Júlio Branco - Seria o rádio que me marcou o futuro?

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SERIA O RÁDIO QUE ME MARCOU O FUTURO?


Foto 

de Júlio Branco com as suas netas



Júlio Branco

Antes de apresentar uma das histórias para justificar o meu amor pelo rádio pretendia relatar o meu currículo neste campo, ou se preferirem, o meu perfil.

Nos meus 14 anos, idade em que oficialmente se podia trabalhar por “conta de outrem”, empreguei-me numa fábrica de lanifícios em Cabo Ruivo, foi aí que comecei a abrir os olhos para a vida real, e compreender a razão pela qual, o meu Pai, encostava o ouvido no seu rádio com o volume, (som) muito baixo para que ninguém podesse partilhar o que estava a ouvir.

Certa altura, como que não soubesse de nada, fiz-lhe a tal crucial pergunta que andava de dia para dia para a fazer, isto porque, não tinha autorização para fazer perguntas em qualquer ocasião, tinha de escolher o momento exacto, (o respeitinho era muito bonito). E lá vai a pergunta:
"Pai porque é que está a ouvir o rádio muito baixinho?"
O meu Pai, muito espantado com a pergunta..... abre muito os olhos... (parece que ainda o estou a ver, tenho essa imagem gravada na minha mente), põe o dedo indicador do lado direito na vertical nos seus lábios...... e soletra um som.... chiu..... chiu...., desliga de imediato o aparelho e chama-me para um canto da casa e então.... eu muito encolhido, e com medo, pensando que me ia cair, “alguma bofetada”.... diz-me:
"Não digas a ninguém nem ao teu melhor amigo que o teu Pai ouve o rádio baixinho."
Então explicara-me que estava a ouvir as noticias de um emissor estrangeiro e que não era permitido fazê-lo em Portugal, pois se fosse apanhado, ou houvesse alguma denúncia nesse sentido a PIDE, (Policia Internacional de Defesa do Estado, no regime Salazarista), entrava em casa de qualquer maneira e a qualquer hora, levando-o preso, e se suspeitassem que toda a família também ouvia assim a rádio, levavam toda a gente que se encontrasse em casa. Explicando-me o que era a PIDE. Isto em 1958 mais ano menos ano.

Foi então que a partir daí criei um amor pelo rádio, pensei em mudar de emprego, para um que podesse aprender algo sobre rádio, e assim foi, contra a vontade dos meus pais, porque ia ganhar menos, empreguei-me numa pequena oficina onde faziam reparações de rádio e instalações eléctricas em geral. E como isso não bastasse para o descontentamento dos meus pais, por não terem possibilidades monetárias, mais tarde, matriculei-me numa Escola Técnica nocturna para tirar um curso de electrónica.

Já fazia umas reparações em casa nos fins de semana, assim como ensaios que aprendera na Escola, onde ganhava algum dinheiro para ajudar a pagar os estudos, e ajudar os meus Pais em outras despesas.

Veio o serviço militar obrigatório, o País estava em guerra com as ex-colónias, fui mobilizado para Angola onde exerci a especialidade de Rádiomontador.

Findo o serviço militar, enveredei por outra profissão, (informática) na perspectiva de auferir melhor salário, pois já me encontrava casado.

Ora todo este intróito é para vincular o amor que tenho pelo rádio, por ter algo de recordação na minha infância, talvez fosse motivado por aquele velho rádio o quão importante era para o meu Pai, e talvez contribuísse para que eu tivesse sucesso na vida, quer profissional, quer familiar.

Hoje sou um avô baboso, com uma família muito unida, dinheiro?..... não conta....... mas sim o amor naquilo que nos sentimos realizados e nos dá prazer.


Comentários

Foi com enorme satisfação que li este pequeno resumo. Digo pequeno porque sei que muito mais ficou por contar. Fez-me lembrar também tempos idos, que a memória não apaga. Parabéns por tudo o que tens feito pela divulgação dos temas Radio. Todos nós esperamos que assim continues.
Um abraço
Rui Caldeira

Rui,
Obrigado pelo teu comentário.
Tens toda a razão, "muita coisa ficou por contar", mas pode ser que um dia, quem sabe? sairá uma biografia das minhas memórias?
Os meus cordias cumprimentos

Júlio Branco

Júlio Branco

Branco, para além de avô babadinho, estás de parabéns pelas paginas apresentadas. São bastante oportunas pois o Rádio Clube Português também está de parabéns.
A Rádio é uma paixão, curiosamente as primeiras emissões em portugal foram feitas por um amador, antigo dono dos armazéns do Chiado, depois cresceu e foi por aí fora.

Parabéns

António,
Obrigado pelo teu comentário, e acho pertinente em falares nos 75 anos do Rádio Clube Português. Mas sobretudo o que mais me marcou, entre outros programas, foi PARODIANTES DE LISBOA, cujo programa era muito apreciado, por toda a minha familia, actualmente e na minha opinião, não se faz algo com tanto êxito.
Um abraço
Júlio Branco

Júlio Branco


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