Teatro radiofónico rápido (13)

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"Encontros e reencontros de Alice e Alberto"

Nota prévia: este teatro radiofónico é ficção, à mistura com alguma realidade.

7

Alice: olá. Já chegaste?

Alberto: cheguei ontem. Mas precisei de ir à casa da avenida da Liberdade.

Alice: às tuas águas-furtadas? E estava lá a Linda?

Alberto: ela está fora. Fica tranquila, pois não há regresso ao passado. Eu precisava de consultar dois livros que ficaram lá e trouxe-os agora.

Alice: e balanço da turné?

Alberto: foram quase duas semanas com a peça mais recente do teatro de Luzia Maria Martins (1927-2000). Levámos Bocage – Alma sem Mundo. Mas reduzimos a dois palhaços e dois vagabundos. A censura não permitiu diversas cenas e reduzimos os atores. Aproveitámos isso para caber num automóvel em viagem pelo país. Até vendi bilhetes e montei cenários. Representámos em Faro, Évora, Castelo Branco, Porto e Aveiro. Já não conseguimos atuar em Vila Franca de Xira.

Alice: e mais novidades? E sobre nós?

Alberto: Sabes, durante estes dias falei de nós à Helena [Helena Félix. 1920-1991]. Ela é muito compreensiva. E contou-me a sua vida com a Luzia. Foi um deslumbramento quando se conheceram em Londres, estava a Helena a frequentar um curso de teatro. A Luzia fazia rádio na BBC e era correspondente do Diário Popular. Quando regressaram a Portugal e fundaram o seu teatro em 1964, tiveram grandes dificuldades. A sua união não era bem recebida. Havia muitos preconceitos. Mas as duas deram-se sempre bem, embora a Helena me falasse em encontros e desencontros. Fazem parte da vida a dois, sentenciou ela. E tu?

Alice: o ambiente na universidade anda tenso. Os alunos de Direito estão a influenciar muito os de Letras. E os vigilantes da faculdade estão violentos, parecem cães raivosos. Pela primeira vez, não compreendo esta escalada e estou apreensiva. Tenho dormido mal. As aulas têm sido nada produtivas. Anda toda a gente de cabeça no ar.

Alberto: vamos sair? Abriu um sítio novo com bowling. Estou com vontade de deitar abaixo todos os pinos com uma só bola, fazer strike. Têm um sítio para comer coisas ligeiras.

[sons: ruído de sala de jogo. Gargalhadas e gritos]

Voz H: olá, professora Alice.

Alice: olá, Gonçalo. Apresento-te o meu marido, Alberto Fonseca. O Gonçalo Araújo é um novo assistente da Faculdade. Trabalha diretamente com o professor Prado Coelho. Espero que termine em breve o doutoramento, para eu ficar envergonhada, que nunca mais acabo.

Voz H (Gonçalo): muito prazer. É a terceira vez que venho cá. Dá para descomprimir do ambiente da faculdade. Há muitas reivindicações e ameaças no ar. Espero que a época de exames não seja suspensa, com todo o trabalho do ano a ir para o lixo. Não sei se o professor Fernando Barreira tem mãos para controlar tudo.

Alberto: a universidade precisa de ser reconstituída. Já em 1962, quando lá andei, tinha essa ideia. O ensino é muito direcionado, o aluno não tem hipóteses de pensar e criticar. A Alice e eu temos conversado muito sobre isto. Nem sempre ganho com os meus argumentos, mas, pronto, é o que eu penso.

Voz H: o que faz?

Alberto: sou ator, acabei de fazer uma turné com o Teatro Estúdio Lisboa. Representámos Bocage – Alma sem Mundo. Tencionamos ir a Vila Franca de Xira apresentar As mãos de Abraão Zacut, de Luís de Sttau Monteiro. E entrei há pouco como redator de noticiários na Rádio Renascença.

Alice: e está a escrever um livro sobre teatro.

Voz H: uau. Parabéns.

Alice; quer vir jantar connosco ali? Algo ligeiro.

Voz H: obrigado, mas estou à espera da Carolina, a minha namorada. Ela quer fazer uma partida de bowling quando chegar.

Alice: então, adeus. Bom jogo.

[despedidas]

Alberto: parece-me um bom tipo. Nada bafiento como alguns dos teus colegas. Olha, e gostei de me apresentares como o teu marido.

Alice: e não é verdade?

[risos e som de um beijo]

Narrador: Alice estava muito alegre e respirava jovialidade. O reencontro dera-se bem melhor do que ambos imaginaram após as semanas de ausência. Alberto sentiu essa felicidade nela, realçada pela blusa cor de mostarda e pelo lenço atrevido ao pescoço que trazia [forma retirada de livro de Curt Meyer-Clason]. Até pensou em falar de casamento formal, mas concluiu ser uma ideia ainda deslocada.

[Imagens da exposição patente no museu do Teatro em 2013 sobre Luzia Maria Martins]