Teatro radiofónico rápido (4)

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Em abril de 1972, a Casa da Imprensa atribuía o prémio anual da rádio a três programas ex-aequo: Página Um, Tempo Zip e Vértice (este para o período de Rui Pedro como realizador). Vértice substituíra o horário do programa Em Órbita e procurou conservar o público e ampliá‑lo, mantendo o estilo musical, mas a tentar “aproximar vários ramos de literatura e filosofia ao ouvinte com pensamento e música popular e erudita”. O objetivo de Rui Pedro seria romper com o estilo do programa anterior e introduzir textos sobre Brecht, Soeiro Pereira Gomes, Camus, Gomes Ferreira, Sartre e Manuel da Fonseca. O produtor (Espaço 3P), temendo a reação do regime político, não perdoou a orientação ideológica de Rui Paixão Pedro e o programa em Rádio Clube Português durou tão só 58 dias de emissão.

Rui Paixão Pedro (1946-1993) [espero não ter errado nestes dois anos] familiarizara-se com a rádio ainda no liceu Camões, onde foi companheiro de radialistas depois muito famosos como José Nuno Martins e Luís Alcobia, também passando pela Rádio Universidade. Em 1965, com 19 anos, Rui Pedro foi admitido na Emissora Nacional e no Teatro Nacional, as suas duas paixões onde entrou por concurso. A televisão, através do programa Curto-Circuito, entusiasmou-o igualmente. Casado com a atriz Linda Beringel – depois, realizadora de cinema e televisão –, ele frequentou o 2º ano da Faculdade de Letras, mas sairia por desilusão.

Rui Pedro seria redator-publicitário nos Parodiantes de Lisboa e locutor e assistente do programa PBX (embora num curto período em 1968). Em 1967, José Fialho Gouveia e Carlos Cruz estrearam nas ondas médias de Rádio Clube Português o programa PBX, produzido pelos Parodiantes de Lisboa. A equipa ainda era constituída por José Nuno Martins, Joaquim Furtado, Adelino Gomes, Luís Filipe Costa, João Alferes Gonçalves, Rui Pedro, João Paulo Guerra e Paulo Morais. O PBX foi a concorrência do programa 23ª Hora da Rádio Renascença. Rui Pedro trabalhou ainda no programa radiofónico Tempo Zip, programa proibido em setembro de 1972. O locutor Rui Pedro distinguia dois tipos de rádio – oficial (pública) e comercial, esta a viver então um importante momento através do trabalho de novos e bons profissionais. Das reportagens que fez para o programa PBX, ele destacaria a inauguração de uma fábrica de pastilhas elásticas, a arrematação de lugares para a venda de manjerico e uma entrevista a um relojoeiro em Alfama.

Voltando aos prémios do júri da Casa da Imprensa, este criticava o resto da programação, muito assente no triângulo “disco-anúncio-duas tretas” ("Rádio & Televisão", 22 de abril de 1972). No conjunto, os realizadores dos programas premiados salientavam o risco permanente no trabalho diário. Não dito explicitamente, mas percetível, falavam de censura. Percebia-se a tendência, em especial em programas de fim de tarde e noite. Além da censura, a rádio tinha a concorrência da televisão e precisava de se redefinir para atrair novos públicos. Foi aí que um grupo de jovens – jornalistas e radialistas – começaram a ocupar os períodos de produtores independentes. O texto da revista tinha um título evidente: Rádio Nova: Rasgar Horizontes, de defesa do “trabalho coletivo de prospeção da realidade circundante”, o que quer que isso significasse.

Em março de 1974, Rui Pedro daria uma entrevista de sete páginas à revista “Cinéfilo”, na qual explicaria o significado de estar no serviço de noticiários de Rádio Renascença: “Entricheirar-me numa estação de rádio, evitando assim que um inimigo ocupe aquele espaço de tempo”. Isso apontava para a dependência das agências noticiosas e a existência de “filtros”, o que significava “censura”. O processo instaurado internamente levou-o ao despedimento. O conselho de gerência invocaria como justa causa a entrevista, em que o jornalista tomara uma “posição de desobediência e desrespeito à entidade patronal”, com “manifesto prejuízo moral, social e material” à rádio.

Rui Pedro, que preparava o regresso à sua atividade como ator, agora na companhia de Luzia Maria Martins, elogiaria as pessoas à frente da emissora católica portuguesa, mas anunciaria “trovoada e mar encrespado”, alusão a pressões sobre a equipa do serviço de noticiários, criada em finais de 1972. Rui Pedro fora recentemente promovido a redator-locutor principal, “como reconhecimento da eficiência do trabalho por ele realizado ao longo de 1973”.

Após a revolução de 1974, a sua voz foi aproveitada para comícios e tempos de antena do Partido Comunista, de que se tornou militante. Por isso, em 1977, ele era nomeado para o Conselho de Informação para a Radiotelevisão Portuguesa, como um dos representantes do Partido Comunista (http://debates.parlamento.pt/catalogo/r3/dar/s2/01/02/018S2/1977-12-16?s..., acedido em 4 de junho de 2020).

[fotografia cedida por Luís Paixão Martins, "Flama", de 3 de Abril de 1970, "Rádio & Televisão", 22 de abril de 1972]