para enfrentar a crescente especialização musical das rádios e o avanço informático que permitiu criar rotações perfeitas de "play-lists", o caminho da sobrevivência parece ser investir na componente humana das emissões. "Com este afunilamento de formatos, a rádio tem que tirar mais partido da capacidade de comunicação [dos animadores], sustenta Luís Montez, antigo administrador do grupo de rádios da Media Capital (Comercial, Nostalgia, Cidade) e ex-director da Antena 3.

Actualmente, mesmo em Portugal, muitas das estações nacionais gravam previamente o que os locutores vão dizer aos microfones para evitar os enganos e poupar tempo, utilizando o que tecnicamente se chama "voice tracking".
"Nos Estados Unidos já estão a abandonar isso porque se a rádio não for mais humana vai perder para as digitais e para aquelas em que se pode programar o que se quer ouvir", diz, defendendo que é a humanização que lhe vai garantir o futuro, numa sociedade em que a solidão é um fenómeno preocupante.

Nos anos vindouros, Montez prevê que o mercado irá dar mais importância "à escrita criativa, à sonoplastia, à procura de pequenas histórias interessantes e, claro, à informação", na medida em que "a rádio é o que acontece entre as músicas". Senão, diz, tornam-se num electrodoméstico ou numa "juke box".



Generalistas deverão sobreviver


Nos Estados Unidos, o mercado mais desenvolvido em rádio, já há centenas de canais disponíveis para cada consumidor com quase outros tantos estilos musicais.

Por exemplo, os formatos analisados pela Arbitron, empresa de medição de audiências, vão desde os "hits" dos anos 80, ao Classic Country, passando por Children Radio, Gospel, Mexican Regional até Spanish Oldies. No total são 47 estilos musicais e de palavra que são medidos.

Estarão as rádios generalistas - de que são exemplo em Portugal a Rádio Renascença e a Antena 1 - condenadas à morte a longo prazo? Luís Montez e Rui Pego, actual director de Programas da Renascença, acreditam que não. Pelo contrário, poderão ter um papel preponderante nos próximos anos. "Serão uma ponte para as diferentes tribos comunicarem entre si", diz Rui Pêgo, autor do desenho sonoro da extinta Nostalgia, subscrevendo o que defende o sociólogo francês Dominique Wolton sobre a pulverização de comunidades de interesses na sociedade actual. Para Luís Montez, as generalistas têm a seu favor uma grande componente de palavra, o garante de humanização.

Numa era dominada pelas novas tecnologias e multimédia, a rádio é o último grande meio analógico, e a esse nível, não sofreu alterações profundas nos últimos 80 anos. Mas este retrato está prestes a mudar, tendo em conta o caminho irreversível de integração com outros meios da indústria do entretenimento. Uma das tendências, defende Rui Pego, será o aproximar de linguagens de conteúdos e de meios. "A rádio, pela sua mobilidade, agilidade e instantaneidade, será a linguagem padrão", sustenta o profissional que fundou a Correio da Manhã Rádio. "Será o meio charneira na medida em que tem texto (através da Internet) e som. E no audiovisual, o som é essencial", acrescenta.

O casamento das ondas hertzianas com a Internet tem vivido momentos felizes, em vários domínios. Um dos fenómenos recentes - e que pode acentuar-se nos próximos anos - é maior audiência que a rádio tem vindo a conquistar à noite, graças à Internet. Depois da hora de jantar, já são muitos os que deixam de ver televisão para navegar na Web, actividade que é muito mais compatível com a companhia da voz e da música.

Por outro lado, é também crescente o número de cibernautas que prefere ouvir rádio através de outras plataformas. De acordo com um estudo britânico de audiências relativo a 2002, um em quatro adultos ouvia rádio através da Internet, da televisão (serviços disponíveis nos pacotes de TV por satélite), e do seu telemóvel. O mesmo estudo indicava que 11,9 por cento dos ouvintes afirmava escolher uma emissão "on-line", o que representava mais do dobro do registado há dois anos. Esta opção é mais popular entre os 15-24 anos (20,9 por cento) e os 25-34 anos (18,9 por cento).

Numa altura em que a questão do pagamento de direitos de autor à indústria musical relativa às emissões de rádio "on-line" ainda não está arrumada, começam a surgir canais pagos. Já este ano, o motor de busca Yahoo anunciou o lançamento de um serviço de rádio, baseado na Web, sujeito a subscrição, e que permite aos utilizadores programar as suas próprias estações e sintonizar 50 canais temáticos com programação durante 24 horas por dia.

Prestes a entrar a sério na revolução digital, a rádio parece imortal pelo menos num futuro próximo. Em todos os momentos em que surgiram e se desenvolveram outros meios - como a televisão - , a rádio foi condenada a morrer, mas sobreviveu sempre. "Terá uma vida gloriosa", vaticina Rui Pego, porque é um meio "imbatível" em duas características, além da instantaneidade: "é profundamente democrático, permite fazer muitas outras coisas ao mesmo tempo, e cria uma relação imaginária entre quem emite e quem recebe. A voz é essencial".


Por Sofia Rodrigues
Retirado do jornal "O público"


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