Teatro radiofónico rápido (16)

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"Encontros e reencontros de Alice e Alberto"

Nota prévia: este teatro radiofónico é ficção.

10 (antepenúltimo episódio)

Voz L: a representação tem condições para o êxito. Esta gente gosta de Alves Redol. Já estive aqui o ano passado e foi um sucesso.

Alberto: eu também gosto de Maria Emília. Mas, para aqui, preferia Romeu Correia e Laurinda. Fala sobre a condição da mulher, da ida de Laurinda para a cidade, sozinha e onde a enganam brutalmente. Ou a adaptação de "Engrenagem", de Soeiro Pereira Gomes.

Voz M: mas é uma peça pequena e isso obrigaria a ter outra peça de um ato. Em termos de atores parece-me um número adequado. Ou talvez representássemos numa escola e abríssemos a uma conversa com os alunos. Que achas, Alberto? Estás distraído?

Alberto: estou a ver uma pessoa minha conhecida ali naquela mesa. Dêem-me um momento.

[sons: chávenas de café, cadeira que se arrasta]

Alberto: Alice, tu aqui?

Alice: oh, Alberto, que surpresa. Eu estou colocada na escola aqui de Castelo Branco. E tu, o que fazes por aqui?

Alberto: na escola secundária de Castelo Branco?

Alice: após ser demitida da faculdade, tive de me candidatar ao liceu. Encontrei vaga aqui. Ensino português e francês. Gostava mais de inglês, mas há pouca procura da língua. A gente aqui é simpática. Mas há pouca cultura a mexer, e o inverno tem sido bastante difícil. Vivo num quarto em casa de um casal sexagenário, com filhos já casados e saídos de casa. Tratam-me como se eu fosse a nova filha deles. O tempo custa a passar, em especial à noite, a ver televisão com eles. Concursos, novelas. Estão sempre a fazer perguntas sobre os noticiários. Não compreendem o que é isso de comissões de moradores. Ainda vieram há pouco uns jovens falar sobre dinamização cultural - mas não percebi bem o resultado. Já não vou a Lisboa desde o Natal. Ainda dei um salto às Caldas da Rainha para ver a minha mãe. Ela está bastante doente, mas eu não posso ficar lá, pois não havia vagas, e não tenho meios de a trazer para aqui. Tem sido tudo muito solitário. E tu?

Alberto: ando em turné num pequeno grupo de teatro. Andamos a apresentar peças dos neorrealistas: Redol, Romeu Correia. Nas escolas, ensinamos a literatura e o teatro deles.

Alice: já não nos vemos há um ano, não é?

Alberto [com suspiro]: é verdade. Foste injusta comigo e a vida deu estas voltas todas.

Alice: sabes que não foi assim. Olha, o Simões Müller telefonou-me o ano passado, ainda em março, a convidar-nos, a ti e a mim, para fazermos uma nova série de teatro radiofónico. Mas tu foste embora e depois veio a confusão da revolução. Para mim, tem sido um segundo luto. E não sei se mais violento, pois não tenho a força de então e as condições materiais são bem piores. O ordenado de professora ainda eventual é uma miséria e a inflação come qualquer expectativa de melhoras. Tu criticavas o regime, mas a situação está melhor? Só greves, empresas a fechar. E o peso dos que querem regressar das províncias ultramarinas.

Alberto: e patrões a fugirem para o estrangeiro. Mas que proposta foi essa do Müller?

Alice: ele está agora na prateleira, como sabes. A sorte foi não ter sido saneado. Olha, anda para ali num canto. A proposta perdeu oportunidade.

Alberto: eu conheço bem as pessoas que estão na Emissora.

Alice: tu não és oportunista e não me vais roubar a ideia, tenho a certeza, apesar de tudo o que aconteceu entre nós.

Alberto: temos de conversar. Ofereço-te um bilhete para o espetáculo de logo e, depois, conversamos.

Narrador: após o espetáculo, e numa troca rápida de palavras, Alice e Alberto combinariam encontrar-se no dia seguinte, depois de ela acabar as aulas a meio da tarde. Quando se encontraram à saída da escola, ele pôs-lhe o braço por cima dos ombros dela, a lembrar tempos antigos. Trocaram números de telefone, o que não acontecera quando se conheceram em Lisboa. Ele, que a viu envelhecida e a vestir muito modestamente, não se pode dizer que com pena dela, prometeu visitá-la quando acabasse a turné dentro de duas semanas. Mas ela já perdera a antiga confiança e a sua aceitação foi sem esperança.

[imagens retiradas da internet, sem grande resolução]