História da rádio do Porto contada às novas gerações (XI)

Separadores primários

Foto retirada do Jornal de notícias da época
Outra foto retirada do Jornal de notícias da época
Outra foto retirada do Jornal de notícias da época
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A vida de Domingos Vieira, conhecido profissionalmente por Domingos Parker, dava um filme. Ou, como alternativa menor, eu escreveria uma biografia dele, se tivesse tempo.

Nascido em Campo de Ourique, para mim o bairro mais bonito de Lisboa, como a parisiense rua Ferreira Borges, limitado mais ou menos pela basílica da Estrela, pela Mãe de Água, pelo cemitério dos Prazeres e pelas Amoreiras, campo de futebol do Benfica e estação de camionetas antes de se tornar o centro comercial mais elegante do país, Domingos Vieira foi ainda em bebé para o Porto. O seu pai fora nomeado como um dos responsáveis dos adubos químicos da CUF no Porto. Morada: rua Pinto Bessa, eixo vital do Porto oriental, entre a igreja do Bonfim e a estação ferroviária de Campanhã. À altura, a zona era das mais industrializadas da cidade (como ainda se pode ver nas ruínas de edifícios pela rua do Freixo abaixo), armazéns, comerciantes, operários e ferroviários.
Logo, a infância e juventude foi passada entre Campanhã e Bonfim, a que acrescento a zona da praça da Batalha (quase o centro da rádio inicial no Porto, com estações na avenida Rodrigues de Freitas e rua Duque de Loulé) e a Sé (caso do parque das Camélias, a que volto à frente, depois destruído e tornado parque de camionetas). Domingos Vieira, que gostava de assinar os seus contratos com caneta de tinta permanente Parker, tornou-se empresário de múltiplas atividades (mundos desportivo, do espetáculo e da rádio). E teve uma vida amorosa muito rica, de que resultou um património de quinze filhos, fruto de diversas ligações. Sobre isto, publico algo mais à frente.

Primeiro, o basquetebol: ele foi jogador da modalidade, primeiro em equipa local (Sporting Clube Vasco da Gama), onde chegou a campeão nacional (1942). Parker transferir-se-ia depois para o Sporting. O parque das Camélias, além de local de jogos de basquetebol do Vasco da Gama, seria importante para uma das atividades iniciais de Parker, a de organizar torneios de boxe, então modalidade popular na classe operária da cidade, na década de 1940. Ao Porto, chegou um dia uma equipa de Globetrotters, com quem ele estabeleceu amizade. Os Globetrotters são uma espécie de equipa de basquetebol ritmado e harmonioso, a modos que balético. Muitos anos depois, Domingos Vieira foi a Nova Iorque, onde assistiu a um encontro com essa equipa. Um dos jogadores, ao vê-lo, chamou-o ao campo de jogo. Domingos Parker (aqui este nome faz mais sentido do que Vieira) sentiu-se lisonjeado. Pequenote num meio de gigantes, teria encestado uma bola, a causar admiração e aplausos entre a assistência.

Domingos Parker foi o impulsionador do espetáculo ao vivo e programa radiofónico "A Hora do Garnisé" (Portuense Rádio Clube). Outro espetáculo e programa da mesma rádio "A Parada da Alegria" teve o seu contributo, modelo estabilizado de festa organizada pela estação na nave central do depois desaparecido Palácio de Cristal e noutras salas do Porto ou de concelhos próximos onde as emissões chegavam, em especial nos anos de 1950 e 1951. Maria Amélia Canossa foi uma das revelações desse programa em concurso de talentos.

Vieira/Parker teve uma relação complexa com Portuense Rádio Clube: expulso e readmitido em 1945, chegou a administrador do edifício do Monte da Virgem, destinado a albergar um novo emissor, objetivo não concretizado e razão do desaparecimento da estação. Ele também dirigiu a organização Noar, que explorou em exclusivo a publicidade de Portuense Rádio Clube. O primeiro espetáculo que Parker se orgulhou de organizar foi com o ator João Villaret. O parque das Camélias abarrotou nos seus quase sete mil espectadores. Ele organizaria um espetáculo com Amália Rodrigues em 1939, no que se pode considerar como primeiro empresário da fadista. Depois, através da Ideal Rádio e da empresa DIEP, reorganizou o programa "A Hora do Garnisé", garantindo idas de Amália Rodrigues ao Porto.

Efabulo, mas julgo ser do tempo em que Vieira foi jogador do Sporting na sua cidade natal que conheceu Amália Rodrigues, uma das suas paixões mais assolapadas e retribuídas. Não sei se os biógrafos da grande fadista registaram esta paixão. Os íntimos diziam que, quando Parker estava mal de finanças, Amália apanhava o comboio foguete e apresentava-se para cantar no Porto. Outro produtor de espetáculos ao vivo e programas de rádio, Fernando Gonçalves, seu grande rival, fazia algo próximo, quando esteve apaixonado por Maria Adalgisa Costa, que também ia de Lisboa ao Porto no rápido da CP.

Mas a grande paixão e a mais duradoura foi Florência Cunha, uma menina do Bonfim (13 anos) revelada num dos concursos de cantadeiras do fado (1952), depois de atuar no programa dirigido por Domingos Parker, "A Hora do Garnisé", atrás já identificado. Florência foi, depois, para o Brasil, onde fez uma carreira artística de fôlego. Casou e enviuvou, o que a trouxe de novo para o Porto. Recebida de modo entusiástico por Domingos Parker, casou com este e fez nova carreira. Já não era a menina tímida do Bonfim, mas uma mulher de voz agradável e muito bonita (para uma das publicações sobre espetáculos fez-se fotografar de modo ousado para a época). Houve uma reedição do concurso de cantadeiras, agora na transição da década de 1960 para a seguinte. Os jornais publicariam muitas notícias sobre este concurso. Num dos momentos, o empresário e marido deu-lhe o nome artístico de Florência Rodrigues. Rodrigues era o apelido mágico. Mas Florência Cunha Vieira passou a ser apenas Florência.

Ainda na rádio, Domingos Vieira também fez parte do grupo de teatro radiofónico de Rádio Clube do Norte. Com dificuldades em cumprir horários e sem ler os papéis distribuídos, improvisava durante o programa em direto e engendrava textos a encaixar na narrativa. Quem o conhecia dizia que ele era muito hábil nesta faceta.

A terminar, no mundo de negócios, ele nem sempre cumpria os contratos. Muitas vezes, esquecia-se de pagar. Ou demorava muito tempo. Talvez um lado menos genial da sua carreira, o de empresário aldrabão. Mas isso não deslustrava a sua imagem reconhecida pelo público de Campanhã, Bonfim e Santo Ildefonso.

[para apreciar a carreira contada pelo próprio ver vídeo]

[imagens: "Jornal de Notícias", 20 de janeiro de 1950 e 21 de junho de 1952; Fernando Rocha, Domingos Parker e Carlos Silva; Florência da Cunha (Bonfim), vencedora do concurso de cantadeiras do fado de 1952, acompanhada pelas “damas de honor” Maria de Lurdes (Sé) e Elisa Silva (Aldoar) ("Jornal de Notícias", 20 de junho de 1952)]


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