Teatro radiofónico rápido (7)

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"Encontros e reencontros de Alice e Alberto"

Nota prévia: este teatro radiofónico é ficção. Se espreitarem aqui a realidade, oh, é puríssima coincidência!

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[som de fundo: cafetaria, com vozes e sons de chavenas]

Alice: desculpe marcar para aqui, mas pareceu-me melhor virmos à Biblioteca Nacional e começarmos a ver o que podemos ler para adaptar.

Alberto: tenho umas ideias, embora ainda vagas. Gostaria de incluir a raposa Salta-Pocinhas do Aquilino Ribeiro (O Romance da Raposa), os Contos Gregos de António Sérgio e José Gomes Ferreira (Aventuras do João Sem Medo). E A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner, Matilde Rosa Araújo, Ilse Losa, Alves Redol e Irene Lisboa. Foi muito recentemente representada em palco uma história de Norberto Ávila, Histórias de Hakim.

Alice: bom, parece que temos material para 30 episódios. Eu também recuperei os nomes de Olavo d’Eça Leal, Adolfo Simões Müller, Maria Archer e Alice Ogando, os três primeiros a ganharem prémios do SNI. Aliás, algumas das obras ocupariam mais de um episódio, o que não podemos fazer. A ideia é uma antologia – um autor por episódio. Alguns dos nomes temos de ver melhor, mas talvez pudéssemos fazer uma segunda série, se a primeira alcançar sucesso. Não quero incluir Alves Redol e António Sérgio, porque não quero politizar.

Alberto: compreendo, mas partir logo com proibições, não me parece boa estratégia.

Alice: tenho notícias da Emissora. Só aceitam dez episódios de 40 minutos. O Represas disse-me que houve pressões. Parece haver teatro radiofónico a mais na programação. Não acho que tenha sido da Odete, pois ela anda em depressão e quer-se refugiar em Fátima. O casamento dela nunca correu bem. A Ogando também não deve ter dito nada. O que ela quer é escrever e publicar, seja pelo nome seja por Mary Love. A família é grande e precisa de ser sustentada. E também não acho que o Müller o tenha feito. Eu aprecio muito o seu trabalho. A Emissora teve uma experiência recente, com o diretor de programas que saiu, que contratou um realizador e um adaptador e depois, sem se saber porquê, mandou-os embora. Foi uma perda de prestígio para todos. Mas esse Gonçalves não percebia nada de rádio. O que sei é que a Emissora só pode pagar a si, enquanto realizador, três mil escudos. Julgo que ainda é negociável até aos 3500$00, mas isso depende da proposta. Nem consegui o sonorizador que queria. Espero que o que me propõem seja igualmente bom.

Alberto: o dinheiro é importante para mim, neste momento. Eu queria encenar Vidas Íntimas, de Noël Coward, mas não consigo no D, Maria II. Preciso de amealhar dinheiro para essa aventura.

Alice: não conheço a peça. De que trata?

Alberto: oh, foi a peça mais famosa dele, escrita em três dias em 1930. Trata de casais que vivem não felizes, nem juntos nem separados. Se quisermos, nem no casamento nem no divórcio. Dois casais divorciam-se e reencontram-se, agora cada um casado com outro. Apesar de aparentar ser uma comédia leve, o que não é, vou apresentá-lo à Luzia Maria Martins. Ando à procura de atrizes para os dois principais papéis: Amanda e Sybil.

Alice: a Linda desempenha um desses papéis?

Alberto: nos últimos tempos, só arranjámos divergências. Além de atriz, ela quer consolidar a carreira de realizadora de televisão e anda muito ocupada com isso. Já não a vejo há mais de duas semanas.

[silêncio no diálogo; sons da cafetaria: alguém a pedir um café e um bolo]

Alice: proponho que cada episódio contenha um conto, pelo que temos de analisar textos curtos para mais fácil adaptação. Talvez hoje possamos decidir quatro contos, de modo a eu apresentar já uma proposta séria à Emissora, isto é, ao Alberto Represas. Que tal Ana de Castro Osório, Virgínia de Castro Almeida, um nome proposto por si, a Sophia, e um dos meus?

Alberto: está bem. Então, vamos para a sala de leitura.

Narrador: Alice e Alberto pareciam sintonizados, mesmo com a referência a Luzia Martins. A saída de Linda da vida de Alberto e a alusão à peça de Coward touxeram novas expectativas. Mas não se sabia se eles voltariam à discussão política de encontro anterior. Menos a diferença de idade e mais as opiniões diversas sobre a sociedade eram para considerar. Ela madura e culta, ele rebelde e a aprender depressa. O caminho dos dois parecia duplo: montar episódios de teatro radiofónico e afinar opções pessoais. Setembro de 1971 aproximava-se do fim.