Teatro radiofónico rápido (15)

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"Encontros e reencontros de Alice e Alberto"

Nota prévia: este teatro radiofónico é ficção. Os recortes de jornal são verdadeiros e ajudam a compreender a realidade da ficção.

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Alice: o que disseste nessa entrevista? Estar entrincheirado nos serviços de noticiários da estação para evitar que um “inimigo” ocupasse aquele espaço? Ainda por cima és redator-coordenador. Estás tolo?

Alberto: já não aguento a censura. Eu estava empenhado em fazer as notícias e ler os comentários, mas critico a rádio de entretenimento e lamento a falta de profissionais preparados para a rádio interventiva.

Alice: e o que te vai acontecer?

Alberto: já aconteceu. O diretor escreveu que eu não poupei os que neste momento desempenham funções de responsabilidade e que eles deviam merecer-me um mínimo de respeito. Ele pediu o meu despedimento e a direção da estação aceitou de imediato.

Alice: e agora? Numa altura em que fizemos despesas e precisamos do dinheiro todo. Além de que os meus colegas de Letras já me gozaram hoje. Eu a viver com um adversário do regime. Alberto, acabou-se. Preciso de manter a minha dignidade. Tens de ir embora. Não te quero ver mais.

Alberto: tu não vês que o regime está a cair? Foi o livro do Spínola, a reunião da brigada do reumático, a atribuição do prémio da rádio ao jornalista desempregado Adelino Gomes.

Alice: és lunático e infiel a princípios. Foram dois anos e meio perdidos contigo. Gostei muito de ti, fizemos um par de encanto, mas agora já não aguento. Estou cheia de errâncias da tua parte.

Narrador: o casal parecia repetir o sucedido com o ditador Salazar e a viscondessa de Asseca, quando decorriam já os banhos afixados nas portas das igrejas, salvas as devidas distâncias. Ele mais novo, ela viúva. Alice e Alberto já tinham anunciado aos amigos o casamento próximo. Ainda nesse dia, Alberto voltou às suas águas-furtadas, tendo de subir a pé cinco andares. O elevador até ao quarto andar avariara três meses antes e o senhorio alegava falta de dinheiro para repor o aparelho em funcionamento. Além de tudo, tinha de combinar a estadia com a antiga namorada. Felizmente, ela estava em Paris a frequentar um curso de realização de cinema, dando tempo para procurar uma alternativa. Consigo, levou o canário, cada vez mais velho, mas parte da riqueza material do jornalista e ator.

[vozes: multidão a gritar “O povo é quem mais ordena. Fascismo nunca mais”. Músicas revolucionárias]

Narrador: como Alberto previra, o regime cairia pouco depois. Alice, a fascista como lhe passaram a chamar na nova linguagem, foi demitida da faculdade, indo refugiar-se nas Caldas da Rainha, onde morava a sua mãe na casa de família. Alberto, o comunista como passou a ser conhecido por dar a voz em comícios, formou um grupo de teatro, podendo representar à vontade Brecht e os autores neorrealistas. Voltou a Rádio Renascença e reencontrou a atriz Ermelinda Duarte, entre outros colegas de profissão

[vozes em representação teatral]
Voz feminina: Vai, amor da minha vida. Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio. Aquela fogueira, António, há de incendiar esta terra.

Voz masculina: adeus, meu amor, adeus. Adeus! Adeus! Adeus! (Para o povo) Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina. Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim. Felizmente, felizmente há luar.

[sons: palmas]

[Diário Popular, 3 e 15 de abril, 29 de maio e 17 de junho de 1974]