Teatro radiofónico rápido (12)

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"Encontros e reencontros de Alice e Alberto"

Nota prévia: este teatro radiofónico é ficção, com um pouco de realidade à mistura (por exemplo, as imagens são reais).

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Alice: o que aconteceu ao programa da rádio?

Alberto: foi suspenso. E julgo que não vai voltar a emitir.

Alice: a razão foi aquele comentário sobre os israelitas assassinados pelos terroristas palestinianos?

Alberto: a razão é mais profunda, como sabes, Alice. É um longo historial de violência.

Alice: nos jogos olímpicos? Com atletas? Aquilo foi a sangue frio. Ponto final.

Alberto: o jornalista explicou bem. O SNI e o governo é que viram ali manobra para denegrir o império, falar contra a guerra do ultramar.

Alice: e não foi?

Alberto: não, o comentário nada diz sobre isso.

Narrador: Alice e Alberto estavam a planear umas pequenas férias fora do país. O ano entre os dois tinha corrido bem.

Alice: e, agora, o que vais fazer?

Alberto: esperar o que vai acontecer. Têm-me falado do serviço de noticiários que a Renascença vai criar. Agora que eu tinha material para uma série de reportagens. Tipos de Lisboa. Sabes, consegui entrevistar um daqueles pregoeiros dos anos 50. Ele vendia tecidos e panos pelas feiras, é um poeta popular, a lembrar o Aleixo, tem um filho em França que é pintor.

Alice: mas a Renascença ainda é um assunto vago. Acho que andas a escolher mal os empregos.

Alberto: o país é pequeno e parece não gostar dos que inovam, dos que querem navegar contra a maré. Olha, vamos ao cinema? Voltou ao Cinema Estúdio do Império o filme O Recado. Quer rever o papel da Tété.

Alice: ou vais pela Maria Cabral? Sim, vamos. Precisamos de espairecer.

[sons de cafetaria]

Alberto: gostei de rever o filme. Sim, Maria Cabral [1941-2017] tem um bom desempenho. Eu também gostei do filme Pedro Só [Alfredo Tropa, 1971]. Lembras-te do papel da Ermelinda Duarte? Ela passou há dias no programa da rádio.

Alice: a que faz de prostituta? Curioso é que os dois filmes têm a mesma assistente de realização: Solveig Nordlund [1943-]. A sueca apaixonou-se por Portugal. Por culpa de Alberto Seixas Santos, não é?

Alberto: ela disse-me há dias que concorreu a uma bolsa da Gulbenkian. Está muito esperançada em ganhá-la. O programa tinha aprazado uma conversa com ela.

Alice: olha, vamos para casa. Tenho de começar a preparar o tema sobre a revista Presença.

Narrador: o casal parecia mais calmo, agora. Mas o acontecimento continuaria a dominar as suas conversas durante algum tempo e deixaria sequelas, no que seria o verdadeiro primeiro desencontro de Alice e Alberto.

[Diário Popular, 7 de setembro de 1972; imagens de Maria Cabral, filme Pedro Só e Solveig Nordlund retiradas da internet]