Rádio Unidos?

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A 11 de julho de 1949, uma informação da polícia política dava conta da compra de Rádio S. Mamede pela Valentim de Carvalho, com alteração de nome para Rádio Unidos (arquivo de Fernando Pessa, 5790 SS). Como diretor técnico, surgiu o nome de Fernando Lopes Graça e, como sócios, apesar de não constarem da escritura, os nomes de Fernando Pessa, António Pedro, Francisco Igrejas Caeiro e Etelvina Lopes de Almeida.

Analisando o documento, apesar de uma ideia inicial muito interessante (um editor ou comerciante de discos comprar uma estação de rádio), o seu todo parece-me apócrifo (falso, suspeito). Mas vale a pena escrever sobre ele e procurar perceber como o ruído e a desinformação já existiam então.

Primeiro, a ideia nova. Durante décadas, a atividade dos discos dependeu da popularidade conquistada através da rádio. Aquela parecia quase uma subsidiária desta. Os artistas obrigavam-se a ir à rádio promover as suas obras e as etiquetas de discos demoraram a perceber a importância de fornecer discos aos produtores de programas radiofónicos. Apenas emprestavam. A nível nacional, a Valentim de Carvalho tornar-se-ia, nas décadas seguintes, uma das grandes marcas fonográficas do país. Mas, ao longo desse tempo, tal não significou o controlo da indústria da rádio. Por isso, parece-me prematura essa tomada de posição.

Segundo, a Rádio S. Mamede, que pertencera a José Costa Pais, com problemas de desalinhamento face ao Estado Novo, não entraria na rede depois chamada Emissores Associados de Lisboa, informalmente reunida em 1939 por imposição legal, a emitir numa só frequência. Dessa marca, não se ouviria mais. O facto de reaparecer em 1949 causa estranheza, pois tal conduz a uma terceira e mais plausível razão de espanto.

Em 1949, Francisco Igrejas Caeiro e Etelvina Lopes de Almeida eram despedidos da Emissora Nacional. Eles tinham assinado listas de apoio à democracia. Por seu lado, Fernando Pessa e António Pedro tinham a fama (e o proveito) de, quando haviam trabalhado na secção portuguesa da BBC, mostrarem admiração pelos aliados na II Guerra Mundial, logo evidenciando valores democráticos. Era o tempo da BBC - A Voz de Londres Fala e o Mundo Acredita. Pessa regressaria à Emissora Nacional mas sempre com contratos precários, passando ao quadro bastante tempo depois de 1974. António Pedro fez um percurso notável no teatro (Teatro Experimental do Porto) mas nunca teve a vida facilitada pelo regime. A sorte dele é que era um homem muito alto - e, por esse motivo, escapara ao serviço militar. Isto é verdade mas ironizo, claro. Também o compositor Fernando Lopes Graça não colhia a simpatia do regime.

Logo, este quarteto de profissionais da rádio e o músico e compositor não poderiam estar por detrás de um projeto radiofónico aceite pelo Estado. Acrescento ainda que, nesse mesmo ano de 1949, as rádios locais (Lisboa e Porto) começaram a emitir publicidade - a troco do silêncio face à propaganda do candidato presidencial da oposição Norton de Matos, lugar em que ganhou evidentemente Óscar Carmona.

Valentim de Carvalho era um homem de negócios que se fez por si mesmo. Por isso, deveria ser cauteloso nas suas atividades e perceberia depressa que a designação Rádio Unidos não levaria muito longe a estação.

Pode haver uma outra interpretação: os cinco mais o empresário decidiriam enfrentar o governo através de uma rádio unida e defensora das liberdades fundamentais como a expressão da palavra e do direito de reunião. Afinal, os aliados tinham ganho a II Guerra Mundial, tinha havido eleições presidenciais em fevereiro e, apesar do recomeço da repressão, os homens queriam unir-se para lutar.

Resta o documento. Não sei se foi apenas efabulação. Mas que esta é linda estou de acordo.

[obrigado a Gonçalo Pereira Rosa, que me chamou a atenção para o documento. Uma imagem mostra Fernando Pessa e a outra o autocarro comprado por Igrejas Caeiro para o seu programa itinerante “Companheiros da Alegria”]


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