Teatro radiofónico rápido (6)

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"Encontros e reencontros de Alice e Alberto"

Nota prévia: este teatro radiofónico é ficção. Mas, por vezes, a realidade ajuda a melhorar a ficção e eu aproveito.

3

Voz E: Alberto, recebemos um telefonema da professora Alice Caeiro. Ela quer conversar contigo sobre um projeto de teatro radiofónico. Diz que precisa de falar contigo esta semana ou na próxima. Ela atende alunos às terças e sextas das duas às cinco da tarde. Podes aparecer num desses dias lá no gabinete dela na Faculdade de Letras.

[sons: autocarro a funcionar, algumas buzinas de carro, passos no chão, batida de dedos numa porta]

Alice: pode entrar. Ah, é você, Alberto. Sente-se aí, à vontade. Eu vou já falar consigo, depois de assinar este documento.

[silêncio]

Alice: então, como está?

Alberto: tenho tido muito trabalho na rádio. Estamos na fase das reportagens e inquéritos. Tenho falado com gente curiosa: uma vendedeira de galinhas do mercado dos Anjos, um relojoeiro de Alfama, um carrejão. As histórias que me contam. Ao princípio, parecem tímidos. Mas depois falam e falam. O carrejão, por exemplo, foi ciclista na volta a Portugal, mas caiu logo na terceira etapa. Depois, esteve uns tempos em França como homem a dias e lavador de vidros. Estes entrevistados têm uma grande sabedoria.

Alice: folgo muito. Mas o projeto para a Emissora Nacional tem características distintas. Já falei com o Represas e ele mostrou-se entusiasmado.

Alberto: eu deixei a Emissora num momento delicado. Acho que eles não gostaram do que disse e do modo como saí.

Alice: eu sei. Apesar de tudo, o Represas gostaria de contar consigo.

Alberto: então, qual é a proposta?

Alice: eu pensei em doze a quinze episódios. Não é como a Enid Blyton e os cinco, mas gostaria de ter uma dinâmica próxima. Também não quero fábulas, do tempo em que os animais falavam, pois já não estamos nos anos 30 ou 40. A televisão está a tornar as crianças mais depressa adultas. Também não quero muito histórias da relação com a natureza, embora pretenda manter a linha de aventuras e com caráter lúdico. Que façam rir e chorar, até. A ideia mestra é a de crianças que se encontram nas férias e contam as suas leituras. Gostaria de recuperar histórias de escritores como Ana de Castro Osório, Virgínia de Castro Almeida, Maria Pinto Figueirinhas e Afonso Lopes Vieira. os livros da coleção Manecas e adaptá-las à rádio. Talvez ainda Fernanda de Castro, Mariazinha em África, que vendeu muito. Uma antologia de contos na rádio? Eu própria, ao longo de alguns anos, fui estruturando contos, que contava ao meu filho Ivo. Prestar-lhe-ia uma homenagem. Ele e o meu marido faleceram num desastre há quase cinco anos. Um camião veio para cima deles, quando regressavam de uma festa de anos de colega da escola.

Alberto: não sabia. Sinto muito.

[silêncio]

Alice: eu escrevi contos como A Menina de Gesso e o Militar de Aço e A Borboleta de Cinco Asas, por exemplo. Gostaria igualmente de adaptar os meus contos a teatro radiofónico, conquanto escrevesse muito sobre fadas e feiticeiros. Naquele falei de paz e guerra.

Alberto: acha que se pode falar de guerra e paz quando há a guerra em Angola e Moçambique?

Alice: mas aquilo é um ataque à soberania portuguesa.

Alberto: eu fiz a tropa toda aqui em Lisboa. Mas houve companheiros que já faleceram em África em combate. Acho um erro o que está a acontecer. Por isso, sugiro que não incluamos o tema.

Narrador: notou-se em Alice um sinal de aborrecimento. Ela ficou a pensar que Alberto se mantinha rebelde e crítico do regime. Como a aconselhara Maria da Paz Barros dos Santos, a responsável de programas internacionais, a escolha de Alberto podia tornar-se perigosa. No entanto, ele era muito culto e criativo e Alice pensara em tê-lo como encenador e talvez a ajudasse ainda na escrita dos episódios. O regresso à Faculdade estava a ocupar-lhe muito tempo e os alunos eram mais exigentes do que anos antes.

[som: alguém a bater à porta]

Voz F: professora, acha que posso entrar e falar consigo sobre o meu trabalho?

Alice: agora, não. Estou a acabar esta reunião e depois pode entrar. [para Alberto] Vou pensar na sua observação. Mas tenho de reformular o meu plano. Eu quero entregar a proposta fundamentada na Emissora no máximo de um mês. Tenho ainda de falar com o sonoplasta Castela Esteves.

Alberto: o que espera de mim, concretamente?

Alice: que me ajude na escrita e que seja o realizador, dada a sua experiência no teatro de palco. Não sei o valor que a Emissora pode pagar, mas falaremos disso dentro de uma semana. Acha que nos podemos encontrar aqui de novo na próxima terça-feira?

Alberto: sim.

Alice: então, leve estas páginas com as minhas sugestões. Dou-lhe liberdade para aceitar, discordar e propor.

[apoio bibliográfico - Natércia Rocha (1984). "Breve História da Literatura para Crianças em Portugal". Lisboa: Instituto da Cultura e Língua Portuguesa]