Teatro radiofónico rápido (17)

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"Encontros e reencontros de Alice e Alberto"

Nota prévia: este teatro radiofónico é ficção.

11 (penúltimo episódio)

Alice: olá, Alberto. Telefono-te porque preciso da tua ajuda.

Alberto: o que foi?

Alice: eu estou aqui nas Caldas da Rainha e preciso de uma ajuda por causa daquela casa da Lagoa de Óbidos. Lembras-te dela? Quero vendê-la.

Alberto: só posso ir aí no sábado. Pode ser?

[sons: ruído de autocarro em movimento, porta a abrir, passos no chão, toque de campainha de habitação]

Alice: Alberto, obrigado. Entra e senta-te.

Alberto: como tens passado?

Alice: este ano letivo foi melhor. Deixei Castelo Branco. Foi um ano muito difícil. Aqui, estou no meu ambiente. Mas a minha mãe morreu e eu quero resolver umas coisas relacionadas com ela. Pus a casa da Lagoa à venda. Preciso de fazer dinheiro e a casa só me dá despesas.

Alberto: e precisas de mim para quê?

Alice: tenho três propostas e acho que me podes ajudar. Se quiseres, podemos tomar um café no parque para eu te explicar melhor.

Alberto: está bem. Estou preparado para ficar aqui até terça-feira, se for preciso.

Narrador: saíram de casa dela. O outono estava muito suave, como há anos não acontecia. Os dois caminharam até ao café, ela de braço dado nele, ele a acarinhá-la. Ele soubera que ela estava doente com um problema degenerativo, mas achou-a melhor do que quando se encontraram em Castelo Branco. Apesar de pálida e frágil, ela sorria e vestia com mais elegância, a lembrar os tempos de Lisboa.

Alice: eu vinha aqui para o parque D. Carlos quase todos os dias durante a minha juventude. Saía da escola secundária e vinha para aqui conversar com amigas e, até, namoriscar com o Carlos. Depois, muitos anos depois, casei com ele e fiz a vida em Lisboa: Assembleia Nacional, Faculdade de Letras. Nas férias grandes, ainda passei cá alguns anos, em especial depois da morte dele e do Ivo. Fui inúmeras vezes ao museu Malhoa, até já sabia de cor a coleção.

Alberto: eu lembro-me do teu gosto. Aprendi muito contigo.

Alice: e como vai a vida sentimental?

Alberto: lembras-te da Ermelinda, a atriz do Teatro Estúdio. Ainda namorámos, mas lembrava-me sempre de ti. Foi coisa de pouca duração. A tua cultura e sensibilidade, o teu bom senso. Tenho tido saudades.

Alice [com gargalhada, a primeira em muito tempo]: estás muito meloso, tu. Oh, não me enganas. Isso parece música celestial. Ah. Nem me visitaste em Castelo Branco depois da turné, como prometeste. Lembras-te?

Narrador: fez-se silêncio. Ele não respondeu. Ela mexia na chávena de café com a colher. Parecia estar a ganhar fôlego.

Alice: no ano em Castelo Branco, enquanto estava com os velhotes da casa onde vivi, apercebi-me da sua cultura popular e de alguns amigos deles e pus-me a fazer uma recolha de contos e tradições da região. Até me deram fotografias e gravuras. Eu, com um pequeno gravador de cassetes, gravei horas de conversas. Tenho estado a reproduzi-las. Hei de mostrar-te. Acho que pode dar um volume, embora os tempos não estejam apropriados. Agora, conta-me de ti.

Alberto: depois da turné, decidi fazer algo mais concreto. Lembras-te do livro sobre teatro?

Alice: sim.

Alberto: nunca mais o retomei. Têm-me faltado o teu incentivo e os teus ralhetes [sorriso de ambos]. Pedi uma bolsa de investigação e consegui-a na Gulbenkian. Por um ano. Já passaram três meses, mas confesso que não tenho avançado tanto como queria. Preciso de um ambiente calmo.

Alice: as Caldas da Rainha oferecem isso tudo [novos risos, novo silêncio]. Antes de 1974, eu tinha muitos amigos aqui e em Lisboa. Mas quase tudo desabou. Só mais recentemente, voltei a relacionar-me aqui. Claro que talho, mercearia, retrosaria e cafés está tudo bem. No último ano, três casais retornados de Angola vieram viver para aqui perto e relacionámo-nos. Eles são cultos, adaptaram-se ao trabalho em duas cerâmicas, quer na moldagem quer no design. Parece-me até que compraram uma delas, que estava quase a falir. Dizem estar a ganhar dinheiro. E os filhos estão contentes com a escola. Nos últimos meses, foi-me diagnosticada uma doença do foro neurológico. Pedi baixa na escola e fui a uma junta médica. Estou a preparar a reforma antecipada e preciso de dinheiro, pois a reforma não me vai chegar para viver. Vá lá, já incluíram os anos de deputada e de professora da universidade. Talvez tenha também de vender o andar de Lisboa.

Alberto: oh, isso não. Estão lá memórias de dois anos e meio de vida em comum.

Alice: outra vez meloso? Isso não faz o teu género. Olha, logo à noite falo-te nas propostas de compra e venda da casa da Lagoa de Óbidos.

Alberto: está bem. Fala-me então do teu livro. Recebi uma proposta da RDP para fazer adaptações de contos e histórias populares. O nosso começo foi com a rádio, lembras-te? E os elogios que recebemos. Podíamos retomar, não achas?

Alice: já te disse. É uma recolha de tradições, com música também. Há uma espécie de cancioneiro.

Alberto: como o recolhido por Michel Giacommeti e pelo Lopes Graça?

Alice: mas antes pelo Armando Leça, não esqueças. Já nos anos 40, ele andou a palmilhar o país, ainda trabalhava com fita de arrasto, nem sei como ele conseguia gravar. Olha, já está a anoitecer. Estamos aqui há mais de três horas. Nunca conversamos durante tanto tempo seguido.

Narrador: saíram e passearam pelo jardim. Acertaram, para os dias seguintes, visitar o museu e dar um salto à Foz do Arelho e ver a casa. Também referiram a vontade de regressar a Óbidos. Pareciam o velho casal da rua Edison, em Lisboa, quando levavam as compras da semana e o jantar para facilitar as tarefas domésticas. E riam muito. Alice não sabia por quanto mais tempo poderia sorrir.

[no lvro https://research.unl.pt/ws/portalfiles/portal/5642729/IndustriasArquivos..., tenho um texto sobre a história da rádio em Portugal]

[imagens de Armando Leça, Fernando Lopes Graça e Michel Giacomet, retiradas da internet]