Teatro radiofónico rápido (11)

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"Encontros e reencontros de Alice e Alberto"

Nota prévia: este teatro radiofónico é ficção.

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Narrador: algumas reuniões depois, Alice e Alberto tinham decidido por um modelo de episódios a percorrer séculos, combinando história de Portugal, aventuras, costumes e profissões. Isso deu mais trabalho do que adaptar histórias já escritas, mas revelou a vantagem de usar material novo, com o narrador a ligar épocas e personagens, e dois a três atores que se adaptavam a novos papéis. Os ensaios decorriam nas instalações da Emissora Nacional à rua de São Marçal e até tiveram a presença do diretor de programas. Os coordenadores do teatro, que reorientaram a matriz infantil para adolescentes, combinando com a pedagogia, conseguiram juntar os atores João Lourenço, Irene Cruz, Armando Caldas e Francisca Maria, de carreiras já sólidas.

Voz G: acabamos de ouvir o primeiro episódio da série História e Histórias. Teatro Radiofónico para a Juventude [genérico do programa, montagem de Jorge Alves (1914-1976)].

Represas: Alice, parabéns. O episódio está muito equilibrado. Gostei da voz do narrador.

Alice: o Alberto esmerou-se.

Represas: mas onde está ele?

Alice: estou preocupada. Ele foi falar com um editor aqui em S. Bento, o que levaria pouco tempo, vindo logo para aqui.

Represas: como é que ele anda?

Alice: quando não representa, o que está a acontecer nestes três últimos meses, ele chega a casa depois do programa da rádio. Muitas vezes nem vai à estação, pois deixa as reportagens lá. Está muito disciplinado, anda a escrever um livro sobre teatro nas cinco últimas décadas em Portugal.

Represas: mas continua rebelde, não é? Eu, no começo da década de 1940, também fui assim. Trabalhei na Voz de Lisboa, em Emissões Atlântico, e em Rádio S. Mamede, antes de ser admitido na Emissora Nacional no final de 1944. Achava que podia mudar o mundo, mas adaptei-me a ele. Com o Alberto Fonseca isso pode acontecer em breve.

Alice: eu acho-o já muito maduro. Damo-nos bem. Às vezes, até cozinha e com bom gosto.

Represas: eu aprecio a vossa forma de aparecerem em público. Constituem um casal elegante.

Alice: eu gostava de voltar a ser mãe. Embora a saudade pelo Ivo me mantenha hesitante. Já vai a caminho de seis anos que ele faleceu. Agora, preciso de ter mais cuidado, por causa da idade.

Represas: e na Universidade não levantam problemas? São tão conservadores!

Narrador: Depois de hesitações, atentos a amigos e colegas, em especial os associados com as suas profissões, num momento em que as clivagens se faziam acentuar pelos acontecimentos da guerra do ultramar, a relação de Alice e Alberto evoluiu, tornando-se um casal. Ela sentia-se remoçada e feliz, esquecida a solidão de anos anteriores, e aceitara algumas diferenças políticas (ou, pelo menos, não se expressava com frequência), ele empreendedor e ousado na sua expressão artística. Ao longo de meses, manteriam a relação muito discreta ou mesmo secreta para alguns amigos. A casa grande dela acolheu uma parcela da biblioteca dele, cheia de livros de teatro, e um canário velhote, mas ainda bom cantor.

Alberto [esbaforido]: desculpem o atraso. O editor atrasou-se e, ainda por cima, recebeu outra pessoa antes de mim. Não podia vir embora, porque o assunto que me levou lá era importante. Então, como correu a emissão?

Alice: muito bem, até esteve cá o presidente, o Rogeiro. Ele manda cumprimentos.

Represas: vocês estão atrasados. Estive a ver e ainda não marcaram a gravação do quarto episódio.

Alice: vamos marcar para o começo da próxima semana. Estive a fazer uns retoques num dos diálogos. Quisemos colocar um diálogo com Alexandre Herculano, a refletir na importância do historiador enquanto profissão.

[fotografia de Jorge Alves do Arquivo RTP]