Uma canção de Moniz Trindade

Separadores primários

Na imagem, Manuel Bivar, António Eça de Queirós e Armando Stichini Vilela

Moniz Trindade foi cantor de jazz, canção e fado, ligado ao grupo de artistas da rádio da Emissora Nacional. Do seu repertório, incluiu-se “Feiticeiro do Amor”. A letra, aos olhos de hoje, é muito ingénua, mas provocou reações na época em que a música foi lançada [observação: na escuta da canção, não consegui perceber duas palavras, que aparecem entre parêntesis reto com reticências]: “Vinde a mim, raparigas / Se querem casar. / Eu sou sábio em coisas de amor, / Sei as lindas cantigas / Das penas de amar. / Sei fazer casamentos sem dor, / Molhar num sorriso, num beijo. / Adivinho os corações, / Sei escrever a palavra desejo / Ou apenas as desilusões. / Eu ensino os segredos / Que um beijo deixou / Nas gotitas de débil […]. / E desfaço os enredos / Da dor que ficou / Sem ninguém descobrir o sinal. / Adivinho todo o passado também / E sei ler melhor que a mulher. / Aprendi a ser […] / Não minto a ninguém / E dou consultas a quem as quiser”.

Um ouvinte beirão escreveria anonimamente uma carta a Salazar, que a reenviou a António Eça de Queirós, filho do escritor e presidente da Emissora Nacional à época, depois de ter sido responsável do SNI. A carta falava de uma letra com palavras pornográficas, lascivas e outros adjetivos próximos. Queirós rapidamente escreveu ao ditador, comentando que os textos em versos das cançonetas eram geralmente de fraca qualidade e de sentimentalismo aflitivo. Mais, o texto da cançoneta era idiota, resumia o presidente da rádio. Aos assistentes musicais da Emissora Nacional podiam escapar segundos sentidos das letras, dado o trabalho de escolha e censura. A Emissora Nacional tinha quase 26 mil discos na discoteca – mais precisamente 25618 no final de 1952.

A carta do ouvinte beirão era excessiva. O presidente da Emissora Nacional reportaria a Salazar que o “Feiticeiro do Amor” apenas passara uma vez em ondas curtas e outra vez em ondas médias, garantindo não tocar mais nenhuma vez. Ele quase finalizava a sua carta ao ditador: “A minha grande preocupação será sempre encaminhar os programas de toda a ordem para um nível de dignidade e qualidade”. Na verdade, Eça de Queirós cortara pessoalmente já muitos discos de cançonetistas famosos, em especial brasileiros e franceses, recebendo críticas azedas. Mas ele, quase num queixume, não podia eliminar toda a música internacional.

António Eça de Queirós sucedera ao impetuoso António Ferro no SNI e na Emissora Nacional. Onde este resplandecia em imaginação, aquele pretendia somente conservar a ordem burocrática do regime.

Na imagem, Manuel Bivar, António Eça de Queirós e Armando Stichini Vilela, o grupo dirigente da estação (Rádio Nacional, 2 de agosto de 1952).

A partir de Fernando de Castro Brandão (2015). Cartas Singulares a Salazar. Lisboa: Europress, pp. 344-346

[Obrigado a Gonçalo Pereira Rosa por me ter dado a conhecer o livro]