O rádio do avô João

Separadores primários

Aquela grande antena

O rádio do avô João



Fairbanks Morse Modelo 72


Eu admirava aquela grande antena de arame e isoladores esticada entre duas traseiras opostas no quarteirão do Bairro Azul. Intrigava-me na marquise a misteriosa pequena caixa, com um parafuso saliente, recarquilhado para se desenroscar à mão, que secretamente um dia abri para descobrir uns parafusos brilhantes e os feixes de finos arames cinzentos e verdes revestidos por enrolamento de linha e borracha.

O rádio estava num local sombrio da sala de jantar, sobre uma mesa, que o colocava à altura do ouvido do meu avô quando sentado no seu maple de couro preto. Era nessa obscuridade que se animava o círculo de luzes coloridas do mostrador, e que apenas as mãos autorizadas dele, faziam varrer com um estranho ponteiro de duas pontas opostas a partir de um botão de duas velocidades. Logo abaixo, brilhava na sua luz científica, o olho verde que atestava a exactidão da sintonía.


Fairbanks Morse Modelo 72 detalhe do dial e frente


Recordo-me de alguns programas cujos indicativos me ficaram de tal modo que nunca mais fui capaz, por exemplo, de levar a sério a abertura do D. Quixote de Richard Strauss. E mesmo com a onda média entre cortada por interruptores da casa ou do prédio, vivíamos satisfeitos com tal fidelidade.

O rádio do meu avô foi em partilhas para o outro ramo da família, de onde regressou uns trinta anos depois, pela mão do meu primo engº João Mota Furtado, com alguns sinais do tempo mas íntegro e autêntico. Como surgiu na família já ninguém se lembra. Mas havia um irmão deste meu avô açoriano, naturalizado americano em New Bedford. Pode ter sido este nosso tio Frank P. Mota a expedi-lo.

Da Ajuda atiraram-me para o Poço dos Negros e dali para o verdadeiro homem do gatilho, o senhor Alfredo Silva em Oeiras, (936 608 354), pessoa de olhar simpático bondoso e prescutante por deficiência auditiva. Como para me orientar no caminho se referira ao extenso muro da base da armada confinante com a Av. Marginal, logo imaginei tratar-se de ciência lá aprendida; exercida até talvez a bordo de algum submarino com snorkel, sistema que causava grande sacrifício aos ouvidos da tripulação. Não quiz esclarecer isto. Afinal o rádio renascia e precisava de amigos importantes na minha imaginação. Quando viu o rádio disse que, com algumas substituições e os condensadores recarregados, facilmente voltaria a funcionar.

Com o senhor Alfredo deixei a parte incompreensível para mim e tratei de ir restaurando em casa a caixa de madeira lindamente folheada, usando apenas raspador para uns minúsculos salpicos de tinta, água-raz e cera em várias demãos para alimentar a madeira.


Outro detalhe do rádio


Chamado a Oeiras uns quinze dias depois, o senhor Alfredo entregou-me os órgãos electrónicos restaurados e um saco de componentes para o lixo que mesmo assim conservei. Que o tinha ouvido. Que já estava em condições.

Encetei pesquisas na internet para o modelo nº 72 mas nunca encontrei uma referência a este exacto modelo. Existem outros Fairbanks Morse semelhantes, também de mesa e aparentemente com as mesmas dimensões, mas sem a simplicidade e o equilíbrio entre volumes, e sobretudo sem a concepção futurista geral, evidenciada na grelha que dobra a esquina, e que tão sabiamente revela exteriormente um altifalante obliquamente montado no interior. Só consegui talvez concluir uma data de fabrico, aí por 1936.


Outro detalhe do rádio


Depois desta história com uma marca que apenas durante meia dúzia de anos (1934? - 1939?) fabricou rádios domésticos, uma marca que se dividiu em três especializadas empresas americanas, fabricantes de bombas, locomotivas e motores para submarinos, que fazer ao rádio do avô João?



Texto e fotos de Luiz de Sá Pereira

Veja com mais detalhe, estas e mais fotos, do Fairbanks Morse na Galeria de coleccionadores.

Comentários

De facto é patente neste delicioso e terno relato o encanto que os objectos do quotidiano dos nossos avós têm a força de nos "transportar" a memórias carinhosamente guardadas.
Valeu a pena a "viagem" do rádio do avô João porque de facto estava destinado que ele iria "descansar" nas tuas mãos......
Parabéns é uma peça "musical" lindissima!


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