O QSO que nunca aconteceu mas teve QSL

Separadores primários

Paisagem de inverno
Foto do Barão de Münchhausen

... ou de como o uma conversa ficou congelada

Com estas temperaturas polares com que o nosso inverno nos está a brindar, lembrei-me, um dia destes, de uma história que se contava nas antigas rodadas de amador.
A história falava de um QSO que não aconteceu, mas o amador recebeu uma confirmação do mesmo e, mais estranho, com a indicação de uma hora diferente.
Bem, pensam vocês, nada mais natural, o amador enganou-se no indicativo quando preencheu a QSL.
Mas a história não foi bem assim...
Era uma madrugada de um inverno rigoroso, temperaturas alguns pontos abaixo de zero.
O nosso colega gostava de aproveitar aquela hora para fazer uns contactos com o velho continente nos 20 metros.
Corria o dial em busca de uma qualquer figurinha e quando não encontrava ninguém, acabava por parar numa frequência habitualmente ocupada por colegas portugueses que, religiosamente, se reuniam ali em cavaqueira matinal, havia já muitos anos.
Mas a santa propagação tinha abençoado o a sua estação e a banda estava animada.
Sintonizou uma estação cujo o indicativo lhe pareceu interessante para a sua coleção de QSL, conferiu a potência e a SWR, apertou a PTT e chamou.
Nada de resposta. Tentou, tentou, mas nada. O sinal de receção era forte, talvez o colega estivesse com potência elevada, pensou e ligou o linear. Agora, certamente, 1kW faria a diferença.
Voltou a chamar mas sem sucesso.
Voltou a conferir a potência, o ajuste da antena, estava tudo correto.
Fez mais algumas tentativas e, sem resposta, desistiu.
Ainda rodou o dial em busca de mais alguma figura, mas acabou por desligar o rádio e ir aquecer a alma com um bom café quente.
O nosso amador nunca mais pensou nisto. Era tão normal... por vezes a propagação é assim, abençoa uns, mas é madrasta para outros...
Algumas semanas depois o carteiro trouxe-lhe uma surpresa. Ao abrir o subscrito deparou-se com uma bonita QSL, daquelas feitas mesmo com gosto. Não tinha ideia de ter feito algum contato com aquele indicativo, mas, depois de pensar um pouco, lembrou-se daquele dia em que um contacto não tinha sido completado por razões estranhas.
Era ele, de facto.
Como se esta surpresa não chegasse, houve um detalhe que o intrigou: A hora indicada era bastante diferente da que tinha tentado o contacto. Pelo que se recordava, talvez umas duas horas antes.
Na vida tudo se explica e, aqui, também não há exceção.
O colega ouviu-o mas ele, por qualquer motivo não e a hora anotada foi engano.
Ainda assim, talvez por simpatia, a QSL foi enviada.
O nosso amador achou graça à situação e contou-o em algumas conversas matinais.
Ele não sabia, mas tinha sido protagonista de uma das mais fascinantes histórias sobre radioamadorismo.
Soube-o alguns anos depois... mas não nos perguntem como!
Aquele dia estava excepcionalmente frio. O QTH era localizado num ponto alto e desabrigado.
A sua antena estava coberta por uma espessa camada de gelo.
Ao emitir, o gelo impediu que a rádio frequência saísse, ficando retida na camada de gelo.
Quando, com o nascer do sol e o aumento de temperatura, o gelo derreteu, a antena começou a emitir todas as tentativas de QSO feitas anteriormente pelo nosso colega.
E o QSO fez-se!
Acham esta história absurda e que eu estou a ficar maluco e que, claro, tudo isto não faz sentido, nunca aconteceu e eu inventei só para vos dar conversa.
E têm razão, só que não fui o primeiro, apenas adaptei para o nosso hobby algumas histórias antigas, que envolvem gelo e conservação dos sons.
Em 1548, O escritor francês Francois Rabelais no seu livro "Pantagruel" descreve "Palavras congeladas". Pantagruel e a sua tripulação navegam até às margens do mar glacial, no qual tinha ocorrido no início do Inverno anterior grande e feroz batalha entre os arimaspianos e os nefrílibatas, e então "gelaram no ar as palavras e gritos dos homens e mulheres, o retinir de armas, o relincho dos cavalos e todos os outros rumores da batalha.
A esta hora, o rigor do Inverno passou; advinda a serenidade e o bom tempo, elas derretem-se e são ouvidas.
Dois séculos depois o Barão de Münchhausen (1720-1797) era um caçador e um prodigioso contador de histórias, coisa que costumava fazer nas tabernas locais. Vinha muita gente, de toda a Alemanha ouvir as suas façanhas incríveis e rapidamente ganhou a fama de maior mentiroso do mundo.
Numa dessas histórias o Barão conta que numa das suas saídas para a caça aconteceu um fenómeno estranho: Estava muito frio e neve. Ao tocar a sua trombeta para chamar os criados, esta não tocou nada. Soprou por várias vezes mas, do instrumento, não saiu qualquer som.
Mais tarde, quando regressou a casa, e alguns minutos depois de ter pendurado a trombeta por cima da lareira, esta, depois de ter descongelado, emitiu os sons que ele tinha tocado anteriormente.
Esta teria sido, além de muitas outras feitas em tempos diferentes, mais uma tentativa para gravar, guardar, reter para o futuro, os sons que o homem ouvia ou produzia.
Agora chamem-me o radioamador mais mentiroso da história... e vamos lá tomar um café a ver se isto aquece!

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