Teatro radiofónico rápido (9)

Separadores primários

Imagem alusiva ao tema
Outra imagem alusiva ao tema
Outra imagem alusiva ao tema
Outra imagem alusiva ao tema

No teatro radiofónico até 1974, e de modo simples, distingo os seguintes modelos: 1) heroico e patriótico do Estado Novo, 2) teatro nacional e internacional, 3) folhetins, 4) independente, e 5) SNI. Fixo-me no último.

O SNI (Secretariado Nacional de Informação) tinha duas funções principais, a da propaganda do regime e a da censura ao escrito, áudio e visual. Mas igualmente uma terceira função, paternalista, a de querer formar espíritos, aliás na senda do seu fundador, António Ferro. Daí os concursos de locutores e de prémios para teatro radiofónico. Se, naquele, conseguiu atrair gente honrada e que fez bons percursos na rádio, este foi um desastre completo. Ninguém aparecia com peças de qualidade decente.

Uma das críticas está estampada em documento interno do SNI: "O nível do teatro radiofónico do SNI está abaixo de toda a crítica, desprestigiando o Organismo, e, tal como é feito, não tem a mínima vantagem, servindo apenas para se perder tempo e dinheiro" [Noël de Arriaga, 10 de outubro de 1956].

No introdução a uma das peças premiadas, lia-se ser "verdadeiro teatro radiofónico e não o que vulgarmente se transmite que é teatro pela Rádio"."Caminhos do Senhor", de Campos de Figueiredo, ganharia o 2º prémio do concurso do SNI, depois transmitido em Rádio Graça em 4 de dezembro de 1956. Esta começava assim: "Um toque de sinos a batizado. Clara: «ontem, a esta hora, os mesmos sinos dobravam a defuntos. […] No mesmo instante em que o padre batiza uma criança, deve estar algures no mundo alguém a morrer. […] é melhor não pensarmos nos mistérios e nos contrastes das coisas deste mundo. Só Deus sabe porque nascemos e morremos»”. Pouco depois, a peça tinha um separador musical, de Cole Porter, "Out of this World".

Se eu tivesse concorrido com a minha peça de rádio nesses tempos do SNI, qual seria a resposta? Inepto? Amoral? Convencido e armado em intelectual de trazer por casa?

Gravura: "Rádio Nacional", 5 de junho de 1947