Teatro radiofónico rápido (14)

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"Encontros e reencontros de Alice e Alberto"

Nota prévia: teatro radiofónico ficcionado.

8

[som de toque de campainha de habitação]

Alberto: obrigado, por terem vindo.

Voz I: obrigado, nós. Trouxemos aqui uma garrafa de vinho e uma sobremesa surpresa.

Alberto: obrigado, Matos Maia. É uma alegria estarem em nossa casa. O Curado Ribeiro e a esposa já estão cá.

Alice: entrem. Estejam à vontade.

Narrador: nos meses mais recentes, o casal Alberto e Alice habituara-se a receber visitas para jantar, convívios que serviam para confraternizar, abrir caminhos e trocar conhecimentos. No caso de Matos Maia e Curado Ribeiro, Alberto Fonseca recebera deles um convite para adaptar uma peça à rádio. E nada melhor do que falar com dois dos maiores especialistas do teatro radiofónico.

[sons: ruído de garfos e talheres, algumas risadas]

Voz I (Matos Maia): o risoto está muito bom. Nunca tinha provado uma especiaria asim.

Alice: é obra do Alberto, o chefe de cozinha.

[risos]

Alberto: Matos Maia, como foi em 1958, com a guerra dos mundos?

Voz I (Matos Maia): eu era jovem e nem pensei nas consequências. Ri-me quando o PIDE me disse que, numa próxima ocasião que eu prevaricasse, ele me prendia nem que eu estivesse refugiado na Lua. Com o sucesso previsto da guerra dos marcianos, eu esperava adaptar outra história, a de uma criança que caiu nas obras do metro, ferindo-se, mas sem que ninguém se apercebesse de imediato. A PIDE poderia julgar tratar-se de um rapto, o que era inconcebível no regime de lei e ordem de Salazar.

Voz J (Curado Ribeiro): a adaptação de teatro radiofónico às coisas do sobrenatural era ainda mais antiga. No meu livro, eu escrevi sobre a peça radiofónica Maremoto, de Pierre Cusi e Gabriel Germinet (1924). A peça foi proibida em França após um ensaio e pressão da opinião pública, mas traduzida e emitida no Reino Unido em 1925 e radiofundida em França apenas em 1937. Em Maremoto, com destaque ao naufrágio de um navio, a rádio ocupou o centro da peça. Também René Sudre (1945) contou o caso de L’Agonie du Dirigeable L 303, que impressionou muito os ouvintes de uma aldeia francesa. Estes, acreditando na realidade do drama, foram rezar para a igreja implorando pelo balão em perigo.

Alice: o peso da palavra. Roland Barthes, na sua semiologia, estudaria uma relação próxima à da peça radiofónica, quando distingue palavra falada (voz) e palavra escrita (texto). Texto, música, sonorização especial, interpretação, realização – em suma.

Voz K (mulher de Matos Maia): pela investigação que o José tem feito, o teatro radiofónico é muito antigo em Portugal. Ele descobriu que, mesmo antes da existência da Emissora, em 1932, foi emitida em Rádio Luso a peça Idílio Campestre, de Mário Monteiro. Não se conseguiu descobrir a história da peça. Mais tarde, em 1950, a Emissora emitiria As Pupilas do Senhor Reitor, uma superprodução para a época, com adaptação de Adolfo Simões Müller e realização de Jorge Alves, música original de José Belo Marques e atores de teatro como Samuel Dinis, Estêvão Amarante, Vasco Santana e Adelina Campos.

Alice: o Simões Müller ainda me falou disso há poucas semanas. Com que entusiasmo ele me contou alguns detalhes, já lá vão mais de 20 anos. Bom, e se fôssemos agora à sobremesa? Parece que há aí uma surpresa. Temos um licor que é fantástico. E vou pôr um disco de Jacques Brel que cá em casa gostamos muito.

Alberto: e falar do nosso projeto de adaptação teatral à rádio.

[ruídos de copos e mais risadas]