Locutores

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No pós-II Guerra Mundial, a rádio expandiu-se muito. A Emissora Nacional começou a transmitir dois programas, um popular e outro dedicado à música séria (ou clássica, como se diz hoje). Por outro lado, a publicidade permitida alargou-se às pequenas estações de rádio em Lisboa e Porto, servindo de alavanca financeira para mais emissões.

Uma das necessidades sentidas foi fixar um corpo de locutores adequados para emissões mais longas e com programas mais diversificados. Um dos organismos do Estado Novo, o SNI (Secretariado Nacional de Informação), promoveu anualmente um concurso de locutores, depois a estagiar nas rádios locais de Lisboa (o incentivo não se alargou ao Porto). As provas de acesso incluíam leitura de programas em português, francês e inglês e provas de voz. A ideia ainda hoje prevalecente da importância da voz vem dessa época. O SNI pagava o estágio por um ano e os mais competentes arranjariam emprego nas pequenas rádios, podendo chegar, até, às estações maiores. O organismo estatal ufanava-se desse investimento, a esperar um claro retorno de comprometimento político.

O corpo de locutores na Emissora Nacional também cresceu. Para admissão os candidatos submetiam-se igualmente a provas, uma delas exigindo criatividade. Nuno Brás, por exemplo, candidatou-se a lugar em Coimbra. Como prova de admissão, ele quis improvisar um relato de futebol, aliás modalidade que o tornaria muito conhecido. Mas o júri quis que ele idealizasse uma reportagem da inauguração oficial de uma ponte sobre o Mondego, então em fase de conclusão. Nuno Brás acabaria por trabalhar a vida inteira ligada aos estúdios do Porto.

Outro nome importante na história da rádio no Porto foi Fernando Rocha, que trabalharia em Rádio Renascença e na Emissora Nacional. Para entrar como locutor nesta, ele fez uma prova escrita, que aqui reproduzo (agradeço a amabilidade de Fernando Rocha ter partilhado comigo o documento), e que terá acontecido em 1953. Ele escreveria:

“O papel da radiodifusão sonora, nas suas linhas gerais, pode condensar-se nas seguintes palavras: cultura, educação, informação e recreio. Estes quatro termos deverão representar, afinal, cada um de per si e conjuntamente, uma única intenção: cultura. Sendo a cultura reflexão sobre os conhecimentos adquiridos e a síntese consequente da análise do que nos é dado ver, ouvir e experimentar, tudo poderá servir para o enriquecimento espiritual e intelectual das massas. A informação, quando não oculta ou desvirtua a verdade, é um subsídio para a formação de uma perspetiva sobre o mundo em que vivemos, tão necessária para uma tomada de consciência sobre os problemas e os factos que se sucedem e fazem história. A radiodifusão sonora, à qual deve competir a informação, imediata e sintética e, se possível, direta dos acontecimentos do dia a dia, tem, neste sector, um papel relevantíssimo.

No que respeita à educação é, igualmente, importante a sua tarefa não só no aspeto cívico como, também, nos valores básicos. Os responsáveis devem, por isso, entender essa importância, utilizando esse extraordinário meio de penetração, para tornar extensivo a todos os setores, geográficos e sociais, da população, os elementos que possam contribuir para a sua educação e, consequentemente, a sua valorização. A rádio escolar é uma força capaz de complementar os processos normais de ensino, ou mesmo, de suprir a sua falta.

O recreio, a que a rádio, geralmente, dedica a maior parte do seu tempo, é, ainda, ou devia ser, uma forma de cultura por poder contribuir para a elevação do nível estético e para o refinamento do gosto dos ouvintes. Quer através da música, quer através da palavra e, neste caso, merecem relevo as obras dramatizadas, é necessário que a qualidade das produções e interpretações se sobreponha à tendência da maioria para preferir o que é mais fácil e o mais fácil é, quase sempre, inferior. O público deve ser servido, mas prestamos um mau serviço se pretendermos conquistar a sua atenção com transigências de mau gosto”.


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