História da rádio do Porto contada às novas gerações (XII)

Separadores primários

Foto sobre a rádio no Porto
Outra Foto sobre a rádio no Porto

[decidi findar abruptamente a série; como na televisão, talvez surja uma segunda temporada…)

Na morfologia dos contos de fadas de Vladimir Propp, as personagens dividem-se consoante a esfera de ação: agressor (que faz mal), doador (a dar o objeto mágico ao herói), auxiliar (ajudante do herói), princesa e pai (não necessariamente o rei), mandador (que manda), herói e falso herói.

No meu folhetim da história da rádio do Porto, tive de fazer adaptações. O agressor foi sem dúvida o visconde de Guilhomil, pela sua função de censor e pela sua ignorância cultural (episódio 6). Prefiro herois, como Domingos Parker (episódio 11), e ajudantes de heróis, como António Laranjeira (episódio 1). Para Rogério Leal (episódio 4) atribuo-lhe o papel de mandador. E acrescento categorias como casal romântico como Humberto Mergulhão e Natália Bispo (episódio 5), rabugentos como Rogério Russo (episódio 2), ingénuas (e incultas) como Micas Eletromecânica (episódio 3) empreendedores como Ilídio Inácio (episódio 8), agentes de entretenimento como Júlio Guimarães (capítulo 10). A princesa, trabalhada a meias com Domingos Parker nesta série, seria Florência, pela sua vida ligada ao espetáculo e como artista da rádio.

Quanto ao doador (objeto mágico oferecido ao herói), refiro os autores populares do programa humorístico "A Voz dos Ridículos". Explico melhor, baseado na leitura de Raymond Williams, “Cultura”, que parte das funções de sacerdote, profeta ou bardo, num outro tempo exercidas pelos mesmos indivíduos ou grupos de indivíduos. Os bardos manteriam o uso oral da sua comunicação. Williams escreveu sobre uma fase pós-artesanal; em diversas atividades, por exemplo, o produtor manter-se-ia artesão, mas dentro de um mercado mais complexo e organizado, a depender de intermediários. No caso do livreiro, ele passaria a editor, com a compra direta das obras, ao passo que o escritor se tornava participante do processo direto de mercado da venda da sua obra, a incluir práticas de adiantamentos sobre "royalties" e de emprego assalariado ou mediante contrato, com ajuda da reprodutibilidade técnica, a partir do original. O poeta e o escritor passariam a escrever sobre o drama heroico e a comédia de costumes nas suas propostas. Aqui, acrescento o trabalho do humor. Uma última ideia de Williams foi a abolição das categorias tradicionais de cultura ampla – aristocrático e folclórico, minoria e popular, educado e não educado. A cultura popular transformou-se na mais importante área da produção cultural burguesa e da classe dominante, com um setor minoritário encarado como residual e a ser preservado.

Em "A Voz dos Ridículos", o programa de maior duração na história da rádio do país (1945-2013), com João Manuel Antão à sua frente, destaco personagens (e intérpretes) como Bigodes de Arame (António Santos), homem dos discos (Alberto Caldeira), linotipista (Mena Matos) e cantor com letras de incidência crítica aplicadas a melodias populares (Ferreira da Cunha). Algumas outras personagens seriam Finfas, que casara com a Micas da Calçada, Tirone, senhor Perfeito e Sebastião Come Tudo. No tempo da censura, outra figura foi Saraiva, sempre rouco porque preso da garganta. Um dos colaboradores iniciais foi José Pinto Costa, mas, por pertencer ao sindicato dos ferroviários, viu suspensa a sua participação por ordem da censura, mas ficou como que participante clandestino com o nome de "poeta sem destino". A censura estava atenta às piadas dos humoristas, como a do banhista que se bronzeeou demais, por causa do "sol a dar o sol a dar", expressão parónima de Oliveira Salazar.

Num dado tempo, surgiu um folhetim onde o imitador Mena Matos desenvolveu a expressão pincha, Malaquias, pincha. Pinchar, na linguagem popular do Porto, significa saltar. Popularizada nas décadas de 1950 e 1960, podemos atribuir à expressão o valor atual de “desenrasca-te”. Assim como "trabalha dedo, não tenhas medo", tipo de refrão quando se usava o telefone de marcador de disco para fazer queixas de teor social, para a Câmara Municipal, a caixa de previdência, o hospital ou outro serviço público. Expressões tornadas populares seriam ainda “afinfa-lhe”, “olha o boneco”, “escacha pessegueiro” e “rebimba o malho”. A pequena orquestra que acompanhava o programa teve nomes variados, um deles "Vou Ali e Já Venho".

Vivia-se no final da II Guerra Mundial e o locutor Fernando Peça nas suas reportagens de Londres dizia: “A BBC fala e o mundo acredita”. O programa de humor do Porto aproveitou a ideia e ficou o mote “A Voz dos Ridículos fala e o mundo acredita e ri”, expressão mantida até final do programa. O grupo foi sempre amador, com cada colaborador a depender do seu emprego, a significar o oposto do desenvolvido teoricamente por Raymond Williams, de geração pós-artesanal. O programa "A Voz dos Ridículos" foi, quiçá, o exemplo mais puro de rádio do agrado das classes populares e caso único na época, porquanto a equipa de humoristas dos Parodiantes de Lisboa abandonou a fase do amadorismo e se constituiu profissionalmente.

[ver https://www.slideshare.net/RogrioSantos115/a-voz-dos-ridculos?ref=https:...


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